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O Mal Banal




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Gustavo Miquelin Fernandes


"Meu nome é Legião" - Marcos 5:9




Em "Os Demônios" (1871), Dostoiévski narra um grupo russo imbuído da intenção de fazer uma "Rússia melhor", composto por elementos bastante  heterogêneos, com personagens muito bem caracterizadas e que compunham um grupo revoltoso chamado "os nossos".

Interessante observar que o o romance foi publico em 1871 e, portanto, bem antes da Revolução de 1917. No romance, os tipos humanos se misturam efusivamente, variando entre ateus, conspiradores, neuróticos, assassinos, idealistas, niilistas, etc. A literatura de Fiódor Dostoiévski é realmente riquíssima e quem a lê muda completamente a forma de encara o mundo, a vida e o próprio eu.

Será que os demônios do livro seriam as próprias personagens perversas?

A especulação sobre o tema é antiga e rica.

O livro "Martelo das bruxas" ou “Malleus Maleficarum”, de Jacob Sprenger e outros inquisidores, obra de 1485 (ou 1487) ensinava didaticamente identificar ou reconhecer pessoas suspeitas de serem feiticeiras ou que tivessem alguma relação com demônios, e como julgá-las e puni-las de forma eficiente.

Etimologicamente, demônio origina-se do grego "daimon", que significa gênio.
O filósofo Sócrates afirmava que ouvia uma voz pertencente a um daimon. Desta forma, antes de tudo, devemos ter em mente o significado original do termo.

Farei uma pequena reflexão sobre o mal em nossa sociedade. Impressiona bastante o que se tem ouvido sobre a conduta humana.

Com a eclosão e o saldo das grandes guerras do século passado, pensou-se que o mal seria estigmatizado e banido do padrão-normalidade da consciência dos povos.

Não foi.

Foi simplesmente, como diria Hannad Arendt, banalizado.

E integrado numa concepção relativista e bastante acolhedora que embala seu predomínio em todos os campos da vida humana.

Ruy Barbosa, patrono dos advogados brasileiros, chamaria isto de "triunfo das nulidades", onde pessoas parecem que tem vergonha de serem honestas e assim se assumirem.

Místicos falam de uma sociedade espiritual de transição; céticos, num descalabro consciencial jamais visto; políticos, exploram as situações, mercanciando a tragédia alheia e intelectuais fazem propaganda ideológica.

A guerra e os conflitos mundiais voltam a fazer parte do cotidiano, a América Latina revisita a tirania. O crime de morte não choca mais. Pessoas defendendo e legitimando delitos como o estupro.

Hannah, que escreveu diversos livros tratando do tema, acompanhou jornalisticamente o julgamento de Adolf Eichmann, um oficial da S.S. (Schutzstaffel) que ordenava extermínio de judeus e a prisão deles nos campos de trabalhos forçados na Alemanha.

Na década de 60, quando foi julgado pelos seus delitos, a escritora constatou um homem medíocre, perturbado e levado a agir com automatismo enceguecedor pelo regime a que servia. Um mero carimbador de ordens criminosas.

Um homem aparentemente normal, sem perfil criminoso previamente traçado, e que foi capaz de cometer tamanhas atrocidades, pelo menos indiretamente.

O problema do mal para Hannah é a sua realização sem sua preordenação, sem sua anterior arquitetura ou planejamento. O mal pelo mal que todos podem praticar, de forma amoral.

Referida escritora trata do mal banal, não aquele arraigado, mas aquele do tipo usual,  o mal a tiracolo, para ser usado a qualquer hora.

Uma perversidade prét-à-porter.

Penso que nisto reside o perigo. Este é o gênero do mal predominante na sociedade dita pós-moderna, riquíssima em Ciência, arranjos tecnocráticos notáveis, uma burocracia extremamente atuante, mas paupérrima em altruísmo e espiritualidade.

Este estupor modernista, que obnubila o espirito, dá-lhe ferramentas de ação bastante potentes, embora irrefletidas e que colocam em risco o "alter", a relação com o outro. A Ética vira estética e Estética vira ética.

A sociedade é líquida, plástica e maquiada.

Neste vácuo da Ética, que é reflexiva e pede pensamento, o mal colmata tranquilamente os espaços, agindo de modo viralizado e contagioso. A alteridade é confundida com o egocentrismo, com o egoísmo vil e muito daquela mesma individualidade é perdida.

Assim, fica mais fácil entender a débâcle da consciência humana.

Carl Gustav Jung, formulador da noção do "inconsciente coletivo", baseado na teoria dos arquétipos, tem uma frase bastante conhecida: "Nós não somos anjos ou demônios, somos os dois". O dramaturgo inglês William Shakespeare também diz algo neste sentido: "O inferno está vazio e todos os demônios estão aqui".

No Cristianismo, o mal está inserido na teoria da "Privatio Boni", ensinada por Santo Agostinho, ou seja, o mal simplesmente inexiste como categoria ontológica distinta, sendo apenas uma categoria reflexológica ou por derivação: seria a simples ausência do bem. Como o frio que se constitui pela ausência do calor, ou a noção do escuro, pela ausência da luz, etc.

A discussão é gigantesca e até hoje há muito debate.

Jung, discípulo e depois divergente parcial do Dr. S. Freud falava em "sombras" do ser humano. Aquela porção oculta de nossa interioridade, o depósito de todos nossos "demônios", que constituem o nosso lado perverso.

De per si, a sombra junguiada não é essencialmente má, e sim uma fração de nossa individualidade que não pode ser negada, devendo ser enfrentada, sob pena do processo de criação de neuroses variadas.

No milenar livro da sabedoria chinesa I-Ching (o Livro das Mutações), que o popular mitificou como sendo uma vulgar arte divinatória, e não parte de um sistema cosmológico, obra que inspirou o Tao e que apresentou a noção do  "yin-yang", simbolizando as porções contrárias da vida: o frio o quente, o seco e o molhado, o bem o mal, enfim, as polaridades cosmológicas totais.

Voltando a Jung, referido símbolo seria representado pelo si-mesmo, onde a sombra e a consciência são suas polaridades existentes.

No entanto, ocorre que se levarmos em consideração um critério positivo e fenomenológico para entender o mal, e justificando este critério pela sua real criação, in concreto, e suas as decorrências reais, seremos forçados  a admitir sua positiva existência.

Do concreto se extrai o concreto.

Como negar os horrores das guerras, a hediondez dos crimes de morte, de assassínios torpes e fúteis?

Como negar as tiranias, o desrespeito total ao alter, a frutificação da maldade?

Parece-me que o demônio, em sua concepção figurativa, faz parte da unidade, como o lado "sombra", perverso, mal, tirano de alguns seres humanos - muito embora o tentame constante de negá-lo, apondo-lhe circunstâncias atenuantes e exculpantes, mascarando a realidade.

O renascentista florentino Dante Alighieri dialogou com o diabo no inferno. Perdeu feio a discussão, concluindo que ele era intelectualmente bem superior. 

Lembrando da etimologia do termo, o gênio, (no árabe, "jinn") o mal habita em todos que desejam praticá-lo, seja pela sombra junguiana, pela ausência efetiva do bem ( a "Privatio" dos cristãos) ou pelas polaridades da sabedoria oriental.

A grande questão é saber se ele faz parte de um todo consubstanciado (união de polaridades) ou transubstanciado (evolução/involução). Matéria para muita disputatio, para muitos e longos debates.

Concluo que o mal é categoria concreta, positiva, crescente.

E está banalizado. Olhe para os lados e veja do que ele é capaz. O senso de normalidade, infelizmente, já o admite.

Cabe, neste cenário, aos bons reagirem, já que, como disse
Edmund Burke, "A única condição para o triunfo do mal é que os homens de bem não façam nada."

Por enquanto, ele anda solto por aí.

Seu nome é legião.
14:11:38 . 06 Abr 2014
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http://gustavofernandes.blogfacil.net/blog-b1/O-Mal-Banal-b1-p1501.htm

Comentários

Comentário de: Angelo [ Visitante ]
Basta que os bons se omitam ou que permitam que os vagabundos virem autoridades. Existe uma legião de vagabundos que não se ocupou de alimentar sua mente e tem todo o tempo do mundo para criticar aqueles que produzem, que fazem, que realmente assumem as responsabilidades em tudo que o cerca. Essa turma forma O verdadeiro Inferno no planeta. Viver não é apenas existir e esperar benesses dos outros. É preciso que acordemos e vejamos que o comunitário também faz parte das nossas obrigações, mas alguns nem as suas próprias despesas pagam. Sustentar-se a si próprio e ainda reservar um excedente para os outros vale tanto quando se fala em dinheiro como também em inteligência, cultura e moralidade. Existem até profissionais que vivem da ausência de sua própria responsabilidade e progridem ao cobrar a dos outros, são os chamados críticos, ouvidores, comentaristas, jornalistas e ativistas de direitos humanos. Podem ver essas pessoas não tem profissão alguma, só pegam o que já está feito e usam de toda a sua capacidade para destruir. Mas não se pode generalizar a todos sem conhecê-los, existem exemplos de responsabilidade e competência.
Maquiavel descreveu um tipo de personalidade para o príncipe despida de moralidade, centrada muito mais na necessidade. Saber ser duro ou amoral, ou seja, isento tanto ao bem quanto ao mal é um princípio básico de seus pensamentos.
Às vezes, pequenas mentiras evitam grandes tragédias, como alguma frieza em atos e ações difíceis também evitam prejuízos.
A maioria das pessoas tem a consciência de conhecer as regras, mas acredita estar madura o suficiente para saber quando é importante segui-las ou não, mas essa muleta moral é usada tantas vezes que vemos verdadeiros aleijados tentando se passar por exemplos de dignidade. O cachimbo tem entortado a boca da maioria. Na minha humilde opinião, o problema desse mal banal é essa inutilidade. É o mal praticado automaticamente, sem direção, enquanto o bem é tão racionado e direcionado somente a que se tem afeto, ou no mínimo quando há algum interesse, o que já deveria ser considerado sem valor nenhum.
   07/04/2014 @ 14:19:42

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