GUSTAVO MIQUELIN FERNANDES

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MIRITIBA



http://www.portalphb.com.br/imagens/Humberto_de_Campos.jpg

Humberto de Campos
(
1886 – 1934), o autor, certamente meu preferido, nasceu em Miritiba, no Maranhão.



É o que me lembra: uma soturna vila

olhando um rio sem vapor nem ponte;

Na água salobra, a canoada em fila...

Grandes redes ao sol, mangais defronte...


 

De um lado e de outro, fecha-se o horizonte...

Duas ruas somente... a água tranqüila...

Botos no prea-mar... A igreja... A fonte

E as grandes dunas claras onde o sol cintila.


 

Eu, com seis anos, não reflito, ou penso.

Põem-me no barco mais veleiro, e, a bordo,

Minha mãe, pela noite, agita um lenço...


 

Ao vir do sol, a água do mar se alteia.

Range o mastro... Depois... só me recordo

Deste doido lutar por terra alheia!

11 Jan 2014
Admin · 65 vistos · 0 comentários
A Grande Onda de Kanagawa

Hokusai

Ficheiro:Great Wave off Kanagawa2.jpg
11 Jan 2014
Admin · 74 vistos · 0 comentários
Receita de Mulher



http://conceptinside.files.wordpress.com/2010/11/pin-up-76.jpg

Vinicius de Moraes

As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental. É preciso
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso
Qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então
Que a mulher se socialize elegantemente em azul, como na República Popular Chinesa).
Não há meio-termo possível. É preciso
Que tudo isso seja belo. É preciso que súbito
Tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflita e desabroche
No olhar dos homens. É preciso, é absolutamente preciso
Que seja tudo belo e inesperado. É preciso que umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Éluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como o âmbar de uma tarde. Ah, deixai-me dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos, então
Nem se fala, que olhem com certa maldade inocente. Uma boca
Fresca (nunca úmida!) é também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar as pernas, e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é porém o problema das saboneteiras: uma mulher sem saboneteiras
É como um rio sem pontes. Indispensável
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
A mulher se alteia em cálice, e que seus seios
Sejam uma expressão greco-romana, mais que gótica ou barroca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas.
Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal!
Os membros que terminem como hastes, mas bem haja um certo volume de coxas
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem
No entanto sensível à carícia em sentido contrário.
É aconselhável na axila uma doce relva com aroma próprio
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!)
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre
Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos
Discretos. A pele deve ser fresca nas mãos, nos braços, no dorso e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior
A 37º centígrados, podendo eventualmente provocar queimaduras
Do primeiro grau. Os olhos, que sejam de preferência grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da terra; e
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro de paixão
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta
Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que se fechar os olhos
Ao abri-los ela não mais estará presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber
O fel da dúvida. Oh, sobretudo
Que ela não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.
11 Jan 2014
Admin · 61 vistos · 0 comentários
Nota sobre o politicamente correto na literatura

 

http://revistavilanova.com/wp-content/uploads/2013/12/politicamente-correto.jpg

 


Não há maior forma de discriminação do que o discurso politicamente correto, visto que este divide o gênero humano em categorias, como se, por uma espécie de decreto infalível e inefável, as obras de certos grupos sociais merecessem ser julgadas com foro privilegiado. É como se alguns, devido a contingências históricas de controversa interpretação e enorme complexidade[i], tivessem de ser, imediatamente, reembolsados pelos descendentes dos crudelíssimos homens caucasianos e pelos ultra-exploradores imperialistas ianques. Assim sendo, o que no início parecia um comportamento que indicava respeito ao próximo, tornou-se um veículo de supressão da subjetividade e, por conseguinte, das potencialidades criativas do homem. O ensaísta Luiz Felipe Pondé, em seu Guia Politicamente Incorreto da Filosofia (São Paulo: Leya, 2012), nos fornece uma lúcida síntese da questão:

O politicamente correto é um ramo do pensamento de esquerda americano. Se pensarmos no contexto onde ele nasceu, veremos a ascensão social dos negros americanos no final dos anos 60. Fenômeno semelhante aos homossexuais a partir dos anos 80. A semelhança apenas comprova a tese: assim como a ascensão social dos negros nos anos 60, a ascensão social dos gays nos anos 80 gerou o que podemos chamar de mal-estar com relação ao mau tratamento dado aos gays na vida social comum. Se você encontra negros (ou homossexuais) no mesmo restaurante em que vai jantar, começa a ficar feio dizer piadas desagradáveis diante deles. Antes de tudo, trata-se de um problema de educação doméstica.

Mas, pelo fato de ter sido um fenômeno que entrou para a agenda da nova esquerda americana, a necessidade de melhores maneiras no convívio com os negros acabou por se transformar num programa político de criação de uma nova consciência social – mantras como esse me dão alergia. A diferença entre a velha esquerda e a nova esquerda é que, para a velha, a classe que salvaria o mundo seria o proletariado (os pobres), enquanto, para a nova, é todo tipo de grupos de excluídos: mulheres, negros, gays, aborígines, índios, marcianos… (…) O politicamente correto, assim, nesse momento, se caracterizará por ser um movimento que busca moldar comportamentos, hábitos, gestos e linguagem para gerar a inclusão social desses grupos e, por tabela, combater comportamentos, hábitos, gestos e linguagem que indiquem uma recusa dessa inclusão. Daí foi um salto para virar ações afirmativas, isto é, leis e políticas públicas que gerassem a realização do processo (cotas de negros, gays, índios nas universidades e nas empresas, por exemplo). Associado a isso, a universidade começou a produzir (sendo a universidade sempre de esquerda) teorias sobre como a ideologia (estamos falando de descendentes diretos de Marx) de ricos, brancos, homens heterossexuais, ocidentais, cristãos criaram mentiras para colocar as vítimas (os grupos de excluídos citados acima) como sendo menos inteligentes, capazes, honestos etc. O próximo passo foi a criação de departamentos nas universidades dedicados à crítica da ideologia dos poderosos.

Para entender que o politicamente correto é uma tramóia completamente vil e desonesta, basta que o QI do sujeito seja superior a 12. Quando observamos, por exemplo,  a influência dessa praga na esfera da Literatura, podemos verificar com maior clareza o maquiavelismo da ardilosa tática, auto-contraditória desde a raiz. A título de amostragem, vejamos:

1)    O escritor (branco) Caio Fernando Abreu, que não passa de uma versão gay e subnutrida de Clarice Lispector,  é bastante estudado em nossas universidades não por ter sido gay, mas por possuir um imaginário eivado do decadentismo esquerdista. Não fosse assim, o homossexual Lúcio Cardoso, ficcionista inequivocamente superior ao autor de Morangos Mofados, não teria sido relegado a um semi-ostracismo pela academia.

2)    O Poeta (negro) Cruz e Sousa, um dos maiores simbolistas da Língua Portuguesa, é, atualmente, muito menos estudado do que o subpoeta neomarxista (negro) Solano Trindade. É que, para os politicamente corretos, o valor estético de uma obra é algo completamente secundário. O que importa, ainda que o escritor pertença a o que eles chamam de minoria, é que o poema faça as vezes de panfleto ideológico.

3)    Em que pese ser Cecília Meireles a maior poetisa de nossa Língua, os críticos contemporâneos preferem estudar Ana Cristina Cesar e Alice Ruiz, visto que a cosmovisão destas é acentuadamente feminista e nova-erista.

Conclui-se, portanto, que o discurso politicamente correto, antes de ser um escudo para os fracos e oprimidos, é o Cavalo de Tróia dos criptocomunistas. Por trás de palavras e atitudes impregnadas de doçura, pseudocaridade e bom-mocismo, há a idéia de que devemos discriminar (segregar) os seres humanos e negar peremptoriamente virtudes como a dedicação, o rigor e o mérito.


[i] Ler os ensaios Mentiras gays e A dívida dos faraós, de Olavo de Carvalho (In: O Imbecil Coletivo – Atualidades Inculturais Brasileiras. Rio de Janeiro: Ed. Da Faculdade da Cidade, 1996).


Bernardo Souto é poeta, ensaísta e autor dos livros “Elogio do silêncio” e “Teatro das sombras”.

Fonte: Revista vila nova

11 Jan 2014
Admin · 63 vistos · 0 comentários
Sem título


Paulo Leminski

Eu tão isósceles
Você ângulo
Hipóteses
Sobre o meu tesão

Teses sínteses
Antíteses
Vê bem onde pises
Pode ser meu coração

11 Jan 2014
Admin · 62 vistos · 0 comentários
Tristão e Isolda

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/1/13/John_william_waterhouse_tristan_and_isolde_with_the_potion.jpg

09 Jan 2014
Admin · 72 vistos · 0 comentários
Diálogo Filosófico


Carlos Drummond de Andrade




  • As coisas não são o que são, mas também não são o que não são - disse o professor suíço ao estudante brasileiro.

  • Então, que são as coisas? - inquiriu o estudante.

  • As coisas simplesmente não.

  • Sem verbo?

  • Claro que sem verbo. O verbo não é coisa.

  • E que quer dizer coisas não?

  • Quer dizer o não das coisas, se você for suficientemente atilado para percebê-lo.

  • Então as coisas não têm um sim?

  • O sim das coisas é o não. E o não é sem coisa. Portanto, coisa e não são a mesma coisa, ou o mesmo não.

O professor tirou do bolso uma não-barra de chocolate e comeu um pedacinho, sem oferecer outro ao aluno, porque o chocolate era não.

Contos Plausíveis, in Andrade,C. D. (1992): Poesia e Prosa, Rio de Janeiro: Aguilar, pg. 1261.
09 Jan 2014
Admin · 73 vistos · 0 comentários
Não discuto


http://4.bp.blogspot.com/-IOp2cSA2zmo/Ue8F4dRSk0I/AAAAAAAAKvU/YZ7z7k35uDs/s1600/Paulo+Leinski.jpg

Paulo Leminski

não discuto
com o destino
o que pintar
eu assino
09 Jan 2014
Admin · 66 vistos · 0 comentários
Estórias da Minha Vida



Gustavo Miquelin Fernandes



Sempre fomos, nós os garotos, muito românticos. E no interior tem como ser mais ainda. Em uma noite de muito calor, saímos pra "roubar" algumas rosas na circunvizinhança e presentear as paquerinhas. O amor era tanto que, em certo momento, decidimos não pegar um simples botão ou simples flor, mas sim a roseira inteira, de mais de um metro de comprimento.
--Deixa isso aí, cara! Vai dar b.o.!
--Ah pára, véi, quer prova de amor maior?!
Aí, ao invés de jogarmos a rosa na casa do brotinho, plantamos no seu jardim.


Conta-se que, há muito tempo atrás, o "vô" Zeca Bregadioli, dando um rolê de cavalo encontrou uma cobra e decidiu que a vida pra ela tinha que se acabar ali mesmo. Deu cinco tiros na bicha, até que a munição se acabasse. Matou todas as formigas, toda a vegetação rasteira e nada de acertar o réptil.
Decidindo ser eficiente e acabar logo com aquilo, saltou do cavalo, pegou de um pau e matou a cobra, mostrando que não estava de brincadeira.
Com a sensação de dever cumprido, montou no cavalo e se foi embora.


Na formatura da Cinthia Molina em Ribeirão Preto, um primo dela, vindo de Campinas, encasquetou que a moça da mesa ao lado era uma famosa atriz pornô. E falou horas sobre, me deixando bastante incomodado e um pouco curioso.
--É ela, cara, já vi um monte de filme dessa mina. Tenho certeza que é.
Resolvi tirar a dúvida, aguardando que o namorado ou marido ficasse bêbado e fosse pra pista de dança:
--Senhora, é... por gentileza...a senhora é atriz?
--Não, não. Sou médica. Sou irmã da formanda.
--Ah, sim, muito obrigado e desculpa o incômodo, senhora.
Como eu pensava, não era atriz pornô coisa nenhuma.


Uma grande dificuldade dos mais jovens é compreender o vocabulário dos mais velhos, que a cada geração adquire novas conotações.
Lembro-me certo verão, quando aparecemos pra usar a piscina e meu tio Bartolo questiona todos nós, garotos:
--Muito bem, vocês trouxeram o maiô?
--Tio, só tem meninos aqui. Todo mundo tá de sunga ou shorts.
--Pois então trouxeram o maiô!
Aí vestimos o maiô e pulamos na água.


Um amigo bastante divertido e um pouco simplório, de nome P., querendo desabafar, após ser abandonado pela namorada, veio ter comigo, pedindo um ombro amigo e alguma palavra de paz:
--Estou muito mal por ela ter me trocado por outro. E logo agora que a gente tinha pego bastante "timidez".


Há algum tempo, levei uma mocinha na casa de minha avó onde, nos fundos, havia um pequeno quarto usado para, digamos, assuntos não muito republicanos.
Ocorre que era uma construção muito velha e as portas se abriam e se fechavam sozinhas e do porão vinha uns barulhos muito esquisitos.
Pois que, na primeira abertura da porta do quarto, a menina ficou desesperada e foi parar no meio da rua, bastante nervosa, confessando-me, ontem, que até hoje guarda profundas impressões negativas do local.


Ao abrir o coração para o amigo Tiago Zanotti e arrolar todo meu desânimo de ter de enfrentar praticamente todas as segundas-chamadas, provas de recuperação e ficar ainda com as piores notas, pergunto o seu segredo de jamais enfrentar sequer uma daquelas batalhas aos finais de semana, sendo o mesmo tão burro ou mais burro que este que vos fala:
--Meu segredo é a influência, cara, e também...o charme.


Após 2 SEMANAS INTEIRAS de aulas apenas sobre Feudalismo, com um professor chamado Adriano, uma mocinha de nome M. interrompe o lente e com sua voz bastante estridente e melosa e faz a justa reclamação:
--Ai, professor, quando o senhor vai começar a falar do Feudalismo, que tinha os feudinhos, os castelinhos?
A sala inteira cai na risada e o professor também cai na cadeira totalmente desanimado e sem forças pra continuar.


Professor Francisco (infelizmente falecido), ao me flagrar olhando para o pára-choque de uma distinta mocinha:
--Vai comê, ein!
--Vô nada, professor. Essa mina aí tem namorado.
--Na mão, palhaço!


Tive um companheiro de noitada chamado Alcir. De uns trinta e poucos anos, negro, fala mansa e pausada e que adorava uma cervejinha.
Hoje, é crente e vai da igreja pra casa - e só.
E cada vez que vai a minha casa ou me encontra na rua, pergunta:
--E aí irmão, tá na carne ainda?


Querendo agradar uma paquerinha com algum presente bem original, ao voltar do sítio do meu tio, em Torrinha, trouxe-lhe um lindo caranguejinho marrom.
Não podendo dar-lhe o animal vivo, matei-o e nem podendo dar-lhe inteiro, cortei-o.
Com bastante amor, na escola, depositei no estojo da gatinha apenas a pinça do animal, quase matando-a de susto, e antes a mim também, com tamanha gritaria e desespero:
--Mata, mata!!!!
--Mas já tá morto!!! Eu matei em casa!!!
--Seu ridículo!!! Idiota!!!
E quem agrada as mulheres?


Quando meu priminho Leonardo, com 5 anos, se emburrava, era difícil contê-lo: ficava na pontinha do pé, estufava o peito e mandava com voz grossa:
--Cala a boca se não eu te mato com um sal, uma pimenta e uma faca!
E todos ficavam bem quietinhos com medo desse gênero de morte terrível.


Tive um professor da necessariíssima matéria chamada Teoria Geral do Estado, chamado Paulo Capelotto - homem cultíssimo e de uma elegância quase senatorial.
No último dia do prazo para entrega de alguma atividade acadêmica, pedi mais um tempinho pra que finalizasse o trabalho, ao que dele ouvi:
--Não tem vergonha, não, rapaz, de ser vagabundo?
E esse que vos fala, bastante indignado e ferido em sua honra:
--Mas, o senhor não pode falar assim, não!
--Se não é vagabundagem é o quê?
E eu, já com o ego calibrado a níveis aceitáveis e dando conta da minha total falta de responsabilidade:
--Pois é, tenho vergonha, sim, professor, mas quero mudar...
Faltam educadores como o senhor Paulo Capelotto.


A maior prova de amor que dei à mulher que mais amei na vida foi quando a menininha pediu meu "bichinho virtual" (Rako Rako Dinokun) que eu nem sabia usar e nem achava graça, mas na época era novidade e valia algum dinheiro.
Ela disse que seu sonho era ter um e que, se conseguisse, até poderia ganhar beijo de amor.
Perdi o brinquedo, o beijo de amor, e meu tempo com aquela moça golpista que não valia nada...


Numa prova de História, o enunciado pedia para que discorrêssemos sobre a religião dos povos egípcios.
Eu, criança burríssima e muito avoada, pedi ajuda ao professor que me aconselhou, se não soubesse realmente, chutasse algo.
Chutei algo e discorri que os povos das Pirâmides eram fervorosos Testemunhas de Jeová.


Em 1992 (salvo engano), na cidade de Ubatuba, ao entrar numa dessas lojinhas de "souvenirs", me perdi de minha mãe, estando o estabelecimento bem lotado.
Sem perceber, eu, uma criança bastante burra e avoada, fui me achegando perto de um senhor, morador de rua que logo me estendeu as mãos.
Sem ainda perceber o engano, segurei bem firme, desejoso de não mais desviar-me da família.
Enquanto isso, todos os amigos e familiares riam descontroladamente de mim.
Só então fui notar que minha mãe também estava nesse grupo que achava bastante graça e ria alto da minha cara...


08 Jan 2014
Admin · 79 vistos · 0 comentários
A Doutrinação Ideológica em Sala de Aula


 

http://4.bp.blogspot.com/-qtOFHHdEcYE/UdXHjwb7wjI/AAAAAAAAAHQ/XeFLXh9KWpQ/s418/Happy+Birthday,+Miss+Jones+The+Saturday+Evening+Post+March+17,+1956,+Norman+Rockwell.jpg

 


“A educação exige os maiores cuidados porque influi sobre toda a vida” -Sêneca

 

Gustavo Miquelin Fernandes


 

Infelizmente, hoje ainda há alguns professores que insistem em fazer um direcionamento consciente da massa crítica de seus alunos para certos elementos que chamo de “espantalhos pós-modernos”, e estes, sem penetrar na essência de tais conceitos, saem metralhando retoricamente essas construções, sem a mínima reflexão, tão somente pelo orgasmo cívico a eles causado pelo desconstrucionismo, o remanescente da escola de Frankfurt e o marxismo cultural.


Os professores são os agentes mais importantes neste processo. Universitários e os da escola normal, uns porque pegam os alunos em pleno desenvolvimento crítico e outros, porque já o recebem bem calibrados e com alguns conceitos importantes de ação política.


Assim, há certos professores que transformam estudantes e candidatos a pensantes em propagandistas e revolucionários, sem a mínima responsabilidade.


Emblemático o exemplo da filósofa Marilena Chauí atiçando o ódio contra a classe média, sendo ela mesma integrante dessa classe. Esta senhora é a grande direcionadora de jovens com bastante estoque de energia política, mas desestudados, incultos e que se deixam manobrar por militantes dogmáticos ferrenhos e, no caso dela, pior: uma militante petista, que não é pouca coisa.


A classe profissional mais importante do país é a dos professores. Recebem pouco, trabalham muito e passam por situações constrangedoras: apanham, silenciam antes crimes, recebem ameaças de morte e todo o tipo de violência. Ressalvo e louvo o trabalho de bons professores, que nadam contra uma maré burocrática, baixos salários, a falta de apoio e a politização pedagógica. A par disso, alguns exemplares dessa classe merecem duras críticas. Precisamos apontar os erros no setor educacional.


Determinados agentes infiltrados no setor tratam os alunos, no começo, com manipulação emocional e depois, com manipulação política, tais cachorros de Pavlov.  Escolas pública e privada, é bom ressaltar. 


Para ficar no exemplo: eu tinha uma professora de Geografia que me ensinou que os males do mundo existiam devido à ganância do homem. Isto já é motivo suficiente para uma atuação pontual da Direção do ensino que certamente não foi feita. 


Sabe-se que em Cuba as crianças aprendem desde cedo sobre a biografia do ditador da Ilha, por óbvio totalmente mentirosa e mitificada, o que já incute nas crianças um sentimento patriótico e uma devoção fantasiosa que jamais poderiam existir. Um crime contra a infância. Isso acontece em menor grau, por óbvio, no Brasil.


Não se deve jamais pegar uma criança de sete anos e falar dos destinos do país. Deve- se antes de tudo ensinar a ler, escrever e fazer contas. E só. Aquelas matérias ela decide quando crescer, sozinha ou junto de sua família ou comunidade.


Para que criar uma criança cheia de tendências políticas, raivosa contra o tal do “sistema”, se nem sabe nem o alfabeto,  interpretar leituras básicas, nem fazer divisão com vírgulas?


Na adolescência permanece o mesmo raciocino. Não açular comportamentos hostis nem politicamente tendenciosos, e sim estimular a capacidade literária, dando-lhe oportunidade de conhecer todos os clássicos possíveis, além do reforço daquelas matérias básicas.


E quando mais crescido, o contato com a Filosofia é salutar e visa a consolidar tudo que aprendeu, fazendo a análise crítica daquele conteúdo.


Ressalte-se que além da inoculação da raiva contra entidades imaginárias, temos agora sob o Governo do PT, a erotização precoce, com as conhecidas apostilas de educação sexual.


A docência militante é mais comum que se imagina. Tenho reparado em alguns professores de Universidades e a constatação da desinformação e da manipulação de alguns é imensa. Idiotizados, falando em um linguajar muito específico, com aquele vocabulário tenebroso de “social, democracia inclusiva, tempos de mudança, erradicação da miséria”, que compõe o jargão agitador que esses coitados propagam sem saber que são usados como fiéis instrumentos. Cômico ou trágico?


O termo “cidadania” é outro que me causa profundos arrepios.


Definitivamente, escola não é lugar disso de tamanha agitação. É lugar para se aprender o básico da vida em termos de conhecimento. 


Vejam o ENEM de 2013 e saberão do que estou falando. O proselitismo impera absoluto nesse país, impedindo nossa modernização educacional, cultural e intelectual. A culpa disso é em grande parte dos professores militantes.


Não se trata de não apresentar todas as teses existentes aos alunos, mas apresentá-las como realmente são, sem fantasmagorias ou romantização ou mesmo revisionismo historico. Isso é enganação aos alunos e pais, que confiaram à escola seus filhos.


Todos têm preconceitos, idiossincrasias e ideologias, mas há que tentar quanto puder afastá-los e creio seja sempre possível uma atitude de muita neutralidade em sala de aula, levando em consideração certos fatores graves como a hipossuficiência intelectual dos alunos, a autoridade da figura do mestre e o próprio sistema ético que deve vigorar no ensino. 


Vamos ao meu exemplo, a professora, que se tinha algum problema mental não sei, mas que dizia que o problema do mundo era da ganância dos homens.  Ela tinha criticas muito polpudas ao EUA também. Agora, uma pergunta: quantos livros ela leu sobre os EUA para sentenciar semelhante coisa?


Eu concordei com aquilo na hora. Levei a informação comigo e para minha vida. Poderia ter aplicado. Minha mãe não se deu conta, nem contestou a professora, que não foi contestada pela Diretoriaa e assim vai. É um processo complicado já que conta com autorictas do mestre que, salvo prova em contrário, está sempre correto.


Isso causa certamente a banalização da educação; ficamos a discutir e tentar melhorias, sempre pleiteando maior percentagem do PIB para um arremedo de coisa que certamente não é “educação”.


Os clichês utilizados pelos professores militantes e agitadores, de maneira nenhuma, são críticos, são apenas figuras de linguagem com uma visão reducionista do assunto e geralmente se resumem a lutas de classes, exploração econômica do mais forte, demonização das instituições, conspirações várias, imperialismo, ausência de amor à causas e demais figuras do senso-comum e do slogan corrente. 


Em texto que escrevi intitulado “Espantalhos Pós-Modernos”, pude dizer:


A versão real que significa, evidentemente, o que ela realmente representa é substituída por sua versão-espantalho, totalmente corrompida e, a partir daí, diversas conseqüências podem ocorrer, como a confusão generalizada, a aceitação tranquila das premissas distorcidas, a criação de tabus, de meias-verdades, e mentiras-aceitas.

 

São "bodes expiatórios", em verdade.

...

Um exemplo histórico foi o caso dos judeus, transformados em verdadeiros bodes expiatórios, acusados de, na Antiguidade, seguirem ao Demônio, depois, no medievo, culpados pela Peste Negra e ainda depois, pelo esquerdismo tresloucado de Hitler, como raça inferior que deveria ser defenestrada do mapa vital.

...

Feita essa pequena remissão histórica, se conclui que colhemos os frutos dessa onda contestatória bilateralmente deliberada, e não raro, hoje em dia ver (arrisco dizer: a UNANIMIDADE) colunistas, professores universitários, blogueiros, intelectuais, formadores de opinião (o termo é desprezível) acusarem o golpe e criarem certos espantalhos como verdadeiros e grandes causadores das mazelas da Humanidade:

A saber:

-ausência de leis;

- a existência do dinheiro;

-a cristianização

- a inação Governo;

- o machismo

- a ganância dos homens

- as armas

E criam, a todo o momento, espantalhos para resolução de todas essas mesmas mazelas, por exemplo:

-educação para todos;

-democracia;

-ação estatal;

-leis;


Exemplos concretos de doutrinação em sala de aula?

 

http://alancarvalho.com.br/alancarvalho/wp-content/uploads/2013/12/capitalismo_x_socialismo_livrodidatico.png

 

Reparem, além do texto, na mensagem imagética (que intensifica a propaganda): a cara de coitados dos trabalhadores da indústria capitalista. Melhor, do lado direito, que exibissem um campo de concentração com milhões de cadáveres ao chão. Seria bem mais real.


Mais exemplo:

 

http://images.orkut.com/orkut/photos/QQAAAL6N_EG4TSviVRH2jlCw82vl9uBaRErhJg8ZH-ZL87vn_lolEcR63yl_c4WZ-lHsHV08QazQYswevvc4_eYqJblbFh4-ZWVO5Vcvc2YmSUjbAJtU9VD3W5lu6RGzs1ikN_Hk1-nygiYdCQ.jpg

 

Isso é apenas um exemplo de como está a situação em alguns centros de educação. Os pais devem ficar atentos, examinarem o conteúdo das apostilas, cobrarem responsabilidade dos professores e da Direção das escolas. De todo modo, o melhor a fazer é orientar os filhos em casa e, sempre que preciso, desmentir o professor.


07 Jan 2014
Admin · 185 vistos · 0 comentários
Cultura Circense e os Cafonas Poliglotas

http://estudos.gospelmais.com.br/files/2012/08/circo.jpg

Gustavo Miquelin Fernandes


Fiz a leitura do livro "A Civilização do Espetáculo", do grande intelectual liberal (tinha que ser!) Mario Vargas Llosa. O autor constata a total debacle da civilização no quesito produção de cultura (ou seria reconhecimento?), a um tempo que o mundo prega sua agressiva democratização e o acesso universal a esse bem. Cultura é bem público e a todos deve ser franqueado - dizem os especialistas.

Esta democratização forçada, como que uma "distribuição em caminhão" à população, causa, paradoxalmente, sua singular diluição e perdimento. Elitista? E quem disse que conceito puro de elitismo é ruim? Não é, por óbvio! Isso é ideia velha e de gente que não entendeu o que é e para que serve uma elite.

As instituições que fazem cultura e conservam-na (religião, Universidade, a intelectualidade, etc.), neste mesmo momento, sofrem com ela a mesma queda espetacular o que, para mim, não fica muito claro se em razão dela, concomitante ou anteriormente a ela, cultura.

Assim, a supervalorização da imagem, em total abandono à palavra, revelando hegemonia total do reino sinestésico. Signos gráficos, orais e musicais vão se prostrando vergonhosos aos sinais exteriores que impregnam os ambientes culturais.

Chega pra ficar a cultura de massa, enlatada, pop, do tipo mesmo Paulo Coelho, que já se arvorou - absurdamente e sem nenhum senso de proporção - em dizer ser o maior intelectual do país, lavrando o "Atestado de Fundo do Poço" que o país chegou e se demora a sair.

A cultura, antes tida como experiência espiritual de alcance momentâneo ao universal, ao espírito da mathesis (conhecimento absoluto), elevando e aproximando o ser da Criação, agora vira entretenimento, diversão mundana e às vezes bem da vagabunda. A leitura rápida, a sexualização explícita ao revés do erotismo, o uso sistemático de chavões e clichês e, como dito, o predomínio do reino das imagens, onde a mídia exerce fundamental importância na missão de nos trazer  o espetáculo.
Sem críticas à mídia, bom que se diga; crítica apenas aos indivíduos demandantes. O espetáculo existe positivamente. Não se trata, pois, de se criticar essa existência, mas sim nossa demanda individual por subcultura. Lembrando ainda algo que nem preciso dizer: a liberdade de cada um demandar o que bem quiser.
Esta liberdade, entretanto, não o exime, por óbvio, do direito  de ser críticado.

Vejo o surgimento de um novo dadaísmo, um criticismo barato das antigas formas e signos tradicionais, promovendo a criatividade dita social, do engajamento cego, da militância manobrada, das causas com apelo populistas, do marketing e do, e isso é por demais grave: esnobismo daqueles que têm contato com um arremedo de cultura: uma literatura mais sofisticada, viagens internacionais, visitas a museus, acesso à proliferação editorial meramente mercadológica.
Tais pessoas se acham cultas; em verdade, são verdadeiros "cafonas poliglotas" e não passam disto.

A experiência cultural, quase estado místico, vira mero divertimento ou passar de horas tediosas, algo como a leitura dum almanaque se equivaler a um Dostoiévski ou Machado de Assis.

Hoje, a fuga não é da absurdidade, de conflitos interiores ou transcendentais, de questões últimas de existências, simplesmente é a fuga do tédio de viver e dos conflitos medíocres do homem comum. Novamente, a presente crítica não é à mediocridade (eu me acho medíocre!), e sim à demanda que fazemos para aliviá-la momentaneamente.

A cultura antropológica tem que ser diferenciada da alta cultura. Aquela não passa de manifestações muito regionais como funks, artes de ruas, etc. Cultura, em essência, é a aproximação estética do universal e isso não se dá por via de manifestações muito locais e mais ou menos improvisadas. Cultura é um fenômeno que abarca obras de arte, o sacro, a Religião, a Filosofia, o know how acadêmico, as personalidades emblemáticas, a Arquitetura, etc. Todos esses conceitos, percebam, bastante universalizados e com raízes muitos fortes na Civilização.

Na ponta desse problema, o multiculturalismo a igualar artificialmente tudo numa vala comum. E não é!
Há culturas primitivas, rústicas e desprezíveis e coisas de boa qualidade. Há religiões ruins, músicas ruins, obras ruins, ao passo que há esses mesmos elementos dotados de inegável harmonia.

Coisa mais desagradável é dialogar com gente que se acha "cult", na verdade, um bando de cafona e esnobes, insuflados pela publicidade, pela mídia fast food e por agentes de intoxicação: professores revolucionários e progressistas, formadores de opinião, etc.

A mudança da percepção entre o eixo do culto e da "cultura pop" faz os realmente interessados se afastarem do meio de debate e discussões, deixando caminho aberto para esses "pós-modernos", com concepções antropológicas muito errôneas a contaminar o ambiente cultural.

Nada pra assustar quando um colunista de jornal de nossa região sai por aí dizendo que se deve introduzir com mais vigor o estudo do marxismo nos bancos escolares. Percebam o estado de coisas!

A cultura com orientação da burocracia, fornecidas a todos gratuitamente, onde todos se regozijam e acham que consomem coisa de grande valor, jamais pode ser confiável, salvo se seu agente produtor seja reconhecidamente independente.

A cultura medíocre nasce através de homens medíocres. Como diria Gasset, os "senhoritos satisfechos".

A Era dos computadores fez nascer vários gênios anônimos, sem corpo, altamente intelectualizados, beletristas e dispostos a mudar o mundo, com receitas prontas para tudo, mas que quando encarnados e visíveis pessoalmente são incapazes de fazer a mais reles observação  ou contribuição séria e talvez um pouco satisfeitos com a vida que levam, contrariando o espírito revolucionário que pregam.
É que o alvo maior sempre é a mudança do mundo, dos outros, da sociedade, da Humanidade inteira. Por isso, eu digo com o filósofo Pondé: "sou contra um mundo melhor".

A cultura é alicerce e substrato e dá firme sustentação aos regimes políticos e sociais e também à base educacional de um país. Porém, como ela está por baixo, até meio oculta, é difícil fazer essa constatação. Pode estar aí um dos nossos grandes problemas.
05 Jan 2014
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PROTESTOS EM 2014?


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Gustavo Miquelin Fernandes



Perguntaram hoje qual minha opinião: se os protestos voltarão em 2014?

Não sei. Não sou nenhum estrategista político, mas escrevi esse pequeno texto, esboçando meu pensamento acerca do tema.

Os protestos do ano passado, pra quem estudou um pouco do fenômeno, foram um movimento articulado, em média, dois anos antes, orquestrado por setores que se beneficiaram do movimento (como sempre) - podemos chamá-lo de establishment. É só verificar as bandeiras estapafúrdias do movimento
(algumas óbvias, outras estatizantes, outras infantis mesmo) que se percebe quão perigoso é a inocência de um povo manipulado por agentes descontentes com barreiras de contenção de poder. Chega a ser fato triste isso e o pior é a aparelho de motivação de tais estratégias, como as mídias sociais, os órgãos de imprensa, os professores, os formadores de opinião.

Uma espécie de de "salto de qualidade", que nunca falha, se tiver o controle das cabeças do movimento e um aparelho militar de contenção, no caso de insucesso e que saia do controle. A tática é: você é o culpado de coisas, e denuncia inimigos imaginários pra promover concentração de poder e em, caso mais graves, golpe de Estado (do tipo Assembleia Constituinte).

O culpado pelo caos que vivemos é o Estado (monopólios, corrupção, ineficiência, estatismo, ideologia,incompetência administrativa, populismo,  a perversa associação com segmento privado) e se pleiteia nas ruas mais Estado? Percebam o paradoxo desses manifestantes iludidos e manipulados.

99% dos brasileiros não perceberam isso e até apoiaram esses protestos com entusiasmo, ignorando dados muito fundamentais do processo, sendo manipulados como entidades bovinas. A psicologia das massas explica...

No curto prazo, pode haver desgaste ao establishment, facilmente recuperável ao depois, como se viu, já devidamente consolidada uma forte concentração de poder, como também se percebeu. Reparem na qualidade das leis promulgadas, especialmente neste final de ano.

Em 2014, como haverá eleição, creio que seria temerário a existência dos protestos, havendo o risco de não se passar o tempo de maturação necessário para o salto qualitativo e para recuperação da popularidade do establishment. Na dúvida, é melhor não arriscar.

Só se for algo muito espontâneo, o que duvido muito. Protestos espontâneos, penso, são muito raros, quase impossíveis.

Sem contar o fato que a onda dos manifestantes de 2013 nos legou uma preciosa herança: os black blocks.
04 Jan 2014
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Breves Notas sobre os Contratos Atípicos


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Gustavo Miquelin Fernandes



Os contratos, em atendimento ao princípio da autonomia contratual, podem se manifestar de amplas as formas possíveis em Direito, que não contrariem a moral, os bons costumes e que atendam aos demais requisitos legais. Em se tratando de uma sociedade cada vez mais complexa, tecnológica e moderna, a evolução da caracterização e formatação da tipologia contratual é uma realidade mais que necessária.

Costuma-se dividir, segundo um particular critério, os contratos entre típicos e atípicos.

Se se encontra devidamente normatizado na legislação codificada ou extravagante diz-se ser contato típico, ou seja, previsto e esquematizado segundo uma ordem geral. Por exemplos: compra e venda, doação, permuta, etc.

Atípicos, por sua vez, são os contratos os quais a lei geral se omite em termos de regulação, e que ficam ao alvedrio das partes a sua formulação esquemática e formatação, obedecidos, bom dizer, os princípios gerais constantes da teoria contratual (boa-fé objetiva, autonomia, eticidade, entre outros) .

Assim, instrumentos atípicos podem ser definidos como os que não possuem uma atenção legislativa específica e direcionada. Comportam uma situação não prevista na esquemática legal que o Código ou a lei veiculam.

Diz a lei civil, em previsão a esta espécie:

Art. 425. É lícito às partes estipular contratos atípicos, observadas as normas gerais fixadas neste Código.

Não confundir com contratos inominados, que são os que apenas carecem de uma nomenclatura específica. Ou seja, aqui trata apenas do nome da espécie contratual, e não de sua normação ou estruturação específica.

Assim, em contratos atípicos, a regulamentação se dá, em atendimento máximo ao princípio da autonomia e da liberdade contratuais, em obediência ao comando das partes contratantes, as quais, cuidadosamente, tecem as normas aplicáveis ao caso regulado,  observando:

-princípios gerais do Direito e da Teoria Geral dos Contratos;
-normais civis gerais, se existentes;
-a causa especial ou peculiar que demanda normação atípica;
- as normas de contratos semelhantes típicos, pelo método analógico;

Dividem-se, ainda, os contratos atípicos, segundo a doutrina, em atípicos propriamente ditos e atípicos mistos.

Os propriamente ditos marcam-se pela originalidade ou pela novidade no mundo jurídico. São espécies contratuais novas. 

Os contratos atípicos mistos são formados pela combinação de outras espécies típicas. Ou seja, são modelados segundo uma junção de elementos contratuais já positivados.

Veja-se que a jurisprudência faz menção explícita a essa categoria:


Data de publicação: 13/07/2010
Ementa: AGRAVO DE INSTRUMENTO - AÇÃO DE RESCISÃO DE CONTRATO ATÍPICO DE RESERVA E LOCAÇÃO DE ESPAÇO EM SHOPPING CENTER - COMPETÊNCIA - Matéria inserida na competência da 25a à 36a Câmaras da Seção de Direito Privado - RECURSO NÃO CONHECIDO.

Data de publicação: 21/03/2011
Ementa: CONTRATAÇÃO ATÍPICA. Trespasse de clientela e de veículo para transporte de água potável. Negócio, que não vingou. Partes restituídas à origem. Inexigibilidade de cheques, já sem causa debendi. Tutelas, declaratória e constitutiva (negativa). Juízo de procedência. Apelo dos réus. Desprovimento.


Assim, a possibilidade de criação de contratos atípicos atende àquela mesma realidade moderna e velozmente tecnológica e que permite a flexibilidade que as partes desejam imprimir a seus negócios jurídicos.
04 Jan 2014
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Sintomático
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03 Jan 2014
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O Último Poema


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Manuel Bandeira

Assim eu quereria meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

03 Jan 2014
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Violação Positiva do Contrato


 

http://www.unidesc.edu.br/media/imagens/cursos/.resized_614x407_Pos_contratos.jpg

 



Gustavo Miquelin Fernandes

   

Numa relação contratual, há a parcela da prestação principal, que se entende como a base ou raiz do negócio jurídico (compra, venda, permuta, doação – a prestação principaliter) e outra, lateral, anexa ou secundária.

 

O tema aqui instaurado trata desse segundo tipo prestacional.

 

Também chamada cumprimento defeituoso ou imperfeito ou ainda adimplemento ruim, a teoria cuida da inexecução daquela parte secundária ou lateral do contrato como, por exemplo, o dever de informação, o dever de proteção, dever de assistência, de cooperação, e o de sigilo, com lesão frontal ao princípio da boa-fé objetiva.

 

Surgiu na Alemanha, dos estudos do jurista H. Staub sobre questões que versavam sobre o incumprimento obrigacional no contexto do BGB (Bürgerliches Gesetzbuch), o Código Civil Alemão.


Ainda que pesem considerações teoréticas acerca da matéria, costuma-se dividir as inexecuções entre mora, inadimplemento e cumprimento defeituoso (que por sua vez, há vozes que diferenciam este da violação positiva do contrato).


Em resumo: inadimplemento é a inexecução impossível de ser cumprida doravante; mora, apenas o atraso, mas com possibilidade de execução ulterior e cumprimento defeituoso é o cumprimento de modo inexato.


Tudo conforme o espírito de eticidade que vigora no ordenamento civil e nominalmente expresso no artigo 422 do Código Civil.

 

A violação que ora se trata, como inexecução que é, causa a responsabilidade daquele que viola positivamente a avença, como já dito, os deveres anexos de proteção, informação, cooperação, etc. Essa responsabilidade é objetiva e pode significar pedido de indenização e até a resolução do contrato. Ressalte-se: sem necessária aferição da concorrência de culpa.

 

Além do descumprimento dos deveres acessórios ou anexos, pode também significar que a parcela principal da obrigação tenha sido cumprida, mas de forma imperfeita. Um exemplo de desrespeito à boa-fé objetiva e cumprimento inexato da obrigação seria o caso do banco descontar tarifas em conta-salário, a causar sua responsabilidade objetiva pelo dano.

 

Exemplos da citada teoria na jurisprudência:

TJ-ES - Apelação Civel AC 24100273697 ES 24100273697 (TJ-ES)

Data de publicação: 24/10/2011

Ementa: DIREITO CIVIL. APELAÇAO CÍVEL. AÇAO DE COBRANÇA. MENSALIDADE. CURSO NAO RECONHECIDO PELO MINISTÉRIO DA EDUCAÇAO. VIOLAÇAO POSITIVA DO CONTRATO. DEVERES ANEXOS. INADIMPLEMENTO. IMPOSSIBILIDADE DE COBRANÇA PELAS AULAS NAO CURSADAS. RECURSO IMPROVIDO. 1) Antes de celebrar o contrato de prestação de serviços educacionais, é dever da instituição de ensino informar aos alunos as reais condições do curso oferecido, principalmente o fato de que o curso não possui registro junto ao MEC, circunstância que pode tornar absolutamente inútil o serviço prestado. 2) Olvidando-se a faculdade do seu dever de se comportar com a mais estrita lealdade, de agir com probidade, de informar o outro contratante sobre todo o conteúdo do negócio, há de se reconhecer a violação positiva do contrato, hipótese de inadimplemento apto a imputar responsabilidade contratual objetiva àquele que viola um desses direitos anexos, nos termos do enunciado número 24 do Conselho Superior da Justiça Federal, aprovado na I Jornada de Direito Civil. 3) Reconhecido o inadimplemento contratual (violação positiva do contrato), o abandono do curso por parte do aluno não poderá ensejar a cobrança das mensalidades referentes a um período que sequer esteve presente em sala de aula. Precedentes do STJ. 4) Recurso improvido. ACORDA a Egrégia Segunda Câmara Cível, em conformidade da ata e notas taquigráficas da sessão, que integram este julgado, à unanimidade de votos, negar provimento ao recurso. Vitória, 11 de outubro de 2011. DESEMBARGADOR PRESIDENTE DESEMBARGADOR RELATOR PROCURADOR DE JUSTIÇA (TJES, Classe: Apelação Civel, 24100273697, Relator: JOSÉ PAULO CALMON NOGUEIRA DA GAMA - Relator Substituto : VÂNIA MASSAD CAMPOS, Órgão julgador: SEGUNDA CÂMARA CÍVEL, Data de Julgamento: 11/10/2011, Data da Publicação no Diário: 24/10/2011)

 

TJ-SP - Apelação APL 9243432542008826 SP 9243432-54.2008.8.26.0000 (TJ-SP)

Data de publicação: 21/06/2011

Ementa: CONTRATO DE LOCAÇÃO DE CONSULTÓRIO ODONTOLÓGICO - AÇÃO DE OBRIGAÇÃO DE FAZER CUMULADA COM PEDIDO DE INDENIZAÇÃO POR DANOS MATERIAIS E MORAIS- RETOMADA DO IMÓVEL APÓS O PRAZO DETERMINADO DE UM ANO - ALEGAÇÃO DE DESVIO DE CLIENTELA E DE SUBTRAÇÃO DE FICHAS DE PACIENTES POR PARTE DOS LOCATÁRIOS - AÇÃO DE BUSCA E APREENSÃO JULGADA PARCIALMENTE PROCEDENTE, POR TEREM SIDO OS DOCUMENTOS RETIRADOS COM A CONCORDÂNCIA DOS PRÓPRIOS PACIENTES -EXAME DA PROVA - INEXISTÊNCIA DE COAÇÃO AOS PACIENTES - VIA DO CONTRATO DO LOCADOR JÁ ENTREGUE ANTES DO AJUIZAMENTO DESTA AÇÃO - IMPROCEDÊNCIA DOS PEDIDOS DE INDENIZAÇÃO FUNDADOS NA ALEGAÇÃO DE DESVIO DE CLIENTELA - PROVA DOS AUTOS QUE DEMONSTRA A LIVRE OPÇÃO DOS PACIENTES EM PROSSEGUIR O TRATAMENTO COM A NOVA DENTISTA,LOCATÁRIA DO CONSULTÓRIO - RELAÇÃO DE CONFIANÇA A VINCULAR O PACIENTE AO DENTISTA - DESVIO ILÍCITO DE CLIENTELA NÃO COMPROVADO - DESCARACTERIZADA A VIOLAÇÃO POSITIVA DO CONTRATO -SENTENÇA CONFIRMADA, PARA CONDENAR OS RÉUS APENAS AO RESSARCIMENTO DAS DESPESAS DECORRENTES DA RELAÇÃO LOCATÍCIA. Recurso desprovido.


TJ-SP - Agravo de Instrumento AI 3001858220118260000 SP 0300185-82.2011.8.26.0000 (TJ-SP)

Data de publicação: 02/03/2012

Ementa: ILEGITIMIDADE PASSIVA. Agressão de seguranças contra freqüentador de evento esportivo. Violação positiva do contrato. Relação de consumo, que envolve, em tese, solidariedade entre todos os fornecedores. Alegação no sentido de que dias antes do evento houve distrato entre as promotoras. Impossibilidade de se excluir desde logo a recorrente do pólo passivo, diante da afirmação, contida na decisão saneadora, de que figurou na publicidade como promotora, despertando a confiança do público consumidor. Matéria a ser relegada para o momento do julgamento de mérito. Recurso improvido.


Em resumo: desrespeitados deveres contratuais ditos secundários, complementares ou anexos, ou cumprida a prestação de modo inexato, com indiferença à boa-fé objetiva, responde o contratante, de modo objetivo, pela  violação positiva ou pelo cumprimento defeituoso do contrato.

03 Jan 2014
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Estórias da Minha Vida

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Gustavo Miquelin Fernandes





Quando fui dar meu primeiro beijo, fiquei bastante aflito e tenso.
A menina era mais descolada que eu e acho que mais velha.
Depois que o beijo rolou, alguns dias depois, ela me confessa, surpreendentemente, que fui o primeiro que ela havia beijado.
E eu, muito do malandro:
--Como você é boba, até que você se saiu muito bem!


*

Amigo meu fazendo planejamento para o ano vindouro neste finzinho de ano que já passou:
--Gustavo, tá pra estourar um negócio aí, que se acontecer mesmo, nunca mais eu trabalho!
E eu, bastante interessado:
--Sério, mas o que é?
--Uma artéria.

*

Na infância, nosso grupo de amigos era conhecido por fazer macabras excursões à casas supostamente assombradas.
Era um divertimento só. Até que algumas coisas saíssem do controle e certa vez saiu mesmo.
Minha camisa ficou toda manchada de sangue. Joguei a camisa fora e ficamos bem assustados.
Fomos, todo o grupo, à igreja rezar.
Entramos todos. Inclusive eu, e sem camisa.

*

Havia um senhor muito bravo que não gostava que batíamos bola em seu muro.
Tivemos uma boa ideia. Mas ele mesmo assim não aprovou e continuou bravo.
Deixamos o muro e começamos a usar seu portão.
Ele furou a bola.

*

Certo vez, ao combinar um encontro com uma mocinha de apenas 18 anos, e se demorando muito para o programa e eu, espevitado, não suportando esperar mais que algumas horas, fiz algo bastante inadvertido.
Dispondo de apenas cinco reais no bolso e achando que aquilo já era perda de tempo, usei o dinheiro para tomar alguma coisinha.
A coisinha custava um real e pude tomar cinco. Conhaque.
Ocorre que, após isso, a mocinha chegou. Burguesinha pra caramba, e eu já em estado alterado de consciência.
Mas ela foi bem compreensiva com a situação.
Ficamos os dois quietos, sem assunto e eu tomei mais uma dose.
Quem mandou se demorar?!

*
Eu e o amigo Adriano Bregadioli em visita à casa de minha avó:
--Vô Eloísa, nos dê um conselho!
E a vó Isa, com sua voz entre meiga e trêmula, nos deu aquele conselho épico e por ela bastante utilizado:
--O que é errado não é certo!
Quanta sabedoria!

*

Houve um simulado do tribunal do júri em uma faculdade que eu pude contribuir bastante. Caso difícil.
Os advogado bateram bastante no posicionamento jurisprudencial.
Jurisprudência farta. E toda inventada.

*

No meu aniversário de vinte e tantos anos, minha ex-namorada me deixou em furiosa expectativa quanto a seu presente. Falou dele a semana inteira.
Como era moça fina, fiquei esperando algo bem valioso, estando já disposto a recusar os regalos.
E no dia ela aparece com os distintos: um vidro de molho de alho e um aparelho de barbear Mach 3.
Bem mais úteis que perfumes e camisas pólos.
Presentes inesquecíveis. Adorei.

*

Meu colegial foi bem entendiante.
E para espantar algo desse marasmo, resolvemos eu e um outro amigo, bem menos comportado, apagar as luzes do andar de cima da escola.
E muita confusão e gritaria.
Mas o tédio foi embora.

*

Tenho uma pessoa na família, bastante estudada e muito distinta que tem alguns trejeitos orais incorrigíveis.
Diz que não gosta de falar ao telefone com ninguém, prefere fazê-lo "bocalmente".
Como disse, são trejeitos bocais.

*

Tive alguns sonhos profissionais na vida.
O primeiro foi devido a uma novela em que Fábio Júnior era o galã. Me via como um competente taxista.
Perguntavam para mim, uma criancinha tonta, aquela pergunta mais tonta ainda:
--Que quer ser quando crescer?
E eu na lata, entre o espanto e a gozação gerais:
--Taxista!

*

Tomando um café no supermercado, eis que uma mocinha se achega e vai logo assacando contra mim:
--Tio, me passa o adoçante!
Detalhe: a sobrinha devia ter uns 17 anos.

*
Num culto evangélico que fui, o missionário deu três vezes a saudação pra mim ao final da sessão.
Nao entendi se ele via o Inimigo ao meu redor ou era cego mesmo...
Fiquei assustado.
02 Jan 2014
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Manuel Bandeira

Escrevi que o ano novo pede amenidades (fuga do mundo?) e um pouco de paz de espírito pra gente tocar até o fim.

É bom às vezes, tentar uma metanóia e elevar o pensamento com coisas mais leves.
E nada melhor que ler esse poeminha (as mulheres diriam: "muito fofo") do Manuel Bandeira:

"Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele prá sala
Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos
Ele não gostava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas…

— O meu porquinho-da-índia foi minha primeira namorada."
02 Jan 2014
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Teoria do Duty to Mitigate the Loss


 

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Enunciado 169 – Art. 422: O princípio da boa-fé objetiva deve levar o credor a evitar o agravamento do próprio prejuízo. - III Jornada de Direito Civil.

 

Gustavo Miquelin Fernandes

 

 

A boa-fé se resume em duas vertentes.


A objetiva e a subjetiva. A primeira é dita a “boa-fé-princípio”, já a segunda, a “boa-fé- estado”; a primeira, a normação, a segunda, o animus.


A teoria duty to mitigate the loss ou dever de mitigar o próprio prejuízo ou ainda doutrina dos danos evitáveis decorre da boa-fé-princípio. Foi criada nos EUA e consiste, em suma, na ação do credor em atuar positivamente para que o dano por ele suportado seja menor, agindo diretamente sob a extensão das suas perdas, dentro de uma perspectiva ética.


Não obstante estar dentro já de uma construção doutrinária e alvo de discussões em jornadas especializadas, a prescrição é apenas, e por ora, ética (e não afasta sua normatividade) e sugere judicialmente, em caso de aplicação, que se o credor não agir mitigando suas perdas, pode sentir efeitos desse seu comportamento omissivo, como por exemplo, experimentar a redução da prestação da parte adversa, em razão de seu comportamento eticamente faltoso à boa fé objetiva (do credor).


As relações civis devem ser entabuladas e cumpridas em regime de cooperação, o que sugere a ação positiva do credor, tanto resguardando seus direitos como atuando quando de evento danoso para que este seja sempre de menor extensão. Sugere um dever anexo de atuação ética de forma a evitar a progressão do prejuízo experimentado ou que se agrave conscientemente a responsabilidade do devedor.


Reza o Código Civil a normação-base desse instituto:


Art. 422. Os contratantes são obrigados a guardar, assim na conclusão do contrato, como em sua execução, os princípios de probidade e boa-fé.


A base jurídica remota da teoria se encontra no art. 77 da Convenção de Viena, in verbis:

 

“A parte que invoca a quebra do contrato deve tomar as medidas razoáveis, levando em consideração as circunstâncias, para limitar a perda, nela compreendido o prejuízo resultante da quebra. Se ela negligencia em tomar tais medidas, a parte faltosa pode pedir a redução das perdas e danos, em proporção igual ao montante da perda que poderia ter sido diminuída”.


Na jurisprudência pátria, veja-se a seguinte ementa:


 “DIREITO CIVIL. CONTRATOS. BOA-FÉ OBJETIVA. STANDARD ÉTICO-JURÍDICO. OBSERVÂNCIA PELAS PARTES CONTRATANTES. DEVERES ANEXOS. DUTY TO MITIGATE THE LOSS. DEVER DE MITIGAR O PRÓPRIO PREJUÍZO. INÉRCIA DO CREDOR. AGRAVAMENTO DO DANO. INADIMPLEMENTO CONTRATUAL. RECURSO IMPROVIDO. (REsp 758.518/PR, Rel. Ministro VASCO DELLA GIUSTINA (DESEMBARGADOR CONVOCADO DO TJ/RS), TERCEIRA TURMA, julgado em 17/06/2010, REPDJe 01/07/2010, DJe 28/06/2010)


E ainda:


Trata-se de REsp em que se discute se o promitente vendedor pode ser penalizado pelo retardamento no ajuizamento de ação de reintegração de posse combinada com pedido de indenização, sob o fundamento de que a demora da retomada do bem deu-se por culpa do credor, em razão de ele não ter observado o princípio da boa-fé objetiva. Na hipótese dos autos, o promitente comprador deixou de efetuar o pagamento das prestações do contrato de compra e venda em 1994, abandonando, posteriormente, o imóvel em 9/2001. Contudo, o credor só realizou a defesa de seu patrimônio em 17/10/2002, data do ajuizamento da ação de reintegração de posse combinada com pedido de indenização, situação que evidencia o descaso com o prejuízo sofrido. O tribunal a quo assentou que, não obstante o direito do promitente vendedor à indenização pelo tempo em que o imóvel ficou em estado de não fruição (período compreendido entre a data do início do inadimplemento das prestações contratuais até o cumprimento da medida de reintegração de posse), a extensão da indenização deve ser mitigada (na razão de um ano de ressarcimento), em face da inobservância do princípio da boa-fé objetiva, tendo em vista o ajuizamento tardio da demanda competente. A Turma entendeu não haver qualquer ilegalidade a ser reparada, visto que a recorrente descuidou-se de seu dever de mitigar o prejuízo sofrido, pois o fato de deixar o devedor na posse do imóvel por quase sete anos, sem que ele cumprisse seu dever contratual (pagamento das prestações relativas ao contrato de compra e venda), evidencia a ausência de zelo com seu patrimônio e o agravamento significativo das perdas, uma vez que a realização mais célere dos atos de defesa possessória diminuiria a extensão do dano. Ademais, não prospera o argumento da recorrente de que a demanda foi proposta dentro do prazo prescricional, porque o não exercício do direito de modo ágil fere o preceito ético de não impor perdas desnecessárias nas relações contratuais. Portanto, a conduta da ora recorrente, inegavelmente, violou o princípio da boa-fé objetiva, circunstância que caracteriza inadimplemento contratual a justificar a penalidade imposta pela Corte originária. REsp 758.518-PR, Rel. Min. Vasco Della Giustina (Desembargador convocado do TJ-RS), julgado em 17/6/2010.


A importância teórica é tamanha que até em outras áreas que não o Direito Civil a teoria tem sido citada. Por exemplo, pela Sexta Turma do STJ ao negar um habeas corpus (HC 137.549) foi utilizada a teoria do duty to mitigate the loss e do dever anexo de colaboração.


 No caso julgado, o condenado a prestar serviços à comunidade não compareceu ao juízo para dar início ao cumprimento, já que não foi intimado em razão do endereço que constava nos autos estava incorreto. A pena foi convertida em privativa de liberdade com apelo à boa-fé objetiva já que a defesa teria de informar no processo o endereço do condenado.


Exemplo dessa teoria seria o credor, considerando a pactuação de nível altíssimo de juros em casos de inadimplemento, e querendo faturar alto com a mora do devedor, deixa de tomar providências para notificação do devedor ou mesmo deixe de cobrar o que lhe é devido em tempo oportuno. O credor não age para proteger seu crédito, se omitindo para, antieticamente, majorar a quantia a receber. Ainda nesse exemplo e, em se aplicando a teoria em estudo, o credor experimentaria uma redução de seu crédito a níveis ajustados pelo juiz.


Conforme acima destacado, a III Jornada de Direito Civil publicou o Enunciado 169, nos seguintes termos, o que informa que tal teoria já está sofrendo uma construção teórica mais elaborada e tem tido aplicação nos tribunais brasileiros:


“Art. 422: O princípio da boa-fé objetiva deve levar o credor a evitar o agravamento do próprio prejuízo. - III Jornada de Direito Civil”.

02 Jan 2014
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2013: O Ano do Amadorismo Governamental


 

http://www.cachorrosolitario.com/wp-content/uploads/burro-cantar1.jpg

 


Gustavo Miquelin Fernandes

 

 

2013, o ano da inflação alta, das leis populistas que oneram e onerarão os cofres públicos (vide a última promulgada anteontem, conhecida como lei da "meia-entrada"), da alta (ou não-baixa) dos tributos, da persistência da manobra conhecida como "contabilidade criativa", da semi-falência da PETROBRAS, causada exclusivamente pela ingerência do Govenro, dos protestos de mentirinha insuflados pelo próprio partido governista, numa técnica já bastante conhecida por quem estuda o assunto com seriedade.


O ano que passou foi isso e nada mais. Houve também alguns criminosos alçados à condição de heróis por defenderem décadas atrás uma ditadura comunista e, agora, terem desviado dinheiro público para agenciar parlamentares, como prostitutas.

 

Jovens insatisfeitos e manobrados ideologicamente pela esquerda e pelo Governo quebraram tudo. Os  estúpidos "idiotas úteis" não têm limites mesmo.


Houve embaraços à atividade da imprensa dita livre (aquela que não é comprada). E isso seguirá uma constante até total domesticação dos meios de comunicação brasileiros. Me parece que isso consta em atas e documentos públicos de um certo partido.


Houve, agora falo da área econômica, algumas concessões bem mal feitas, empurradas pela barriga e com total amadorismo. O Brasil pagará caro por isso. Um Governo que diz ser anti-privatista e tendo feito disso um mantra eleitoreiro jamais dará conta desse redimensionamento econômico entre setores público e privado.

 

O país cresceu à taxa média de vergonhosos 2% e nada convence que mudaremos o patamar. Nada! 2014, se não trocarmos o comando governamental, o preço sairá bem caro às futuras gerações.


Pelo menos, o pessoal da área econômica assumiu que errou bastante, ao mudar, autoritariamente e num ciclo sistemático, a taxa básica de juros, sem fazer outros tipos de considerações e sopesamentos numa economia livre de mercado. Recentemente se deram conta do lançe errado que promoveram às custas dos trabalhadores do país. A pergunta que faço: é bom para o país colocar gente para aprender enquanto está no comando? Algo como aprender a dirigir já com o veiculo em movimento...


Houve também a confissão de erro quanto à questão da renovação das concessões das empresas elétricas, levada a  cabo com maciços aportes do Tesouro. O Governo mais uma vez errou feio e integrantes mesmo confessaram a tragédia. Mais uma na conta do trabalhador - que essa gente diz defender.


É isso que queremos: gente amadora cuidando da área econômica?


A inflação que sempre  reaviva um passado recente tenebroso voltou a assustar os brasileiro por culpa única e exclusiva do desalinho fiscal do Governo. Imagine agora em ano eleitoral?


A conta-corrente estima-se será deficitária em algo em torno de 80 bilhões de dólares. Tudo explicado pela gastança sem limites, de um governo perdulário, perigosamente keynesiano e profundamente amador, como se percebe pelo fatos concretos e aqui relatados.


A taxa de investimento ficará em torno de 18,6%, e mesmo com esse programa amador, tímido e socialista de concessão de ferrovias, rodovias e aeroportos não há expectativas sérias de mudanças no índice.


O BNDES não foi fechado e continua subdiando práticas totalmente distorsivas da ambiência macroeconômica. Contrariamente ao discurso oficial, parece que  a prática chamada "promoção dos campeões nacionais" continuará firme e forte. Paradoxalmente, essa gente que diz defender operário da perversa burguesia, age contrariando totalmente essa ideologia, ao promover e subsidiar grandes empresas e monopólios.


O caso "Eike Batista" trouxe preciosas lições - ainda não digeridas e assimiladas pelos políticos e analistas.


Com a reduções de estímulos financeiros pelo FED (banco central americano), o ano eleitoral pressionando os gastos eleitoreiros e populistas e a permanência de quadros despreparados para graves situações críticas como o Ministro Guido Mantega, a situação não tende a se resolver, nem a se aliviar.


Quero estar errado, mas 2014 será um ano ainda mais medíocre.

01 Jan 2014
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Amor Platônico é isso!



30 Dez 2013
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Um fabuloso conto sobre Jesus

Gustavo Miquelin Fernandes

Nos textos que estou escrevendo sobre Jesus, algo fez lembrar dum conto de meu autor preferido, Humberto de Campos. Segue dele o resumo.

Jesus, criancinha, pede a José que deixe brincar com os outros meninos nas proximidades de sua casa. O velho carpinteiro, ciente de suas responsabilidades de pai do Rei de Israel que viera dar cumprimento às escrituras, nega peremptória mas carinhosamente o pedido infantil, aos cuidados que caísse e se machucasse, restando todo o povo perdido e sem a direção suprema.
Jesus, um menino que apenas queria brincar e subir nos limoeiros, confuso, sente pela primeira vez o peso de ser o próprio Deus...

PS.- pra quem quiser ler, o conto chama "Jesus".
30 Dez 2013
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Viva a Revolução Cultural

Gustavo Miquelin Fernandes


Desde o momento que um integrante de órgão jurisdicional sai na imprensa com uma terminologia toda especializada do tipo "mensalão do PT", "mensalão tucano", não raciocinando em cima de premissas terminológicas como "cases" ou "processos", e sim com aquele discurso grupal e extremamente politizado, você percebe que a revolução cultural se consolidou fortemente em terrae brasilis. E nem é preciso fazer profunda análise de discurso pra constatar essa obviedade.

Viva Antônio Gramsci - nosso papi soberano!
30 Dez 2013
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Sobre Jesus


Gustavo Miquelin Fernandes

Já ouvi e li de tudo sobre Jesus Cristo. Mas agora, fim de ano, as mentes privilegiadas ficam mais despertas e cheias de sabedoria, nos passando lições as mais importantes. Vejamos:

Um padre anglicano sugere que Jesus era gay; outras pessoas dizem que ele era totalmente "pacifista" (o que é mentira: vide como Ele tratava o "Inimigo"); um conscienciólogo afirma que ele era apenas um personagem mítico; outros garantem que Ele era hippie; o senhor Waldo Vieira afirma que era apenas um "menino em sua infância espiritual"; outras mentes brilhantes dizem que era um autêntico socialista (prefiro não comentar isso para não ofender); já há os que dizem que ele era revolucionário (não pode ser, basta analisar seus discursos, onde nenhuma quebra de ordem era incentivada no plano material, apenas uma recompensa futura no plano da Vida Eterna); o professor de Filosofia Mario Cortella insiste nessa de "Jesus Histórico"; outros arqueólogos, querendo apenas polemizar, negam peremptoriamente Sua existência; e há ainda os que afirmam que ele era também um místico, tendo ido, antes de sua vida pública, até o Egito conhecer a tradição esotérica e, pra finalizar, um cientista brasileiro prega que ele era um esquizofrênico...
A pergunta que faço: quando vamos parar com essa porcaria e levar nossa tradição espiritual realmente a sério?
O mundo já não tá todo fodido pra gente ficar com essas teorias bestas e filosofias de quinta categoria?
30 Dez 2013
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Frase


Gustavo Miquelin Fernandes

Noite: o cosmos que descansa...
Tá bom, vai, deve ter alguma estrelinha mais saliente fazendo algum tipo de estripulia nesse universão sem-fim...
30 Dez 2013
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Sócrates provando que a zoeira começou em Atenas

"Foi o caso de Tales, Teodoro, quando observava os astros; porque olhava para o céu, caiu num poço. Contam que uma decidida e espirituosa rapariga da Trácia zombou dele, com dizer-lhe que ele procurava conhecer o que se passava no céu mas não via o que estava junto dos próprios pés. Essa pilhéria se aplica a todos os que vivem para a Filosofia." (Teeteto)
30 Dez 2013
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Diálogos Pós-Modernos


--Minha gata, buquê de flores, poema feito na hora ou caixinha de chocolates?

--Ah, qualquer uma da H. Stern já tá bom!
30 Dez 2013
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Estranho Paradoxo

Gustavo Miquelin Fernandes


Veja que lindo paradoxo chegaram nossas feministas.

Deixam de usar sutiã por ser artefato opressor do mundo machista; aí o peito cai e o marido deixa de apreciar, de modo muito machista e opressor.
Cirurgia plástica? Nem pensar! É um procedimento invasivo do corpo sagrado, muito machista e opressor; nenhuma mulher pode se submeter a isso. Aí, o marido passa a dar uma espiadinha discreta na peitola da vizinha; que coisa mais horrível e opressora!!!
Alguém pode chamar a Maria do Rosário, dos Direitos Humanos para me explicar isso?
30 Dez 2013
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Estórias da Minha Vida





Gustavo Miquelin Fernandes

(SEM CITAR NOMES)


No final da década de 80, quando a Fabiana era criancinha, vendo alguns pintinhos da granja enfermos e doentinhos, bastante condoída, preparava-lhes uma mistura toda especial, composta de ração, terra e pedrinhas, crendo, sinceramente, que estava fazendo algo para o bem dos bichinhos, no que estava mesmo: ela os matava aceleradamente.

*

Há algum tempo, um grande amigo de Rio Claro e eu, conhecemos duas moças que pareciam confirmar a existência da "maldição da beleza" - antes, a mim relegada à conta de pura mitologia.
Conversávamos livremente com as beldades, sobre assuntos de vida e morte, e quando o tema do diálogo passou a ser "drogas", uma daquelas belezinhas se insurge e, nada inibida, pergunta:
-Mas, o que é esse negócio de entorpecente?

*

Acompanhado de um grande amigo, hoje amigado com uma moça mais nova, tomávamos uma cervejinha ali num bar na Batista de Carvalho, quando ele, que era muitíssimo malandro, ao avistar duas moças muito bonitas e que estavam todas de branco - dos pés à cabeça - resolveu aplicar um golpe para chamar atenção das donzelas - que só poderiam ser ou médicas ou enfermeiras.
Simulou estar sincopado, onde o ar faltava e o peito doía muito, e estertoroso clamava:
-Ai, tô passando mal. Chama algum médico!
E as moças nem aí pra ele e seu ataque cardíaco, concentradas que estavam em suas conversas e nos aperitivos.
Até que, indignado, tive que entrar em cena:
-Doutoras, meu amigo tá passando muito mal, não viram? Poderiam atendê-lo?
-Mas não somos médicas, trabalhamos no açougue ali no supermercado da rua baixo. Mas isso aí deve ser a pressão, ein?!

*

Na casa da Dona Olga Pierin, no ano de 1999, na terça-feira do terço, nosso querido amigo Carlos Renato teve a ideia quase santa de se fantasiar com uma roupa preta e pôr a máscara do "Pânico", e ir assombrar a reunião das senhorinhas.
Fiquei na esquina, dando apoio moral e logístico, enquanto outros, recalcitrantes e mais católicos, não concordavam com a brincadeira, julgando a mesma anti-cristã.
Pois que ele aparece no portão e declarando-se o Diabo em pessoa, não encontra muito a atenção das velhinhas, que prosseguem a reza com muita fé, ignorando-o por completo.
Abatido, ele tira a máscara, vem até mim e diz, bastante chateado: "vai você agora"...

*

Tenho um primo que, quando criança, tinha algumas estranhas obsessões.
Tudo pra ele girava em torno de três elementos. Não, não eram os clássicos fogo, terra e água.
Mas sim, sal, faca e pimenta.
Constantemente éramos ameaçados por tais elementos da criação e, quando contrariado, não hesitava lançar mão daqueles itens, não necessariamente naquela ordem; geralmente a faca tinha utilização primeira, seguida do sal e, por último, a pimenta - cujo poderio seria reduzido.
L.- esse meu primo - teve a audácia de sugerir que alimentaria sua cachorra, Dalila, à base apenas daqueles elementos para que, fortalecida com poderes especiais, nos destruísse completamente, sem explicar como, de fato, seria alimentar um cão com uma faca.

*

Quando criança, ia num centro de umbanda em uma cidade próxima. Me lembro que tinha um orfanato e um canil anexos. Gostava de ir lá.
Em dias consagrados a Cosme e Damião, nos era franqueado ir até o "gongá" (altar) e pegar um docinho de nossa predileção e ficar jogando conversa fora com os "erês", crianças já falecidas, que se manifestavam através de supostos "medianeiros" - pessoas que teriam a função de instrumentalizar tais comunicações.
Eu não gostava muito dessa parte - os homens, todos crescidos e barbados falando com aquela voz estridente, toda infantilizada e cheios de trejeitos. Sinceramente, não achava legal a brincadeira.
-Cê quer brincar comigo? - dizia uma daquelas crianças crescidas pra mim.
E eu, seco:
-NÃO!
-Mas, por quê?
-Te acho muito chato! - e saía comer meu docinho sem oferecer pra ninguém.

*

Tenho um conhecido em Dois Córregos, engraçada figura, hoje casado, que dizia que o caminho do sucesso para uma vida tranquila não se encontrava num emprego rentável, uma carreira sólida ou sequer uma boa herança. Dizia ele, em tom doutoral e aconselhativo, para nós, os menos experientes em matéria financeira e amorosa:
- Pegue uma velha, viúva e rica, uma filha de fazendeiro qualquer ou outra burguesa com algum dinheiro e meta o pau a juros.
- Depois, é só tranquilidade...

*

Certo conhecido meu, ao chegar em casa, reclamando de diagnosticada gastrite, em tom quase desesperador:
-Estou duende, estou duende!
Eu, confuso, entre a detecção dum erro comum de pronúncia ou da visível embriaguez (que era positiva, de fato), me prostrei em doloroso dilema: ou acalmá-lo da situação, fundamentando minha tese na não-existência de seres especiais da Criação que policiam a Natureza, ou recomendar-lhe dieta, abolição do café e gastro-medicação.
Na dúvida, fiquei em silêncio e o assunto passou...

*

Num cruzamento, com o semáforo fechado, ali perto do supermercado Confiança, encontrei breves instantes uma ex-"namoradinha" minha. Bravo porque não atendia minhas ligações, a ignorei solenemente - enquanto ela me chamava com alguma insistência.
Com o vidro do carro aberto e ela provavelmente de vestido (sem o qual seria impossível a tentativa) arremessa, sem nenhum tipo de constrangimento, a peça de roupa (adivinhem qual), que cai no meu colo...
Mulheres em geral criticam os homens, dizendo que são danados, mas essa aí merece o prêmio da danadice.
Isso não se faz.

*

Este personagem é famoso por aqui. Conto mais uma dele.
Septuagenário, arrumara uma namoradinha algumas dezenas de anos mais nova.
Não acreditando em seu poder viril, eu e toda a molecada demos um jeito de bisbilhotá-lo (não posso contar como) no local onde levava sua cocotinha para amá-la.
E pior: ele não ficava de conversinha não, para sorte (ou azar) da respeitável mocinha, evidentemente, respeitando o ritmo da sua peculiar condição.
Um exemplo pra todos nós!
Fica aqui minha homenagem.

*

Era frequentador assíduo do clube "Canto da Terra", lugar que me deu muitas e excelentes amizades. Lembro-me da última passada por lá. Uma moça de Agudos-SP, com mais ou menos uns 30 anos, declarou que gostaria muito de falar comigo, ir embora comigo, ir pra casa depois e toda aquela conversinha mole.
Saímos para frente do clube fumar um cigarro, quando a prima se aproxima e declara:
-Seu marido acabou de ligar!
-Como é que é? Marido???
-Sim, meu marido, mas ele tá trabalhando hoje - não tem erro!
-Abração, aí, tia!
A coisa tá assim, minha gente...

*

Ao levar um amigo (advogado de carteirinha e puteiro nas horas vagas) numa quebrada bastante afastada para encontrar a nova namorada, deparo-me, no portão, com uma moça de barriga bem saliente, aparentando uma gravidez bem avançada - o que ele confirma, ao depois.
Sendo questionado sobre possível inconveniência do novo relacionamento, da moça que acabou de conhecer, grávida não sabe de quem, arrola suas boas razões:
-Melhor coisa: não engravida de mim e os exames de saúde tudo certinho...

*

Certo dia no extinto "Bar do Bola", promovemos um certo amigo a jogador de futebol.
Ele era muito malandro, conversador e tirou de letra a mentira, dando detalhes às moças de como era a vida na concentração e sobre suas últimas aquisições imóveis.
Começou uma certa aglomeração no local e, segundos depois, esse meu amigo (hoje esta casado e segurança particular) estava distribuindo autógrafos, inclusive teve uma conhecida moça que pediu que assinasse sua calça jeans.
As "Marias chuteiras" estavam todas piradas com ele - e eu do lado, saía na foto como bem-sucedido empresário.
Tudo corria muito bem nos seus breves minutos de fama, até que perguntado sobre seu automóvel, por uma interesseira mais ousada:
-Ah, então, eu vendi o importado, dava muito trabalho e tal, sabe como é, né?
-Ai que legal, mas você tá com qual carro agora?
-Com um Monza!
A partir de então, a aglomeração foi se desfazendo e sobrou apenas nós...

*

Tivemos, na infância, muito azar na brincadeira do compasso. O instrumento não rodopiava de jeito nenhum. Às vezes com uma forcinha boba nossa, ele balbuciava alguma coisa, mas era sempre assim, monoglota.
Até que um gênio consumado, amigo nosso, mais burro que gozador, dá a solução definitiva para o impasse:
- E se levássemos o compasso para o padre benzer a fim de que cesse a maldição?

*

Quando morava na Vila Santo Antônio e acabara de ganhar uma Caloi novinha do meu querido tio Nelson, alvo talvez de inveja, esse meu veículo foi atacado com uma tijolada no esticador por um moleque besta.
Não deixei quieto e usei do mesmo tijolo, inda com bastante frieza quebrando pela metade, e devolvendo o golpe em sua direção.
Infelizmente não o atingi na cabeça, mas a peça de concreto arrebentou-se nas suas costas, fazendo-o prostrado no chão - acho que bem arrependido da maldade.
Imediatamente, o avô dele que estava ali do lado, fumando um cachimbo, interveio e saiu em minha perseguição para me dar uns tabefes:
-Moleque filha da puta! Moleque filha da puta!
E eu, fugindo do velho e também devolvendo o xingamento:
-Velho manco, velho manco!


29 Dez 2013
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Mensagem de Final de Ano


http://www.formacaopolitica.com.br/wordpress/wp-content/uploads/2013/01/ViktorFrankl21.jpg

Um grande amigo reclama, em tom de brincadeira, que não deixei nenhuma mensagem mais positiva nessa data cristã comemorativa. É verdade; e não por falta de modelos de conduta ou assunto, mas por temer veicular mensagem truncada ou incompleta de alguma grande personalidade, já que somos mais adaptados a relatar pessoas medíocres de mensagens bem errôneas.

Escrever sobre Jesus, o Cristo, conforme já disse, é "hors concours"; acrescentar algo seria até infantil da minha parte, o modelo perfeito de conduta que existiu e pisou no orbe está bem relatado e, acredito, bem assente no inconsciente coletivo.

Entretanto, quero falar de outra pessoa. Um ser bastante emblemático, que pôde descer ao umbral da total alienação humana e ascender, moto proprio, ao cume da luz celeste dentro de si próprio, sem poder, sem prestígio, sem dinheiro, sem ninguém, sem roupa, sem alimentação e diria mesmo: em condição gigantescamente abaixo da humana: apenas um número na fila de espera da câmara de gás. Um exemplar de raça imperfeita que deveria ser eliminado o quanto antes.

Isso aos olhos dos simples homens - daqueles medíocres, de que falava Ortega y Gasset.

Falo de Viktor Frankl, um neurologista e psiquiatra nascido em Viena, Áustria, que teve como leitmotiv de suas inquietações médicas e filosóficas o SENTIDO DA VIDA. Todo seu constructo doutrinário pode ser considerado genuinamente teático (teórico e prático), onde assentou uma mensagem positiva em torno da própria vivência empírica dessa mesma construção - cria a Logoterapia.

Judeu, ficou preso por quase três anos em campos de concentração nazistas, tendo a família toda eliminada pelo Reich, inclusive pais e e esposa.Dentro do presídio, procura cotidianamente um sentido para que permanecesse vivo, ao notar que seus companheiros, que abandonavam a busca de alguma meta ou sentido, morriam mais brevemente.

Ao ser libertado pelas tropas Aliadas, termina seu best seller "Em Busca de Um Sentido", é celebrado como um Grande Homem, que deve ser escutado e passa cantar seu evangelho logoterápico aos quatro cantos do mundo. Era o ápice da sua ação humana, a consagração como respeitado filósofo e a confirmação de toda sua teoria.

A primeira conclusão que cheguei do estudo da obra foi que não se trata, em verdade, de dar um sentido à vida, e sim de descobri-lo fielmente, já que o mesmo existe positivamente - não obstante e acidentalmente, oculto. O caminho pra isso é variado: pode ser por via do labor, das ações bem executadas, do aprendizado sincero, da vivência espiritual do amor ou do sofrimento devidamente equacionado e superado.

Frankl, saindo do campo de concentração do regime esquerdista, não projetou nenhum tipo de vingança ou tipo de combate ao regime. Escreve seu livro (seguido por mais três dezenas de obras) e vive de esclarecimento aos povos do século XX, tão sofridos e esvaziados de sentido. Age, mutatis mutandi, e na sempre menor proporção, esclarecendo e curando, tal qual o personagem desta data: Jesus de Nazaré.

A Ciência por ele criada traz em seu bojo um seriíssimo estudo sobre as enfermidades ditas noogênicas ou de fundo espiritual (não no sentido religioso), doenças que emergeriam pela vivência da absurdidade da ausência de sentido nesta caminhada.

Creio que a mensagem de Frankl deve ser propagada e, se possível, vivenciada.

Seria minha mensagem, antes a mim mesmo.

Boas festas a todos!

Gustavo Miquelin Fernandes
25 Dez 2013
Admin · 365 vistos · 2 comentários
Último texto de 2013


Gustavo Miquelin Fernandes


Era uma vez uma moça que deu um fora.
Aí ela fez 30 anos e deu outro fora num outro rapaz.
Ela tinha esse feio costume e com quarenta anos deu mais alguns.
Com cinquenta, diminuíram as propostas, e também os foras - mas ela ainda os dava.
Com sessenta, praticamente não houve foras.
Com setenta, ela deu apenas um.
Com oitenta, ela quis se apaixonar.
E aos 87, morreu infartada, sem um grande amor e ninguém mais encheu seu saco, nem precisou nunca mais dar foras.

Obs. - Meu blog sai de férias esse ano - volta lá pra janeiro. Ano que vem o pau vai comer miúdo.
11 Dez 2013
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Mario Vargas Llosa

Em tempos de pavão na Bienal, cruz na urina, lata de excrementos e fotos de ânus, Mario Vargas Llosa, em seu Civilização do Espetáculo - que ainda não li - mas no exato sentido do que escrevi dia desses a respeito de Arte e Cultura:


A cultura se transmite através da família e, quando esta instituição deixa de funcionar de maneira adequada, o resultado "é a deterioração da cultura" (p. 43). Depois da família, a principal transmissora da cultura ao longo das gerações foi a Igreja, não a escola. Não se deve confundir cultura com conhecimento. "Cultura não é apenas a soma de diversas atividades, mas um estilo de vida" (p. 41), uma maneira de ser em que as formas têm tanta importância quanto o conteúdo. O conhecimento tem a ver com a evolução da técnica e das ciências; a cultura é algo anterior ao conhecimento, uma propensão do espírito, uma sensibilidade e um cultivo da forma, que dá sentido e orientação aos conhecimentos.
10 Dez 2013
Admin · 56 vistos · 0 comentários
O que é a Teoria do Domínio do Fato?


 

http://honoriscausa.unab.cl/wp-content/uploads/2009/09/_mg_4445-copy.jpg

 


 

Gustavo Miquelin Fernandes

 

 

Nominada teoria ensina, no campo da imputação penal e dentro do tema concurso de pessoas, uma diferenciação entre autores e partícipes (autor responde por ato próprio e tem responsabilidade originária; partícipe responde por concorrer em ato de terceiro alheio e tem responsabilidade acessória) num contexto de cometimento de infração penal.


O estudo dessa teoria hoje importa por dois motivos. A existência do mundo globalizado, que traz uma complexidade de relações burocráticas e corporativas entre empresas, organizações ilícitas, Estados e entre uns e outros. Dessa complexidade nascem novas formas de arranjos criminosos – o que deve trazer também novas tomadas de posições acerca do respectivo fenômeno jurídico-penal. É também sabido que a teoria em exame foi adotada pelo Tribunal Penal Internacional e outros países já utilizam esse esquema de imputação penal.


A origem remota da teoria pode ser colhida de Welzel e doutrinadores mais antigos, como Eb. Schmidt, Lobe, Maurach, Gallas, sendo sistematizada por Claus Roxin (Täterschaft und Tatherrschaft - Autoria e Domínio do Fato - 1963).


Luís Greco E Alaor Leite, em artigo publicado no IBCCRIM, na Revista Liberdades, nº 7, maio-agosto de 2011, intitulado “Claus Roxin, 80 anos”, trazem importante ensinamento acerca de Roxin e sua doutrina:


A monumental tese de habilitação sobre Autoria e domínio do fato, que foi republicada em 8ª edição um fato histórico na Alemanha, país em que abundam boas bibliotecas, de modo que monografias dificilmente chegam a uma segunda edição exigiria mais do que um artigo, que quer ser uma mera notícia, pode oferecer. É difícil exagerar a importância do livro, sua riqueza de ideias e a dimensão de sua influência na doutrina e na jurisprudência, alemã e estrangeira. O Autor retornou ao tema comentando os dispositivos da autoria e da participação em duas edições do mais renomado dos comentários ao Strafgesetzbuch, o Leipziger Kommentar, e no segundo volume de seu Tratado.

Roxin se propõe a construir o sistema da autoria no direito penal, levando adiante a ideia, até então meramente insinuada, de que autor é quem atua com o domínio do fato. Ponto de partida de Roxin é a ideia de que o autor é a figura central do acontecer típico (Zentralgestalt des tatbestandsmäßigen Geschehens).O partícipe, por sua vez, é quem contribui para um fato típico em caráter meramente secundário.

aa) Num primeiro grupo de delitos, a figura central é quem domina a realização do tipo. Esse domínio pode manifestar-se como um domínio sobre a própria ação (Handlungsherrschaft), que é o domínio próprio de quem realiza, em sua própria pessoa, todos os elementos de um tipo, isto é, do autor imediatoQuem aperta o gatilho tem o domínio da ação e nunca poderá ser mero partícipe, ao contrário do que muitas vezes decidira a jurisprudência alemã, partindo de uma teoria subjetiva extrema.

bb) A segunda maneira de dominar um fato está no domínio da vontade (Willensherrschaft) de um terceiro que, por alguma razão, é reduzido a mero instrumento.

(1) As razões desse domínio, próprio do autor mediato, são, em primeiro lugar, a coação exercida sobre o homem da frente. Aqui, propõe Roxin o por ele chamado princípio da responsabilidade (Verantwortungsprinzip): ao exculpar o homem da frente em casos de coação, o legislador dá por entender que quer responsabilizar por seus atos o homem de trás que provoca ou que se aproveita dessa situação.O princípio da responsabilidade é, a seu ver, o único parâmetro viável nos casos de coação, uma vez que dominar alguém que sabe o que faz é algo, em princípio, excepcional, que só pode ser admitido com base nos parâmetros fixados pelo legislador.

(2) Um segundo grupo de razões para a autoria mediata está no erro.Roxin desenvolve uma teoria escalonada dos vários erros fundamentadores de autoria mediata, que vão desde o erro de tipo até o erro de proibição evitável.Também erros que não excluem nem diminuem o dolo ou a culpabilidade do homem da frente, como o error in persona (A diz a B: pode atirar, é C, mas, como sabia A, se tratava de D), ou mesmo erros sobre a quantidade do injusto (A diz a B: destrua esse quadro, é uma mera cópia de um Rubens, apesar de saber que se trata de um original), bastam para fundamentar uma autoria mediata, pois essa, para Roxin, encontra sua razão última no conhecimento superior (überlegenes Sachwissen) do homem de trás, que lhe permite controlar o homem da frente como se esse fosse uma marionete.

Nesse segundo grupo de razões para uma autoria mediata, talvez se encontre uma das mais originais contribuições de Roxin para a dogmática da autoria e da participação. Além do domínio sobre a vontade de um terceiro por meio de erro ou de coação, propõe Roxin que se reconheça a possibilidade de domínio por meio de um aparato organizado de pode Aquele que, servindo-se de uma organização verticalmente estruturada e apartada da ordem jurídica, emite uma ordem cujo cumprimento é entregue a executores fungíveis, que funcionam como meras engrenagens de uma estrutura automática, não se limita a instigar, mas é verdadeiro autor mediato dos fatos realizados. Isso significa que pessoas em posições de comando em governos totalitários ou em organizações criminosas ou terroristas são autores mediatos, o que está em conformidade não apenas com os parâmetros de imputação da história como com o inegável fato de que, em estruturas verticalizadas, a responsabilidade tende não a diminuir, mas sim a aumentar em função da distância que se encontra um agente em relação ao acontecimento final.

(3) A terceira maneira de dominar um fato está numa atuação coordenada, em divisão de tarefas, com pelo menos mais uma pessoa. Se duas ou mais pessoas, partindo de uma decisão conjunta de praticar o fato, contribuem para a sua realização com um ato relevante na fase de execução (e não na fase preparatória) de um delito, elas terão o domínio funcional do fato (funktionale Tatherrschaft), que fará de cada qual coautor do fato como um todo.

(4) O critério do domínio do fato não é proposto com pretensões de universalidade. Há delitos cuja autoria se determina com base em outros critérios. O primeiro e mais importante desses delitos é o grupo dos chamados delitos de dever ou, como preferem os espanhóis, delitos de violação de dever (Pflichtdelikte). Neles, autor é quem viola um dever especial, de caráter extrapenal, pouco importando o domínio que tenha sobre o fato. Entre os delitos de dever, encontram-se, principalmente, os delitos próprios (delitos de funcionário público, por ex.) e os delitos omissivos impróprios (em razão da posição de garantidor). Outro importante grupo de delitos cuja autoria é regida por critérios distintos do domínio do fato é o dos delitos de mão própria: neles, autor é exclusivamente quem pratica, em sua própria pessoa, a ação típica, sendo impossível a autoria mediata.Por fim, os , que inicialmente foram entendidos por Roxin como delitos de dever, são regidos pelo conceito unitário de autor.

(5) Como foi dito, a influência do livro mal pode ser exagerada. As ideias nele contidas estão no centro da discussão até os dias de hoje. Na presente sede, limitar-nos-emos a referir a duas delas: a dos delitos de dever e a da autoria mediata por domínio de organização. A figura dos delitos de dever não só encontrou acolhida em grande parte da doutrina, como também foi erigida por Jakobs e sua escola em um dos pilares de sua teoria estritamente normativista do injusto penal.E a possibilidade de uma autoria mediata por meio de aparatos organizados de poder, depois de tornar-se doutrina majoritária, foi admitida não apenas pela jurisprudência alemã como também pela de outros países, como Argentina e Peru, e encontrou reconhecimento no direito penal internacional. A figura originou uma das mais intensas discussões da atualidade, em que se debate, principalmente, se a figura sequer deve ser reconhecida e, num plano mais concreto, se ela deve ser aplicada também a organizações não dissociadas do direito, isto é, a empresas.


Em suma, o conceito de autor, neste estudo, é aquele chamado “dominador do fato” e que tem um poder de domínio sobre a execução e consumação do ilícito. É o indivíduo que, usando de sua posição burocrático-institucional de mando, emite ordem de cometimento de crime, tendo controle sobre esse processo delituoso.


Partindo do dominador do fato (“homem de trás” ou “Hintermann”) o estopim intelectual, seguido do ato de mando a um agente, ligado àquele por circunstâncias de hierarquia, mantendo o primeiro o domínio da cadeia causal criminosa ou tendo o domínio final do fato.


É, em essência, uma teoria não-objetiva, ainda que haja discordâncias e nuances neste sentido. Mas correto dizer que se volta mais atenção ao domínio psicológico dos elementos que compõem o iter criminis.


O autor intelectual, ainda que não atue de maneira ostensiva, não configura mero partícipe, e sim autor propriamente dito, em razão de seu poder de mando, ou seja, do controle da maquinação criminosa e da influência exercida em seu hieraquizado (s).


Comentário adicional: há possibilidade de coautoria nesse caso, existindo outros dominadores do fato. E outro: não existe aplicação do domínio do fato nos crimes culposos, por absoluta e intrínseca incongruência dessa tentativa.


Assim, desnecessário estar o autor obrigatoriamente inserido em alto cargo no escalão da instituição que o abriga profissionalmente, o que é necessário é o poder na causação criminal que, por definição, é encontrado nos altos cargos. A importância não advém do posto profissional galgado, e sim do poder de mando que esse mesmo cargo concede.


Quer dizer, ainda que não seja o Chairman da instituição, é imprescindível seja comandante e monitor do desenrolar delituoso dos agentes envolvidos. Que participe do fato, ao menos intelectualmente - tendo domínio dos fatos que constituem o iter, por meio da subordinação exercida. Autor, dessa forma, é quem, ainda que não pratique atos materiais ou físicos, controla ou domina subjetivamente a trama criminosa.


Os requisitos da aplicação de referida teoria podem ser assim desenhados, muito que simploriamente:


a) estrutura burocrática, aparelhada hierarquicamente;

b) existência de ordem de execução pelo“dominador dos fatos ou “homem de trás";

c) efetivo domínio da trama criminosa pelo emissor da ordem ou dominador dos fatos;

d) fungibilidade dos agentes executores.


Questão que dever se esclarecida é a da exclusiva ratio para condenação pela tão só posição burocrática assumida na empresa/órgão/corporação. A situação hierárquica do dominador não garante condenação nenhuma: há que se ter a emissão de ordem para o cometimento dos delitos e o efetivo domínio sobre os fatos práticos pelos agentes subordinados. Nem necessário dizer: tudo devidamente provado.


Não é possível condenar com base nessa teoria, em razão da presunção de inocência, tão apenas pelo cargo assumido ou mandato desempenhado ou que o indivíduo era plenipotenciário ou de competência ou atribuições muito vastas. O critério é insuficiente, o que não prescinde jamais da emissão da ordem dolosa para a prática do ilícito. Estaria configurada autêntica presunção de culpabilidade, o que é inconcebível, e, repita-se, há que se ter provas da emissão da ordem – sob pena de adoção da responsabilidade penal objetiva.


Seguem alguns textos jurisprudenciais que citam a teoria em exame.


TJ-PR - 9031601 PR 903160-1 (Acórdão) (TJ-PR)

Data de publicação: 19/07/2012

Ementa: APELAÇÃO CRIMINAL. LATROCÍNIO. AUTORIA E MATERIALIDADE PLENAMENTE DEMONSTRADAS. PRETENSÃO DE DESCLASSIFICAÇÃO PARA ROUBO. ALEGAÇÃO DE QUE O RÉU NÃO PRATICOU A CONDUTA QUE RESULTOU NA MORTE DA VÍTIMA, E QUE POSSUÍA A INTENÇÃO DE PARTICIPAR DE CRIME MENOS GRAVE. DESCABIMENTO. APLICAÇÃO DA TEORIA DO DOMÍNIO DO FATO. RÉU QUE PARTICIPOU ATIVAMENTE DE TODO O FATO DELITUOSO. CLARA DIVISÃO DE TAREFAS. APELANTE QUE DEVE SER CONSIDERADO COMO COAUTOR DO CRIME DE LATROCÍNIO. PRECEDENTES. DOSIMETRIA DA PENA ESCORREITA. RECURSO NÃO PROVIDO. Não se mostra possível a desclassificação do delito para roubo, já que o apelante assumiu o risco de produzir o resultado mais grave, e participou ativamente de toda a execução do delito, devendo responder como coautor do delito de latrocínio, aplicando-se, ao caso, a teoria do domínio do fato.

 

TRF-5 - EIACR Embargos Infringentes em Apelação Criminal EIACR 20088305000626401 (TRF-5)

Data de publicação: 25/09/2013

Ementa: PENAL E PROCESSUAL PENAL. CRIME CONTRA A ORDEM TRIBUTÁRIA (ART. 1º , I , DA LEI Nº 8.137 /90). TEORIA DO DOMÍNIO DO FATO. AUTORIA DEMONSTRADA. 1. Embargos infringentes em face de acórdão da 1ª Turma deste egrégio Tribunal que, por maioria, deu parcial provimento à apelação criminal interposta pelo réu, para, mantendo a condenação do 1º grau pela prática do delito previsto no art. 1º , I , da Lei nº 8.137 /90, apenas reduzir a pena privativa de liberdade imposta. 2. Busca o embargante prevalecer o voto minoritário, que divergiu da maioria do órgão colegiado apenas quanto à autoria do delito. Desta forma, estes embargos limitam-se à discordância quanto à autoria do crime, uma vez que não houve divergência no tocante à materialidade do delito contra a ordem tributária previsto no art. 1º , I , da Lei nº 8.137 /90. 3. O sujeito ativo dos crimes contra a ordem tributária não é necessariamente a pessoa que pratica o comportamento descrito na lei penal, mas, sim, aquele que possui o domínio do fato, ou seja, sem executar diretamente a conduta típica, controla a atividade de outro que a realiza. 4. In casu, na época dos fatos delitivos - 2000 a 2002, em que pese o embargante não fazer parte do quadro societário da empresa sonegadora, há provas robustas nos autos de que era ele quem traçava os destinos da pessoa jurídica. Ressalte-se depoimento de uma das testemunhas arroladas pela defesa e interrogatório do embargante nos autos da Ação penal nº 2004.83.00.006842-6, onde o recorrente reconheceu ser o administrador da sociedade. 5. Embargos infringentes improvidos.

 

Assim, podemos resumir a Teoria do Domínio do Fato como uma teoria de imputação penal objetivo-sujetiva que alcança e aponta como autor o “dominador efetivo do fato”, portador do poder de mando em determinada estrutura corporativa (Estado, organização, empresa) e que, através de uma esquemática hierárquica e de subordinação, faz com que outros agentes se empenhem diretamente no desenrolar do ilícito que a ele interessa, mantendo o primeiro o manejo da cadeia causal e o domínio final do fato.


Espero ter colaborado um pouco com o debate dessa matéria, que começa ganhar seus contornos de importância no país.

10 Dez 2013
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A Balada do Cárcere (1996): Primeira Parte: Descobertas

 

 

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Bruno Tolentino


Descobre-se que a paixão,
a paixão e a primavera,
se são paralelas são
dois termos da mesma espera.


Espera encantada ou não,
ambas não passam de mera,
febril aproximação
da jaula aberta da fera,


tremor contínuo da mão
que agarra o gradil e enterra
as unhas na solidão
que força mas não descerra.


Mordida de comunhão,
no tronco o dente da serra,
no dente o grito do grão,
e a boca aberta da terra


recebe e fecunda o chão
com os pedaços que a pantera
desmembrou na confusão
com o corpo que já não era


sequer a gazela e em vão
se debate e dilacera
de tanta sofreguidão.
A véspera desespera.

 

10 Dez 2013
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Confúcio

A nossa maior glória não reside no fato de nunca cairmos, mas sim em levantarmo-nos sempre depois de cada queda.


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10 Dez 2013
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Ibn Arabi
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O principal para ti é prestar atenção a todo o momento, estar atento ao que chega a tua mente e ao teu coração. Reflete sobre estes pensamentos e sentimentos. Analisa-os. Tenta controlá-los. Tenha cuidado com os desejos do teu ego, salda tuas dívidas para com ele.


Tenha consciência, vergonha frente a Deus. Ele será um bom motivo para estares prudente, vigilante. Te preocuparás, então, pelo que estás fazendo, dizendo e pensando, e os pensamentos e sentimentos que sejam feios aos olhos de Deus não poderão assentar-se em teu coração. Teu coração estará assim a salvo de desejar ações que não estejam de acordo com a vontade de Deus. Valoriza teu tempo, vive o presente. Não vivas imaginariamente, ou gastes mal o tempo de que dispões. Deus prescreveu um dever, um ato, um culto para cada momento. Aprende qual é e apressa-te para fazê-lo. Primeiro leva a cabo as ações que Ele estabeleceu como obrigatórias. Logo, realiza o que mandou fazer por meio do exemplo do seu Profeta. Depois, faça também as ações boas e aceitáveis que Ele deixou para tua livre decisão. Trabalha para servir aos que estejam necessitados. Tudo quanto faças, faça-o com o propósito de te aproximares de teu Senhor em teus atos de adoração e nas orações. Pensa que cada ação possa ser teu último ato, que cada oração possa ser tua última prostação, que possa ser que não tenhas outra oportunidade. Se o fazes assim, terás um novo motivo para manter-se vigilante e, também, para chegar a ser sincero e verdadeiro. Deus valoriza menos as boas ações feitas inconscientemente e sem sinceridade, que as realizadas consciente e sinceramente.


Ibn' Arabi




10 Dez 2013
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Gênio Consumado

"Gustavo Miquelin Fernandes é aquele que definiu direitos como apenas a relação formal existente entre a declaração positiva e necessária contraposição de um outro sujeito que a ele deve funcionar como elo necessário e producente. Ou seja, sem alteridade não há, em essência, a existência dos direitos em sentido geral. Pergunta-se: ele pensa isso mesmo sobre os direitos naturais do homem e cidadão?"



Eu até ia comentar a citação, mas não sei nem por onde começar, tamanha a confusão feita (em menos de 5 linhas).
Lamentável.
Gustavo

08 Dez 2013
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A mulher seminua e o ódio ao Ocidente

 

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Ali Kamel


o texto "A guerra de três mundos", tentei mostrar como a Irmandade Muçulmana, criada em 1928 por Hassan Al-Banna, lançou as bases teóricas do terrorismo islâmico contemporâneo, ao estabelecer que é obrigação de todo muçulmano lutar, sem medo da morte, para que o islamismo volte a um idealizado estado de pureza dos tempos do Profeta. Com o slogan "a morte na luta por Deus é a nossa grande esperança", o objetivo do grupo era reviver o califado, com a reunião de todas as nações muçulmanas reconvertidas. Apesar da repulsa ao Ocidente, a Irmandade acenava, porém, até o fim da década de 1940, com uma espécie de compromisso. No manifesto "Na direção da luz", Al-Banna disse: "As pessoas imaginam que a nossa maneira muçulmana de viver nos desconecta do Ocidente. E isso só serve para perturbar nossas relações políticas com eles justamente agora que estávamos para estabelecê-las. Nada é mais fantasioso. Porque os porta-vozes do Ocidente sempre disseram que todas as nações são livres para estabelecer seus próprios caminhos, desde que não infrinjam os direitos dos outros". Mas tudo isso iria mudar ainda na década de 50, com a aparição de Sayyid Qutb, principal ideólogo da Irmandade depois do assassinato de Al-Banna pelos agentes secretos do governo egípcio. Na verdade é Qutb, e não Al-Banna, quem é hoje o principal mentor dos atuais terroristas.


A história de Sayyid Qutb é a de um convertido. E a conversão ao radicalismo muçulmano se deve em grande parte aos Estados Unidos. Egípcio como Al-Banna, Qutb passou a juventude entre a intelectualidade do Cairo, ambicionando uma carreira de escritor. Embora sempre muito religioso, demorou a ligar-se à Irmandade. Formou-se em educação e atuou como inspetor de escolas. Mais tarde, já trabalhando para o Ministério da Educação, foi mandado, em 1948, para os EUA, a fim de se inteirar dos métodos educacionais e dos currículos americanos. A ideia do governo egípcio era abrir-lhe os horizontes, mas o resultado foi trágico. Ele passou dois anos e meio nos EUA: Nova York, Washington, Colorado e Califórnia. A experiência certamente mudou a vida dele, mas teve uma influência ainda maior sobre as nossas. Já na viagem de navio, de Alexandria a Nova York, ele enfrentou a situação mais embaraçosa de sua vida: à porta de sua cabine, uma mulher seminua e bêbada tentou seduzi-lo. Ele não era nenhum garoto, tinha já 42 anos de idade, mas o efeito daquele encontro o marcou para o resto de seus dias (ele permaneceu solteiro até a morte). Sem nenhuma base na realidade, anos mais tarde ele disse ao seu biógrafo Abd al-Fattah Khalidi que a mulher seria uma agente americana, cuja missão era corrompê-lo. John Calvert, professor de história da Creighton University, em Nebrasca, estudou a passagem de Qutb pelos EUA em seu artigo "O mundo é um menino sem modos: a experiência americana de Sayyid Qutb" (o título é uma referência a um curto ensaio de mesmo nome que Qutb escreveu nos EUA, dizendo que o mundo era um menino sem modos por ter ignorado os dons do espírito que o Islã legou à Humanidade). O próprio Qutb escreveu artigos e cartas sobre sua experiência americana, anos mais tarde reunidos por seu biógrafo em um volume chamado "América por dentro: através dos olhos de Qutb".


Qutb ficou pouco tempo em Nova York, mas o suficiente para detestá-la, classificando-a como uma grande oficina barulhenta e estrepitosa. Os nova-iorquinos tinham, segundo ele, a mesma sorte dos pombos que infestavam a cidade, "condenados a viver uma vida sem graça, engarrafamentos e os empurrões". Logo, ele estava em Washington, no Wilson Teacher's College, da Columbia University, tentando melhorar o seu inglês. Mas a repulsa por tudo o que era americano só aumentou. Qutb desabafou em carta a um amigo, segundo conta Calvert: "Eu preciso muito de alguém com quem possa conversar sobre outros assuntos, que não apenas dinheiro, estrelas de cinema e modelos de carro!" Na mesma carta, ele disse que os americanos eram totalmente desinteressados da dimensão espiritual da vida e tinham péssimo gosto. Como prova da degeneração americana, Qutb descreveu um rapaz que estava a uma mesa de distância no mesmo restaurante que ele, cujo corpo era marcado por enormes tatuagens representando um elefante e um leopardo. "Este é o gosto dos americanos", disse, espantado.


Mas àquela altura, Qutb ainda não tinha visto tudo. Ele se mudou pouco tempo depois para Greeley, uma cidade do Colorado, onde foi continuar seus estudos de inglês. Já chocado com o "american way of life", Qutb só tinha olhos para ver degeneração e vícios nas mais singelas manifestações de vida. Como numa divertida tarde durante uma festa de igreja. Certo dia, Qutb visitou uma delas e viu casais dançando, à meia luz, na presença das famílias e do pastor, que botava na vitrola a música "Baby, it is cold outside". Mais tarde, quando descreveu a cena, Qutb a pintou como a visão de um bacanal: "A atmosfera era de sedução e a música servia para criar um efeito romântico e onírico. A dança intensificou-se, o salão fervilhava em pernas, braços enlaçavam braços, lábios tocavam lábios, peitos tocavam peitos, enfim, uma atmosfera cheia de sedução". Até o hábito de dedicar o fim de semana para aparar a grama era visto por Qutb como sintoma da preocupação americana com o externo, o material, o fútil, e prova do egoísmo dos indivíduos. Detalhe: Greeley era uma das cidades mais conservadoras do Colorado, fundada em 1870 como uma experiência utópica de puritanos protestantes, que cultivavam valores rígidos (quando Qutb lá esteve, a venda de álcool era proibida). Greeley é conservadora até hoje, mas, para os olhos de Qutb, ela era a porta para o inferno.


Quando voltou para o Egito, descreveu o que viu como o reino do pecado e da decadência: para ele, as igrejas eram centro de lazer e playground sexual, a liberdade das mulheres era, mais que excessiva, um desrespeito aos valores mais sagrados de Deus, e os costumes, a vida social e política dos ocidentais, um atentado contra as leis divinas. Antes da visita aos EUA, Qutb era religioso e conservador, certamente. Mas a experiência americana o transformou num radical. Em 1951, aderiu à Irmandade Muçulmana e passou a ser o seu principal teórico. Em pouco tempo estaria preso. Passou mais de dez anos na cadeia, foi libertado por um breve período, mas, mesmo sabendo que o risco de voltar à cadeia era grande, decidiu não emigrar. Quando publicou "Sinalizações na estrada", sua obra mais conhecida e radical, considerada a bíblia do terror islâmico, foi preso por pregar a derrubada do governo, por conspiração e por traição. Julgado, foi enforcado em 1966. Durante todo o período em que esteve na cadeia, sofreu toda sorte de tortura, mas não parou de escrever. O resultado é uma obra monumental, 30 volumes que ele chamou de "À sombra do Alcorão", uma minuciosa exegese do livro sagrado dos muçulmanos. Ele escreveu outros 24 livros, que se caracterizam por impor demandas implacáveis aos crentes que se quiserem crentes. Mas o ódio ao Ocidente será a grande marca de sua obra. A viagem aos EUA certamente abriu-lhe os horizontes, mas não na direção que a monarquia egípcia imaginava.


Como Al-Banna, Qutb não tinha dúvidas existenciais. À eterna pergunta - quem somos, de onde viemos e para onde vamos - ele tinha uma resposta simples: "O Alcorão explicou para o homem o segredo de sua existência e o segredo do universo que o cerca. Ele revelou quem o homem é, de onde ele vem, com que propósito e para onde vai ao fim da vida". E, como Al-Banna, Qutb acreditava que até mesmo o mundo muçulmano encontrava-se no estado de Jahilliyyah, a ignorância pré-islâmica.


Apesar das semelhanças, Qutb superou Al-Banna. Ele é o responsável pela principal transformação do movimento radical islâmico: se antes a luta era para devolver ao Islã a sua forma original e reunir todos os muçulmanos num só califado, depois de Qutb a meta passou a ser a conversão de todo o mundo ao islamismo, sem exceção. É Qutb quem lança as bases para uma Jihad mundial, hoje principal objetivo da al-Qaeda e de Bin Laden. Para Qutb, a luta para livrar as terras muçulmanas de governos corruptos vinha se mostrando infrutífera porque não se percebia, até ali, que o Ocidente, com sua influência diabólica (o que não faz uma americana bêbada!), era o grande entrave: era preciso também convertê-lo. Para ele, o homem quis tomar o lugar de Deus, tanto nos países ditos muçulmanos como nos ocidentais. "A rebelião contra Deus transferiu ao homem o maior atributo de Deus, a soberania sobre todas as coisas. E fez alguns homens senhores de outros. Somente num sistema islâmico de vida, todos os homens se tornam livres da servidão de alguns homens a outros homens e se devotam à submissão do Deus único, recebendo Dele orientação e se curvando diante Dele." Qutb dirá que é preciso criar antes um Estado muçulmano modelo, que dê o exemplo da virtude islâmica ao mundo. E, logo depois, empreender a luta para que o Islã purificado vença, indistintamente, no Ocidente e nas terras muçulmanas. "A beleza do nosso sistema não pode ser apreciada a menos que ele tome uma forma concreta. Por isso, é essencial que uma comunidade ordene a sua vida de acordo com ele e o mostre ao mundo. Para que isso aconteça, é preciso que o movimento para o renascer do Islamismo seja iniciado em algum país islâmico", pregava Qutb em "Sinalizações da estrada", para logo em seguida descrever os passos seguintes: "Essa religião é realmente uma declaração universal para libertar o homem da servidão a outros homens e da servidão a seus próprios desejos. É uma declaração de que a soberania pertence apenas a Deus e que Ele é o senhor dos mundos. É um desafio a todos os tipos e formas de sistemas baseados na soberania do homem. (...) Em resumo, é preciso proclamar a autoridade e a soberania de Deus para eliminar toda forma humana de governo e anunciar o mando Daquele que sustenta o Universo sobre a Terra inteira." E, para que não pairasse dúvidas sobre os seus métodos, Qutb deixava bem claro que a meta de expandir o Islã só seria obtida com o uso da força. "O estabelecimento do domínio de Deus sobre a Terra não pode ser atingido apenas com pregação. Aqueles que usurparam o poder de Deus não desistirão do seu poder meramente através de pregação. Se assim fosse, a tarefa de estabelecer a religião de Deus no mundo teria sido muito fácil para os profetas de Deus. E isso é contrário a toda evidência da história dos profetas e da história das lutas da verdadeira religião em todas as gerações." Lendo essas declarações conjugadas, é impossível não lembrar a estratégia usada pela al-Qaeda: primeiro, estabeleceu o que considerava ser um Estado muçulmano perfeito no Afeganistão e, depois, tão logo pôde, declarou guerra ao mundo ocidental com os atentados às Torres Gêmeas e ao Pentágono.


Outro ponto na obra de Qutb faz lembrar a al-Qaeda e o 11 de Setembro. Diferentemente de Al-Banna, para quem todo contato com o Ocidente devia ser evitado, Qutb enxergava a necessidade de que os muçulmanos aprendessem com não-muçulmanos toda sorte de técnicas e ensinamentos. "Um muçulmano pode ir a um não-muçulmano para aprender ciências abstratas como química, física, biologia, astronomia, medicina, técnicas em produção, agricultura, tecnologia, artes militares. A razão fundamental é que quando a comunidade muçulmana pura vier a existir, ela terá de ter especialistas em todos esses campos em abundância, para não incorrer em pecado", dizia Qutb. Isso talvez explique por que, durante anos, os participantes do 11 de Setembro estudaram na Europa e nos EUA (e foi em escolas americanas que eles aprenderam a pilotar aviões).


Para justificar as suas teses, Qutb teve, no entanto, de dar nova interpretação a antigos mandamentos do Alcorão. Somente uma interpretação bastante heterodoxa poderia justificar o ódio que ele prega aos judeus e aos cristãos, tradicionalmente vistos por muçulmanos como "homens do Livro", ou seja, como parte da mesma tradição religiosa, filhos de Abraão e, portanto, merecedores de respeito. "O Profeta, que a paz esteja com ele, definiu claramente, de acordo com a Sharia, que 'obedecer' é "cultuar". Tomando esse sentido do verbo 'cultuar', quando judeus e cristãos não obedecem, eles se igualam àqueles que associam outros a Deus", diz Qtub, pondo então judeus e cristãos no mesmo nível que os idólatras e politeístas, a quem o Alcorão manda punir com a morte. Vem daí, também, a retórica de Bin Laden e da al-Qaeda sobre os novos "cruzados", o ódio a Israel e aos judeus de todo o mundo, e a luta que deve ser empreendida contra eles.


Mas a heterodoxia de Qutb, travestida de ultraortodoxia, deu outros passos. Como fez Qutb para conciliar sua interpretação segundo a qual impor o Islamismo ao mundo é um mandamento de Deus e a clara e reiterada proibição do Alcorão de converter qualquer pessoa à força ao Islamismo? Qutb disse que os estudiosos do Alcorão sempre erraram ao considerarem as duas coisas inconciliáveis. Para ele, a mensagem de Deus é tão clara, o Islamismo é tão obviamente uma forma de vida superior, que os indivíduos se converterão a ele tão logo os governos de todo o mundo deixem de impedir que os seres humanos enxerguem isso. "Quando o Islã libertar as pessoas de toda pressão política e apresentar a sua mensagem espiritual, apelando para a razão, ele dará a todas elas a liberdade para aceitar ou não as suas crenças", dizia Qutb. Mas ele próprio advertia: "Entretanto, essa liberdade não significa que eles possam fazer de seus desejos seus deuses ou que eles possam escolher continuar na servidão a outros seres humanos. Mas, num sistema islâmico, há espaço para que todo tipo de gente siga suas crenças, desde que obedeçam às leis que serão baseadas na autoridade divina." Algo semelhante acontece hoje na Arábia Saudita, onde a liberdade de religião é bastante restrita. Não é possível, para nenhuma outra religião, fazer cultos em público, fazer proselitismo religioso, tentar conquistar adeptos: o crente de outra religião só pode rezar em casa e, mesmo assim, sem a presença de pessoas de fora do meio familiar, porque, do contrário, arrisca-se a ser acusado de desobediência, uma vez que nunca se sabe ao certo a partir de que número de participantes um culto, mesmo realizado privadamente, torna-se público.


No último artigo, como Qutb destrói a esperança de muitos ocidentais que acreditam na estratégia de deixar o Islã em paz para que ele nos deixe em paz também. E como Bin Laden se torna herdeiro de Qutb e põe em prática as suas ideias. E, por último, a ameaça: por que pode ser evidente que não é apenas um blefe a afirmação de Bin Laden de que já dispõe de capacidade nuclear.


Fonte: jornal O Globo, 5 de abril de 2004.

08 Dez 2013
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Estórias da Minha Vida






Gustavo Miquelin Fernandes



*

Sempre tive sérias dificuldades na escola - embora, medroso, sofresse calado. Não sei se, a rigor, seria classificado como disléxico ou portador de outro tipo de transtorno, fato é que, embora alfabetizado fora da escola, tinha extrema dificuldade em acompanhar os coleguinhas.
Garoto magrelo que não sabia fazer contas com vírgulas e escrevia exatamente como se procedia à leitura, desconsiderando as regras mais elementares da escrita.
Resquícios dessa época ainda me fazem gentis acompanhamentos: o vocábulo "muito" é um deles.
Sei que me julgarão bastante burro, mas a frequência com que AINDA escrevo "muinto" (nunca entendia porque sonorizávamos o "n") é bastante alta.
Acho muinto engraçado isso.

*

Sempre fui muito medroso com relação à entrevistas de emprego. Fico bastante inseguro.
Certa vez em uma para um grande escritório de advocacia, já na sala de reunião e em presença do entrevistador, este me convidando a sentar, em tom bastante sério, sem resquícios nenhum de gozação:
-Pode sentar aí mesmo no primeiro lugar, você deve gostar de sentar numa ponta.(!)
Eu, com humildade e um cabisbaixismo bastante forçado, sentei e fiquei mudo, esperando nova provocação.
-Mas vamos lá: E o que você deseja ser nesta empresa?
E eu, já naquela zona de transição entre a humilhação e a sacanagem, mandei assim para o chefia:
-Ora, o senhor mesmo já respondeu: quero ser um profissional de ponta!
Não sei se fiz certo ou errado, mas quebrei as pernas do entrevistador:
-OK! Vamos às perguntas técnicas. Escolhe aí as que você quer responder...

*

Na década de 90, para ganhar unzinho, e estimulado pela novela Carrossel, comprava balas no pipoqueiro Benevides e as embalava em casa com outro papel, feito a canetinha, estampando no centro uma estrela azul, cuidadosamente colorida.
Diziam que as balas "Estrela Azul" tinham cocaína, ou veneno, ou qualquer outra coisa que eu não entendia bem.
Mas querendo faturar, as vendia, se bem que falsificadas.
Obs.- ninguém comprava, o pessoal tinha muito medo.

*

Quando minha sobrinha tinha uns 4 anos de idade, brincava bastante de super-herói, e certamente muito influenciada pela televisão, ora por desenhos animados, ora por programas religiosos daqueles pastores, lançava em mim seus poderes especiais:
-Fogo!!!
E logo em seguida emendava:
-Em nome de Jesus!!!

*

Dois Córregos é uma cidade encantadora e sempre foi. Quem não conhece, que venha. E tendo muitos moradores na zona rural, havia por aqui um personagem folclórico com conhecida passagem. Voltava para o sítio com a esposa, em dia chuvoso e, sendo de idade avançada e um pouco alcoolizado, dirigia sôfrega e barbeiramente, em velocidade bastante alta, para desespero de sua mulher que gritava bastante em seu ouvido, aumentando sobremaneira a tensão daquela cena.
Passando em grande vala e sem cuidados mínimos de direção veicular, ocorre pequeno incidente, contra o qual a mulher desesperadamente se insurge, mandando parar o carro e gritando cada vez mais.
E o velho, fleumático, tentando aplacar o sofrimento de sua senhora:
-Caaalma, muié, só caiu a porta...

*

Eu sempre fui um artista completo.
Só que não!
Em parceria com antigo colega, nosso repertório, muito extenso, comportava apenas três músicas: Estou Apaixonado, de Daniel, Florentina de Jesus, do deputado Tiririca - que Caio fazia questão de não saber a letra, a ponto do seu avô Xande ter de escrevê-la - e um rap monossilábico que dá até vergonha de detalhar.
Além do especial repertório, o violão, que não tinha cordas, também era meu ponto forte - do qual não me separava.
Ensaiávamos bastante na sala, para tocar depois de verdade...na sala também.
Só que eu não quis seguir carreira.

*

Um amigo meu de Botucatu foi fazer uma audiência bêbado, na verdade muito bêbado. Não aguentou e dormiu no finalzinho, enquanto o juiz ditava o termo para as partes assinarem.
Ao ser questionado pelo seu representado, que se sentiu desrespeitado, informa com a consciência bastante limpa:
-Eu apenas estava orando e agradecendo o sucesso que foi nossa audiência.
-Opa, louvado seja! - o cliente todo contente.

*

Frequentei bastante o famoso "Bar da Rosa". Muita mulher bonita e o ambiente, muito bom. Conheci uma moça um pouco mais nova, mas muito interessante que sabe que hoje eu sou seu grande fã.
Mas, no começo da amizade ela quis se impor, achando que eu fosse underground ou alguma coisa do tipo.
Ela, projeto de bicha-grila, que hoje é A MELHOR JORNALISTA DE BAURU, dizia quando me conheceu:
-Cara, eu sou do mundo, não pertenço a ninguém, mega-independente, dona da minha vida e do meu mundo, totalmente acima de convenções e mais preocupada com a fivela da minha sandália do que com o que pensam de mim.
E um pouco mais à frente adiantava:
-Agora, preciso ir, meu pai chegou pra me buscar - não posso me atrasar, se não ele fica muito bravo.

*

Morava na Vila Santo Antônio, bairro pequeno, tranquilo e bastante divertido - lugar onde passei excelentes momentos (1992/1999), sempre atrás de bola, fliperama ou bicicleta.
Havia, nas cercanias, simpática criatura que quotidianamente subia por nossa rua, saltitando alegremente, no sapatinho colorido, na blusinha decotada, na calça bastante apertada que deixava o formato do saco bastante à mostra e com certa ginga diferente, sempre com delicada bolsinha à tiracolo.
Aquela alegre pessoa intrigava muito a molecada da rua porque, realmente, era um pouquinho diferente.
Até que, cansados de especulações inúteis acerca da espiritualidade do rapazola, pedimos a um amigo (adotei como política não citar nomes), pouco mais novo e mais ingênuo que fosse dialogar, em busca de respostas para o mistério.
-Tá loco; eu perguntar se ele é viado!
-Não, seu burro! Que grosseria. Chega com educação, pergunta se ele é bicha.
-Ah tá, assim tudo bem.
Munido dessa relevante missão, e nós outros ansiosos, aguardando no banco de madeira do Senhor Mário Fornaciari, nosso agente chegou até aquela libélula e, com a maior fineza, educação e discrição do planeta, indagou:
- Ow, cê é bicha?
- Eu não!
-Não???
-Não. Sou tricha: três vezes bicha!
-Ah sim, muito obrigado.

*

No final da década de 80, quando a Fabiana era criancinha, vendo alguns pintinhos da granja enfermos e doentinhos, bastante condoída, preparava-lhes uma mistura toda especial, composta de ração, terra e pedrinhas, crendo, sinceramente, que estava fazendo algo para o bem dos bichinhos, no que estava mesmo: ela os matava antecipadamente.

*

Acompanhado de um grande amigo, hoje amigado com uma moça mais nova, tomávamos uma cervejinha ali num bar na Batista de Carvalho, quando ele, que era muitíssimo malandro, ao avistar duas moças muito bonitas e que estavam todas de branco - dos pés à cabeça - resolveu aplicar um golpe para chamar atenção das donzelas - que só poderiam ser ou médicas ou enfermeiras.
Simulou estar sincopado, onde o ar faltava e o peito doía muito, e estertoroso clamava:
-Ai, tô passando mal. Chama algum médico!
E as moças nem aí pra ele e seu ataque cardíaco, concentradas que estavam em suas conversas e nos aperitivos.
Até que, indignado, tive que entrar em cena:
-Doutoras, meu amigo tá passando muito mal, não viram? Poderiam atendê-lo?
-Mas não somos médicas, trabalhamos no açougue ali no supermercado da rua baixo. Mas isso aí deve ser a pressão, ein?!
08 Dez 2013
Admin · 72 vistos · 0 comentários
Eichmann em Jerusalém

http://4.bp.blogspot.com/-fthxN1VWfHg/TtLsK0SkUUI/AAAAAAAAT5o/9QaxLyPZIrI/s1600/Eichamann%2Bem%2BJerusal%25C3%25A9m.jpg

07 Dez 2013
Admin · 62 vistos · 0 comentários
Sobre Arte

 

http://1.bp.blogspot.com/-_IdRwzB8Nmo/T2vkX1l9BtI/AAAAAAAAAA0/GxdeqJ8wJYM/s1600/ARTE.jpg

 

"O objetivo da arte não é representar a aparência exterior das coisas, mas o seu significado interior" - Aristóteles

 


Gustavo Miquelin Fernandes


 

O retardamento mental convive com variadas formas de lucidez, sem problemas grandes de exclusividade, a legar gênios completos ou matadores seriais ou mesmo mesóclises personalísticas, meio-termo daqueles.


Essa diversidade permitida, entretanto, afiança e endossa o bom combate ao primeiro, e o cultivo espiritual do segundo.


Não que essa guerra justa se resuma a uma cruzada mortífera entre húbris e sofrósina, mas essa dialética é um primeiro e firme passo para se dar conta do saldo do combate - que leva à constatação que o aviltamento da cultura e da produção espiritual do homem-massa (Gasset) triunfou glorioso, colocando-nos apenas como fiéis replicadores de uma massa totalmente invectiva a nossa tradição fundante (que contou com produtores culturais de altíssimo nível) ou uma pasta literária e artística, que sob a rodela do “pós-moderno”, usurpa a nova Estética e se afirma elemento, a partir de agora, estável - e que veio pra ficar, sob aplausos de uma nova classe crítica bem acolhedora.


Essa parcela espiritual de fruição humana expira.


E quando você percebe que uma lata contendo excrementos de um homem, e uma exposição, num salão em Paris, de fotografias de variadas formas de ânus, ou o envio de um pavão pelo artista a uma Bienal e a essas respeitáveis obras se dá o nome de "Arte", aquela conclusão acima é inevitável.


E a Arte, sopro da Estética, está urbi et orbi, em todos os lugares, bem assim na Política, na Educação, na Religião, etc.


Onde um ajuntamento de bandidos que se chamam reciprocamente de "Vossas Excelências" com um ar de autoridade que, em essência, não têm, para discutirem assuntos motu proprio ou no interesse do partido dominante e dá o nome a isso de "Política"; que rabiscos que combinam conceitos estereotipados de espiritualidade e magia, uma autoajuda de feira e pouquíssima cultura e dá a tudo isso o nome de "Literatura"; quando todo aquele conteúdo que as escolas intoxicam seus alunos-coitados é chamado "Educação"; que a expressão religiosa é aquela onde estelionatários operam pela mão de Jesus desde que a mão dos fiéis operem primeiramente no bolso e logo em seguida na caixinha daqueles charlatães e a esse fenômeno místico chamam "Religião" - novamente, aquela conclusão emerge com força.


Tudo isso é reminiscência da Arte, tem algo de estético nisso, e como dito, está sofrendo notável despedaçamento, e qualquer ataque que se faça a este novo estado de coisas, o espectro do politicamente correto se arma, levanta e engole toda a crítica, que se afasta acuada e amedrontada. Talvez o politicamente correto, a neo-religião, é a coisa de mais sagrada no país.


Sob o pretexto neo –iluminista de se fechar numa redoma racionalizante e arredar totalmente qualquer fundo místico ou sacro, nossos agentes das artes (literatura, fotografia, cinema, plásticas) nos fazem cair numa vala extremamente fria da banalidade humana, do normal, do comezinho, retratando toda a mediocridade por trás desse cenário.


O que importa é transmitir ao homem-massa esta mesma cultura de massa, não mais aquele conteúdo clássico da Arte, de veículo de transmissão de emoções que atingem os receptores ansiosos por uma busca ou fuga momentânea do real, ocasionando a fruição do Belo pela assimilação do conteúdo artístico. Isso foi abandonado e cada vez mais. Ademais,  a derrocada da Estética inexoravelmente causa a débâcle da Ética, sua prima-irmã – sempre sob um manto revolucionário, vanguardista, quebrador de tabus ou da ordem vigentes, acolhidos pela massa, mídia e formadores de opinião como expressão legítima da Democracia.


Admitir essa forma de Arte, sob o ingênuo pretexto de entender a significação íntima do artista ou compreender subjetivamente seu conteúdo é coisa de quem não sabe nada de cultura e, trata-se, à evidência, de um total alienado nesse ramo específico. Essa defesa não pode ser aceita pelo que resta do mínimo bom-senso.


Não há como ser cool em Artes, sob pena de não se estar lidando com Arte.


A beleza foi politizada, já não mais se enquadra nos quadros da Filosófica Estética ou da Arte, e sim da Ciência Social. Já não mais feita ou interpretada para mais atingir o sistema límbico, e sim o sistema adrenérgico. Criatividade, emoção e valores espirituais elevados são substituídos por conteúdos político-ideológicos, mensagens ativistas e de evidente mau gosto, usadas para chocar, estremecer e gritas em favor causas – cada vez mais bizarras. Vide, por exemplo, a atual Literatura brasileira, que segundo, especialistas, é medíocre.


São tristes os tempos.


Temos que voltar a pensar em termos clássicos tais definições, reagir e conservar o que a tradição e nossa cultura  legou, refutando a banalidade, a perversão,  ou qualquer tipo de arte-revolução, oriundas de sujeitos mais comprometidos com consciências políticas, ao sabores ideológicos do momento, que com a percepção, tradução e transmissão do belo – coisa que não sabem fazer.


É só imaginar a seguinte situação: a namorada pede um presente bem bonito que toque profundamente sua alma, e o namorado se apresenta, todo carinhoso e romântico, com um potinho contendo fezes de um artista. 


É esse o mundo moderno que vivemos.

06 Dez 2013
Admin · 70 vistos · 0 comentários
Shânkara
http://sunyogi.files.wordpress.com/2011/05/shankara.jpg



04 Dez 2013
Admin · 72 vistos · 0 comentários
Rápida análise sobre a prisão dos mensaleiros


http://veja.abril.com.br/blog/ricardo-setti/files/2012/08/ministros-stf-mensal%C3%A3o3.jpg



Gustavo Miquelin Fernandes




Ver os mensaleiros, todos de cabeças erguidas, posando como se fossem condenados políticos e injustiçados, passando a impressão que houve um golpe duro dum Estado de exceção, depois de tanto servirem fielmente a Lula e ao Partido é algo bastante sintomático e não deve assustar ninguém. Nesse ponto, são bastante honestos. Não estão mentindo. Realmente se acham injustiçados e acreditam no que pregam.

Isso deve ser entendido num contexto bastante específico que tentarei abordar rapidamente.

A primeira premissa é que esses elementos são, em essência, revolucionários, no sentido próprio e técnico da palavra. Para entender esse tipologia há que se ter bastante cuidado, especialmente, procedendo à leitura do livro "The Liberal Mind: The Psychological Causes of Political Madness", de Lyle Rossiter - uma abordagem psiquiátrica do esquema mental de um indivíduo dessa tipologia.

Primeiro, que a confrontação ética deles, não ocorreu dentro da moral comum, e sim dentro da moral difundida e cultuada pelo Partido, o que os absolve imediatamente de qualquer malfeito cometido, delito esse inscrito nas tábuas legais da estrutura burguesa, que, por definição e vício intrínseco, é desprezível e deve ser revogada, tão logo esse grupo galgue a estrutura de Poder. O maquiavelismo de fins e meios também dão conta dessa absolvição consciencial, já que pelo pragmatismo perverso e pervertido dos militantes de Lula, eles realmente mudaram o Brasil para melhor, tirando pessoas da extrema miséria (que é absolutamente mentiroso), e democratizando bens sociais, tornando o país mais justo - mentira propagandeada por intelectuais orgânicos.

Não podendo confessar as profundas e tenebrosas implicações da visão revolucionária do mundo (com seus símbolos, preferências, projetos políticos, prováveis golpes, utopias, etc.), que seria alarmante, depositam tudo em bodes expiatórios já bem conhecidos, como "a mídia conservadora, a burguesia, os "reacionários"", etc.

A projeção de culpa em outros elementos que são, por essência, neutrais, além de absolverem consciências e confirmarem seus projetos de revolução, dão vazão à chamada "guerra classista", uma guerrilha ideológica, onde tentam a todo custa desmoralizar as instituições ditas burguesas (a mesma que prendeu os criminosos) consolidando ainda mais a confiança dos vulneráveis no Partido-Príncipe, preparando a hegemonia necessária para seus meios de ação.

Não há ilusões, portanto, eis que segundo o esquema gramsciano, não houve nenhum ponto movido a favor da luta contra à corrupção, e sim, um fortalecimento da imagem dos personagens, que, tidos agora como guerreiros nacionais enfrentando a opressão da mídia (pasmem, mídia que influenciou o STF, com quase a totalidade de membros indicados pelo mesmo Partido-Princípe e com alguns outros bem próximos e praticantes convictos da ideologia deste), sairão bastante fortalecidos. Lula, que ainda não foi preso, mas que, a rigor lógico, e raciocinando "causa-consequência" seria o primeiro a ser investigado, já avisou que "estão todos juntos". Ou seja, trouxe para dentro de sua aura carismática (virtú) aqueles mesmos elementos, confirmando a absolvição do grupo - o que pra eles bastam. Temos que desacreditar análises e comentários primários de formadores de opinião no sentido de que passo foi dado para o fim da impunidade ou corrupção. Hoje li de um professor de faculdade que eles foram heróis e que lutaram contra a ditadura.

Veja a inépcia analítica dessa classe - gritante. O tiro, no entanto, sairá pela culatra. Não existe nada nem de simbólico contra a corrupção. Minha aposta é que o Partido que agora capitaliza nas prisões de suas cabeças-chaves, que, numa visão leninista da eliminação total da dissidência seriam todos fuzilados (são militantes que vacilaram - ao deixarem ser descobertos e serem mansamente julgados), ganhe bastante com o fato.

Por fim, o polilogismo dos revolucionários, que obrigam-nos a passear de mentalidade à mentalidade, conforme o público a que falam, pode fazê-los abandonar o discurso da prisão de exceção, injusta e ilegal, apresentando-se, ao depois do cumprimento da pena, como desculpados pela população ou remidos de todo pecado, prontos, mais uma vez, para seus antigos projetos políticos - projeto esse que o STF acabou de julgar.

Decorre desse polilogismo, que ora apresentem-se como injustiçados, ora como remidos de todo mal que fizeram - tudo para não perder o prestígio dentro do esquema burocrático que dominam.

Em suma e finalizando, algumas conclusões que faço sobre o episódio:

1) Não há que se falar, neste caso, em cumprimento do fundamento-prisão "retributividade" (artigo 59 do CP), haja vista que infligir um cômodo cárcere em regimes diversos a guerrilheiros treinados à resistência em Cuba (trato em específico do co-mentor intelectual) não faz o menor sentido, já que, para quem aceita esse fundamento da pena, desaparece totalmente o caráter retributivo da imposição penal;

2) Questão que está sendo propagada pela máquina do Partido e meios de comunicação financiados com recursos tributários é fazer a contraposição do julgamento com escândalos de outras agremiações (que devem ser julgados da mesmíssima fora e rigor), forçando uma comparação que, a rigor, inexiste.

É sabido que o partido que teve o modus operandi julgado pelo STF é de militância supranacional, intimamente imbricado com a ordens que operam delinquência internacional e que eu saiba, nenhum outra agremiação tem essa importância ostensiva internacional.

Além disso, pelo menos, de nossa parte, que mesmíssimo critério usado nesse julgamento processual seja julgado em casos análogos, e se análogos, haja vista que há necessária diferenciação entre caso de corrupção (crimes contra a Adminstração Pública) e este case julgado pelo STF na Ação Penal 470, conforme próximo item. 

3) Os atos delituosos conhecidos como "mensalão" não podem ser tipificados na legislação comum - já que seriam crimes, em essência, contra a Ordem Democrática (demonstrado cabalmente pelo conjunto de atos, informações, documentos, reportagens, o perseguido "projeto de Poder Hegemônico") e não apenas delitos contra a Administração Pública; aqueles, como sabido, para viabilizar projetos longo-prazistas de manutenção do Poder e dominação total.

4) Esperem pela reação ordenada e raivosa da agremiação, que agora fará esforço concentrado contra a imprensa que retratou amplamente o espisódio e também, assim pensam, que foi a grande manipuladora da dita "opinião pública" e dos Ministros indicados pelo próprio partido.

Quanto a forma que a mesma tratou o caso - deve-se observar que, no Estado de Direito, a liberdade de imprensa é a um múnus que a imprensa porta e por isso dispensa aos políticos (especialmente quando criminosos) um tratamento diferente (majorado), em razão do interesse público. Se considerar, ainda, que na ausência de outras instâncias de controle dos atos públicos (Legislativo, Justiça, etc,), a imprensa, através de seu "jornalismo investigativo", faz a tentativa de suprir aquelas deficiências.

05) Sobre direitos humanos dos condenados.

Há ainda não se confundir concessão de direitos humanos com o aplacamento dos rigores inevitáveis do processamento de penalidades aplicadas.  Direitos Humanos têm seu especial e básico esteio na dignidade humana. Resta saber, realmente e sem paixão política e propaganda  se os apenados estão sofrendo efetiva violência moral da sociedade. A reação natural da mídia e de todos os brasileiros a um fato criminoso e anti-democrático que os presidiários cometeram é um grande golpe na dignidade do réu? Não seria algo algo natural a um povo que reage ao modus operandi desse partido no Poder?

O importante, em qualquer processo penal, e não apenas dos mensaleiros, é saber se as garantias legais e processuais foram observadas, com a possibilidade de usos de todos os meios probantes de sua eventual inocência, como quer a Constituição Federal, em seu artigo 5º.

O que acontecer depois, a reação social, não é assunto de direitos fundamentais e sim, fato sociológico, que, em breve, será relegado ao esquecimento geral. 

06) Arguir, como faz os meios de comunicação, a máquina partidária e professores universitários, a biografia dos apenados me parece piada de muito mau gosto. Nenhum petista lutou por democracia nenhuma. Lutavam, isso sim, para instalar a "Grande Cuba" por aqui - o comunismo à brasileira, impedido por um golpe reclamado pela população, como já tive oportunidade de tratar em outro texto.

Em suma, não concordo que seja vitória nenhuma para o problema da crise na ética pública, pelo contrário, acredito seja realizada uma manobra para reverter a situação e alçá-los a grandes heróis do Panteão Nacional - o que já ocorre, sob as inocentes comemorações e vivas de "Chegou o Fim da Corrupção" e "É o fim do PT".
Gustavo Miquelin Fernandes Ver os mensaleiros, todos de cabeças erguidas, posando como se fossem condenados políticos e injustiçados, passando a impressão que houve um golpe duro dum Estado de exceção, depois de tanto servirem fielmente a Lula é bastante sintomático e não deve assustar ninguém. Nesse ponto, são bastante honestos. Não estão mentindo. Realmente se acham injustiçados e acreditam no que pregam. Isso deve ser entendido num contexto bastante específico que tentarei abordar rapidamente. A primeira premissa é que esses elementos são, em essência, revolucionários. Para entender esse tipologia há que se ter bastante cuidado, especialmente, procedendo à leitura do livro "The Liberal Mind: The Psychological Causes of Political Madness", de Lyle Rossiter - uma abordagem psiquiátrica do esquema mental de um indivíduo desses. Primeiro, que a confrontação ética deles, não ocorreu dentro da moral comum, e sim dentro da moral difundida e cultuada pelo Partido, o que os absolve imediatamente de qualquer malfeito cometido, delito esse inscrito nas tábuas legais da estrutura burguesa, que, por definição e vício intrínseco, é desprezível e deve ser revogada, tão logo esse grupo galgue a estrutura de Poder. O maquiavelismo de fins e meios também dão conta dessa absolvição consciencial, já que pelo pragmatismo perverso e pervertido dos militantes de Lula, eles realmente mudaram o Brasil para melhor, tirando pessoas da miséria, o que, por óbvio, é uma grande ilusão e uma mentira absurda - propagandeada por intelectuais orgânicos. Não podendo confessar as profundas e tenebrosas implicações da visão revolucionária do mundo (com seus símbolos, preferências, projetos políticos, prováveis golpes, utopias, etc.), que seria alarmante, depositam tudo em bodes expiatórios já bem conhecidos, como "a mídia conservadora, a burguesia, os "reacionários"", etc. A projeção de culpa em outros elementos que são, por essência, neutrais, além de absolverem consciências e confirmarem seus projetos de revolução, dão vazão à chamada "guerra classista", uma guerrilha ideológica, onde tentam a todo custa desmoralizar as instituições ditas burguesas (a mesma que prendeu os criminosos) consolidando ainda mais a confiança dos vulneráveis no Partido-Príncipe, preparando a hegemonia necessária para seus meios de ação. Não há ilusões, portanto, eis que segundo o esquema gramsciano, não houve nenhum ponto movido a favor da luta contra à corrupção, e sim, um fortalecimento da imagem dos personagens, que, tidos agora como guerreiros nacionais enfrentando a opressão da mídia (pasmem, mídia que influenciou o STF, com quase a totalidade de membros indicados pelo mesmo Partido-Princípe e com alguns outros bem próximos e praticantes convictos da ideologia deste), sairão bastante fortalecidos. Lula, que ainda não foi preso, mas que, a rigor lógico, e raciocinando "causa-consequência" seria o primeiro a ir para trás das grades, já avisou que "estão todos juntos". Ou seja, trouxe para dentro de sua aura carismática (virtú) aqueles mesmos elementos, confirmando a absolvição do grupo - o que pra eles bastam. Temos que desacreditar análises e comentários primários de formadores de opinião no sentido de que passo foi dado para o fim da impunidade ou corrupção. Hoje li de um professor de Faculdade que eles foram heróis e que lutaram contra a ditadura. Veja a inépcia analítica dessa classe - gritante. O tiro sairá pela culatra. A minha aposta é que o Partido que agora capitaliza nas prisões de suas cabeças-chaves, que, numa visão leninista da eliminação total da dissidência (ou simplesmente militantes que vacilaram - ao deixarem ser descobertos e serem mansamente julgados), ganhe bastante com o fato. Por fim, polilogismo dos revolucionários, que obrigam-nos a passear de mentalidade à mentalidade, conforme o público a que falam, pode fazê-los abandonar o discurso da prisão de exceção, injusta e ilegal, apresentando-se, ao depois do cumprimento da pena, como desculpados pela população ou remidos de todo pecado, prontos, mais uma vez, para seus antigos projetos políticos - esse que o STF acabou de julgar.como ganhar dinheiro com artesanato
03 Dez 2013
Admin · 98 vistos · 0 comentários
As seis doenças do espírito contemporâneo, segundo o filósofo Constantin Noica


http://fotografiromani.ro/wp-content/uploads/2011/04/Dinu-Lazar-Constantin-Noica-fotografiromani.ro_.bmp


todetite, necessidade de encontrar o individual autêntico;
catolite, a carência do geral, típica do ser humano;
horetite, a ausência de determinação;
acatolia, a recusa do indivíduo;
atodecia, a recusa ao geral, ao que é humano e individual;
ahorecia, a recusa das determinações.
02 Dez 2013
Admin · 88 vistos · 0 comentários
Ela diz que não traiu

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02 Dez 2013
Admin · 68 vistos · 0 comentários
Que precisa uma mulher pra ser interessante?

http://www.bsg-world.com/upload/arquivos/2010/03/23/12949/12949.jpg



Numa conversa hoje: O quê precisa uma mulher pra ser interessante? E vem aquela respostinha surrada: "Ai, precisa ser bonita e inteligente". Ora, que porcaria é essa? A falta de boniteza (como diria nosso G. Rosa) é, em essência mesmo, deficiência da imaginação do próprio ser pensante (homem não gosta muito de pensar). A estética é mais um processo interpretativo que um simples processo contemplativo. Nunca vi um homem gostar duma mulher pelo motivo dela ser "bonita". Nunca. Acho que Vinícius tava errado quando poetizou. Mulher inteligente? Aí piorou. Quer coisa mais chata que papinhos inteligentes? Papo inteligente é a coisa mais medíocre do mundo: joga em 10 minutos, uma especulação metafísica sobre assuntos de vida e morte que 50 anos não dariam conta de resolver minimamente. É chato demais. Minhas ex-namoradas, todas inteligentes, mas por trágica coincidência e eu sei como isso é chato. Se a mina vem falando de cinema francês pra mim, eu já pergunto se ela viu a piroca da Kid Bengala na TV. A vida pede amenidades. Ah, e nesse quesito (papo-cabeça) estou muito mal avaliado no Lulu - realmente bastante deprimido. Enfim, sobram a personalidade e companheirismo, do tipo aquela mina "chapa-quente", que topa tudo com você e acha o máximo suas loucuras? Acho que é por aí...meu ip

Gustavo Miquelin Fernandes



É raro, em uma roda de conversa com mulheres, não surgir por parte delas a clássica pergunta: O que precisa uma mulher pra ser interessante?

E vem aquela respostinha surrada:

"Ah, precisa ser bonita e inteligente". Esta
frase é tida como mantra do bom senso masculino em matéria de sedução ativa.

Ora, que porcaria é essa?

Ocorre que a resposta para isso exige uma contrapergunta básica: você quer saber do que a mulher precisa PARA QUÊ? Prum casamento, para um namoro ou para o motel mais próximo ou mesmo pra ruinha sem saída da casa da sua vó? É de vital importância saber esse detalhe para dar um resposta confortadora.

Mas, OK. Pergunta genérica, resposta mais genérica ainda.

Os requisitos não são os melhores - e afirmo: muito falhos.

A falta de boniteza (como diria nosso Guimarães Rosa) é, em essência mesmo, deficiência da imaginação do próprio ser pensante (homem não gosta muito de pensar, vai a confissão). A estética é mais um processo interpretativo que um simples processo contemplativo. Nunca vi um homem gostar duma mulher pelo motivo dela ser "bonita". Nunca! Acho que Vinícius tava meio tarado quando poetizou sua mais famosa frase.

A beleza interessa, claro que interessa. Ninguém, em princípio, quer gente feia. A Estética é conceito universal que agrada olhos e almas e é constante na vida, traz uma fruição agradável que ameniza as tensões mundanas e o faz pensar o "Belo", mas enjoa, enjoa tanto que Nelson Rodrigues chamou esse processo de "tédio visual".

E cabem aqui outras contraperguntas: beleza onde? Indo, vindo, nua, vestida, no agir, no falar, no quê? Que beleza? Física apenas? Beleza física-facial ou física-corporal? A bonitinha sem bunda ou a feinha gostosa? São conceitos falhos, muito quebrados.

Eu, particularmente sairia, desde que solteiro, com qualquer mulher, feia ou bonita, e isso é normal hoje em dia - pra homens que são normais.

E vai outra informação importante pra elas: o conceito de "vadia intelectualizada" tem atraído fortemente os homens hoje em dia, pelo menos é isso que falam alguns amigos. Aquela mulher sexy que passa da Metafísica aristotélica a uma chupeta em menos de trinta segundos. 

Acrescente-se: não tanto pela "intelectualizada", mas mais pelo "vadia".

Aí vem o outro requisito: a necessidade da mulher inteligente.

Mas inteligente quanto? Inteligência ou conversa bacaninha? Inteligente ou sabichona? Inteligente  ou que tenha diploma universitário? Inteligente ou que assiste ao Jornal Nacional? São, repito, conceitos bem falhos e miseráveis.

Pessoalmente, não curto mulher
highbrow. Gosto, sim, de mulheres que saibam conversar alguma coisinha comigo e ponto.

Quer coisa mais chata que papinhos inteligentes? Papo inteligente é a coisa mais medíocre do mundo: joga em 10 minutos, uma especulação filosófica sobre assuntos de vida e morte que 50 anos não dariam conta de resolver, minimamente. É chato demais. Minhas ex-namoradas, todas inteligentes, mas por trágica coincidência do destino, e eu sei como isso é chato. Se a mina vem falando de cinema francês ou Arte pós-modernista pra mim, eu já saco da minha cultura cinematógrafa e imediatamente pergunto se ela viu a piroca da Kid Bengala na TV. A vida pede amenidades...

Ah, e nesse quesito (papo-cabeça) estou muito mal avaliado no Lulu - realmente bastante deprimido, me recusando, em razão disso, fazer atividades normais do dia-a-dia. Não merecia essa injustiça cruel.

Enfim, e talvez uma conclusão parcial, dirigida, apressada, e politicamente correta: sobram, na mulher, como requisitos bons, a personalidade e o companheirismo, do tipo aquela mina chapa-quente, que topa tudo com você e acha o máximo suas loucuras ou juvenices. Porque imagina aquela mulher bonita como Nefertiti e inteligente como Marilena Chauí (rsrs, só que não!) te fazendo de gato-e-sapato ou te presenteando com lindos e polidos cornos na cachola?

Viu como aqueles requisitos são falhos?

O quê precisa uma mulher pra ser interessante? E vem aquela respostinha surrada: "Ai, precisa ser bonita e inteligente". Ora, que porcaria é essa? A falta de boniteza (como diria nosso G. Rosa) é, em essência mesmo, deficiência da imaginação do próprio ser pensante (homem não gosta muito de pensar). A estética é mais um processo interpretativo que um simples processo contemplativo. Nunca vi um homem gostar duma mulher pelo motivo dela ser "bonita". Nunca. Acho que Vinícius tava errado quando poetizou. Mulher inteligente? Aí piorou. Quer coisa mais chata que papinhos inteligentes? Papo inteligente é a coisa mais medíocre do mundo: joga em 10 minutos, uma especulação metafísica sobre assuntos de vida e morte que 50 anos não dariam conta de resolver minimamente. É chato demais. Minhas ex-namoradas, todas inteligentes, mas por trágica coincidência e eu sei como isso é chato. Se a mina vem falando de cinema francês pra mim, eu já pergunto se ela viu a piroca da Kid Bengala na TV. A vida pede amenidades. Ah, e nesse quesito (papo-cabeça) estou muito mal avaliado no Lulu - realmente bastante deprimido. Enfim, sobram a personalidade e companheirismo, do tipo aquela mina "chapa-quente", que topa tudo com você e acha o máximo suas loucuras? Acho que é por aí...meu ip
Numa conversa hoje: O quê precisa uma mulher pra ser interessante? E vem aquela respostinha surrada: "Ai, precisa ser bonita e inteligente". Ora, que porcaria é essa? A falta de boniteza (como diria nosso G. Rosa) é, em essência mesmo, deficiência da imaginação do próprio ser pensante (homem não gosta muito de pensar). A estética é mais um processo interpretativo que um simples processo contemplativo. Nunca vi um homem gostar duma mulher pelo motivo dela ser "bonita". Nunca. Acho que Vinícius tava errado quando poetizou. Mulher inteligente? Aí piorou. Quer coisa mais chata que papinhos inteligentes? Papo inteligente é a coisa mais medíocre do mundo: joga em 10 minutos, uma especulação metafísica sobre assuntos de vida e morte que 50 anos não dariam conta de resolver minimamente. É chato demais. Minhas ex-namoradas, todas inteligentes, mas por trágica coincidência e eu sei como isso é chato. Se a mina vem falando de cinema francês pra mim, eu já pergunto se ela viu a piroca da Kid Bengala na TV. A vida pede amenidades. Ah, e nesse quesito (papo-cabeça) estou muito mal avaliado no Lulu - realmente bastante deprimido. Enfim, sobram a personalidade e companheirismo, do tipo aquela mina "chapa-quente", que topa tudo com você e acha o máximo suas loucuras? Acho que é por aí...meu ip
02 Dez 2013
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Fundamental entender esse casal

http://lib-1.lse.ac.uk/archivesblog/wp-content/uploads/2009/01/sidney-and-beatrice-webb.jpg

01 Dez 2013
Admin · 55 vistos · 0 comentários
Pequeno poema didático


 

http://www.poesiaspoemaseversos.com.br/w/wp-content/uploads/2012/01/Mario-Quintana-4.jpg

 


O tempo é indivisível. Dize,

Qual o sentido do calendário?

Tombam as folhas e fica a árvore,

Contra o vento incerto e vário.

 

A vida é indivisível. Mesmo

A que se julga mais dispersa

E pertence a um eterno diálogo

A mais inconseqüente conversa.

 

Todos os poemas são um mesmo poema,

Todos os porres são o mesmo porre,

Não é de uma vez que se morre…

Todas as horas são horas extremas!

 

Mário Quintana

01 Dez 2013
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O mau selvagem



 

 

http://www.arald.org/rousseau/public/galerie/Portraits/portrait_rousseau_lacretelle.jpg

 

 


"O primeiro homem que inventou de cercar uma parcela de terra e dizer 'isto é meu', e encontrou gente suficientemente ingênua para acreditar nisso, foi o autêntico fundador da sociedade civil. De quantos crimes, guerras, assassínios, desgraças e horrores teria livrado a humanidade se aquele, arrancando as cercas, tivesse gritado: 'Não, impostor'".  Jean-Jacques Rousseau


 


 

 

Gustavo Miquelin Fernandes

 

O filósofo Jean-Jacques Rousseau pode ser considerado o grande pai do esquerdismo, dos movimentos de massa atuais, da democracia radical, da romantização infantil da Política e do apelo ao emocional como forma de enfrentamento da realidade.


O enciclopedista, dono da ideia do bom selvagem (homem “nu”, em estado natural, não intoxicado pelos vícios da civilização) teve, a meu ver, o grande mérito de ajustar um conceito muito altaneiro de “democracia” para “democracia esquerdista” ou um sistema feito sob exata medida dessa corrente ideológica   veja que grande mérito.


E não precisa ser tão esperto para saber que é recomendável sempre desconfiar de esquemas de Poder, de cartas de intenções, de programas governamentais - quanto mais de quem está por trás disso – as pessoas ou os bons selvagens, agora, talvez, um pouco mais civilizados, como quer o filósofo.


J. J. Rousseau foi o grande patrono da Revolução Francesa, que deu muito errado, e que todos acham, ainda hoje, que deu certo. Esse fenômeno de massas, ainda que lutasse por uma causa aparentemente boa e justa, a queda do absolutismo, sairia totalmente do controle (como é sempre previsível), de forma inderrogável, jogando o país numa guerra civil pelo controle do Estado, onde o terror geral com decapitações constantes seriam prodigalizados.


A inspiração das “Declarações dos direitos do homem e do Cidadão” também tem esteio nos ideais do pai do esquerdismo. Claramente uma lista enganosa e bem mais próxima de uma falácia consumada do que de uma declaração formal, lançando utopias que promoveriam mais levantes e enganosas definições sobre o conceito de“direitos”.


O leninismo, regime assassino, também teve sua fundamentação teórica na “Vontade Geral” de Rousseau, o que não significa pouca coisa e deve ser sempre levado em consideração.


Fato é que os jacobinos, em nome de uma vontade mais ou menos detectada da comunidade, colocaram a França em plena guerra civil e muitas outras conclusões são rapidamente forjadas, sempre com base em propostas daquele pensador, que pregava o uso sistemático da razão, mas que dela o mesmo não faria muito uso.


Segundo Paul Johnson, em seu livro Intellectuals, onde levanta detalhes biográficos pouco conhecidos de nossos pensadores, detectando aquele detalhe inafastável e obrigatório em toda espécie de consciência revolucionária.


Conforme resenha do referido livro, Carlos U. Pozzobon, em seu blog pessoal, escreve:


“Como parte de sua técnica de garantir publicidade, atenção e favores, ele fazia de uma virtude positiva um dos mais repelentes vícios: a ingratidão... Enquanto professava a espontaneidade, ele era de fato um calculista; e como propagandeasse que era o mais moral dos seres humanos, seguia-se que os outros eram logicamente até mais calculistas, e por piores motivos que ele. Daí que em qualquer relação com os outros ele achava que sempre queriam tirar vantagens, e seu comportamento de homem superior era o de simplesmente superá-los. Ele só queria ganhar dos outros. Por causa de sua natureza ímpar, quem o ajudasse estava de fato fazendo um favor a si mesmo (p. 12)”

O egoísmo não tinha limites na personalidade de Rousseau, a ponto de achar que um homem de sua inteligência não poderia criar filhos. Deixando-os em um Orfanato, Rousseau se identificava com a República de Platão, onde as crianças seriam mais virtuosas se educadas e criadas pelo Estado, uma concepção fascista dos tempos antigos, totalmente repelida pela cristandade. Mas esta crueldade foi a raiz do seu totalitarismo incipiente, revelado através de sua posição a favor da educação pública.

Rousseau estando intimamente relacionado com o início do Romantismo, achava que a natureza tinha precedência na vida humana, criando aforismos que marcaram profundamente as próximas gerações, tais como ‘os frutos da terra pertencem a todos nós, e a terra mesma a ninguém’. ‘O homem nasceu livre e em toda a parte encontra-se acorrentado’.

“Rousseau queria substituir a sociedade existente por algo totalmente diferente e essencialmente igualitário; mas, feito isso, a desordem revolucionária não deveria ser permitida. Os ricos e privilegiados, com a força da ordem, seriam substituídos pelo Estado, corporificando a Vontade Geral, ao qual todos deveriam obedecer. Esta obediência tornar-se-ia instintiva e voluntária, uma vez que o Estado, por um processo sistemático de engenharia cultural, deveria inculcar a virtude em todos. O Estado era o pai, a pátria e todos seus cidadãos eram crianças do orfanato paternal (p. 24) ”.

A Vontade Geral em Rousseau era uma premonição antecipada do leninismo e sua teoria do centralismo democrático.

“Leis elaboradas pela Vontade Geral devem, por definição, ter uma autoridade moral. ‘As pessoas que fazem leis para si mesmas não podem ser injustas’. ‘A Vontade Geral está sempre correta’. Considerando que o Estado é ‘bem-intencionado’, a interpretação da Vontade Geral pode ser seguramente deixada a seus líderes uma vez que eles sabem bem que a Vontade Geral sempre favorece a decisão mais apropriada ao interesse público (p. 24) ”.

Johnson percebeu que as ideias germinativas da Vontade Geral em Rousseau seriam mais tarde substituídas pela Ditadura do Proletariado, ou por neologismos criados pelos movimentos revolucionários, e conclui:

“o Estado de Rousseau não é só autoritário: ele é também totalitário, uma vez que ele ordena todos os aspectos da atividade humana, incluindo o pensamento. Sob o Contrato Social, o indivíduo deveria alienar-se com todos os seus direitos, ao conjunto da comunidade (p. 25)”.

Esta doutrina antecipou Mussolini em 150 anos: “Tudo com o Estado, nada fora do Estado, nenhuma coisa contra o Estado”.

Em essência, a submissão do indivíduo ao Estado seria feita pela educação. O indivíduo seria a criança e o Estado o pai.

A aceitação das ideias de Rousseau provinha do fato de que ele se propagandeasse o homem mais virtuoso do seu século. Ele não seria importante se sua fama não caísse como uma luva no acontecimento histórico mais importante após a sua morte: a Revolução Francesa, que em busca de inspiração, tornou Rousseau seu herói e guia: o patrono do radicalismo do Estado de Terror.

Mas o que Johnson nos mostra através da pesquisa com diversos escritores que estudaram a vida e a personalidade de Rousseau? Diderot, seu contemporâneo e com quem conviveu durante muito tempo, considerou-o um “patife, vão como Satã, ingrato, cruel, hipócrita e cheio de malícia”. Para Voltaire, outro contemporâneo, Rousseau era “um monstro de vaidade e vileza”.


O fato é que, ainda hoje, o enciclopedista conta com bastantes amigos e seguidores, que são nossos mentores e teóricos democráticos, da participação popular e do modo de se operar a Política. Muitos, professores universitários. O que é grave.


A Revolução Francesa não foi um aviso ouvido. Foi, para eles, um falso alarma – talvez uma conspiração pequeno-burguesa, plenamente desprezada e jogada no lixo da História, assim como outras experiências recentes, que por ser impuras e não muito a contento, deixaram muito a desejar – o que pede sejam repetidas com urgência.


Há uma conhecida pergunta retórica: onde foi que eu assinei o contrato social? Para refletirmos...


Hoje é sabido que o fenômeno totalitário se inicia na dissolução, a princípio, parcial e imperceptível, da individualidade, sob uma perspectiva, ora de um zeitgeist coletivista estimulado; ora de uma exacerbação de qualidades pessoais que demandam proteção mais fortalecida; ora de perigo e ameaças ao establishment.


As ideias de Rousseau se encaixam perfeitamente nesse conceito: na dissolução de consciências individuais, com a absorção de diretos pessoais num caldeirão populista (Contrato Social), onde quem sobressai é apenas uma entidade virtual (Vontade Geral), pois que garantidora daqueles mesmo direitos e por ser aparentemente mais poderosa, já que em número maior (democracia numérica ).


Essas ideias que antecipam a morte gradual das personalidades num núcleo duro coletivista são o epicentro dos esquemas totalitários de Poder, onde “pessoas atuantes” são enfraquecidas (consciência individual), e pessoas não-atuantes são fortalecidas (pois que incoordenáveis pessoalmente pelos seus próprios fomentadores, sujeitas que são ao Poder central).


É de amigos de Rousseau que o establishment totalitário necessita, de pessoas que pregam exatamente a necessidade disso: das New Left, dos movimentos de massa atuais (neo-revoluções), da democracia radical, da romantização simplória da Política, do apelo ao fundo emocional, da existência de uma Vontade Geral indefectível e da perpetuação de ideias como homens bons, etc.


Talvez nossa arrogância ou orgulho nos impeça de enxergar uma obviedade ululante: o selvagem (ou o civilizado mesmo) não é bom, ele é mau.

30 Nov 2013
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Todas as cartas de amor…


Fernando Pessoa


Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.


Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.


As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.


Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.


Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.


A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.


(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

30 Nov 2013
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Do abismo à plenitude: homenagem a Viktor Frankl

 

http://www.matrony.ru/wp-content/uploads/2013/11/334g.jpg

 

 


Aos homens não basta saber que existem, mas para quê existem.

Viktor Frankl em Psicoterapia e Sentido da Vida.


No próximo sábado, dia 26 de março [de 2005], uma das figuras humanas mais extraordinárias do século XX estaria fazendo aniversário de 100 anos. Estou me referindo a Viktor Frankl, psiquiatra austríaco. Provavelmente você nunca ouviu falar deste cara, mas certamente conhece a expressão “vazio existencial” – foi ele quem a criou nos idos dos anos cinqüenta. Embora seja um ilustre desconhecido em nosso país, seu principal livro Em Busca de Um Sentido (Man’s Search for Meaning) vendeu mais de cinco milhões de cópias apenas nos Estados Unidos e foi considerado, segundo matéria do New York Times de novembro de 1991, um dos dez mais influentes livros nos EUA.

Frankl nasceu em Viena. Aos 14 anos, na escola, fez a um professor uma pergunta que mudaria o curso de sua vida.


Enquanto estudante de 14 anos no ginásio, eu fiz algo que era muito incomum na ocasião. Eu tive um professor de Ciências Naturais que era muito distante, que ensinava do modo como uma pessoa esperaria que os cientistas o fizessem. Um dia ele afirmou que a vida é simplesmente um processo de combustão, nada além de um processo de oxidação. Levantando repentinamente eu o questionei, “Mas Professor, então que sentido a vida têm?”


Claro que um reducionista/materialista não é capaz de responder a esta pergunta, porque para ele não existe nada mais que a matéria. O absurdo é, nas palavras de Frankl, “promover sua própria incredulidade sob a aparência de ciência”. Quantos sabichões estufam o peito, orgulhosos de tanto saber, mas cuja arrogância é ainda maior que a inteligência que possuem. O fato de a ciência materialista não conseguir uma resposta para isso, não quer dizer que essa inquietação não exista. Mais que isso, negar uma resposta para essa pergunta é negar a própria humanidade do ser humano.


E afinal, qual é o sentido da vida? Frankl sempre buscou encontrar e extrair um significado de todos os eventos que aconteciam em sua vida. Oportunidades não faltaram. Formou-se médico em 1930 e trabalhou em um hospital psiquiátrico em Viena, sendo responsável por milhares de pacientes suicidas. Perdeu o melhor amigo executado pelo regime nazista. Judeu, foi prisioneiro nos campos de concentração nazistas de Auschwitz e Dachau, onde ficou por quase três anos. Ao ser libertado, descobriu que havia perdido quase toda sua família: foram mortos seu pai e sua mãe, além de sua esposa e seu irmão. Somente sua irmã, que fugiu da Europa antes da guerra, permanecia viva.


Ao invés de se deixar consumir pelo rancor, a amargura, o ódio e o ressentimento, Frankl reconstruiu sua vida, pois tinha objetivos a cumprir – metas traçadas durante sua experiência nos campos de concentração, onde, nos momentos mais duros, ele se lembrava de sua esposa e seus familiares, na esperança de revê-los novamente, e carregava consigo a determinação de terminar um livro cujo manuscrito havia sido destruído ao ser preso. Após a sua libertação, ele retomou o trabalho interrompido e reescreveu o manuscrito perdido, de onde publicou o livro The Doctor and the Soul. Em seguida, lançou Man’s search for Meaning (Em Busca de Um Sentido, lançado no Brasil pela editora Vozes), livro em que narra sua experiência pessoal nos campos de concentração – e daí retira lições de fundamental importância para o desenvolvimento de sua teoria psicoterapêutica: a logoterapia.


Durante o cativeiro, Frankl observou que aqueles que sobreviviam à violência, aos maus tratos, aos trabalhos forçados e à fome, quase sempre eram justamente aqueles que conseguiam encontrar um significado para seu sofrimento e mantinham uma esperança de saírem com vida dos campos, seja porquê almejavam reencontrar seus entes queridos ou voltar a trabalhar naquilo que os realizava. Mesmo aqueles prisioneiros fisicamente mais fortes e mais saudáveis, se perdessem a esperança e a vontade de viver, morreriam logo. A determinação de Frankl em sair do campo para continuar a escrever seu livro e para reencontrar sua família ajudam a explicar como ele próprio sobreviveu a condições subumanas de tratamento, aos trabalhos forçados, à subnutrição – para completar, conseguiu se reestabelecer de um ataque de febre tifóide no final da guerra.


Ao contrário de Sigmund Freud, que dizia que a força motivadora do ser humano era o “princípio do prazer”, e de Alfred Adler, outro psiquiatra austríaco (autor da expressão “complexo de inferioridade”), que dizia que a “busca de superioridade” (“vontade de poder”) era o que determinava as ações dos indivíduos, Frankl afirmava sem titubear: a sua teoria, a logoterapia, “concentra-se no sentido da existência humana, bem como na busca por este sentido”. O desejo de encontrar um significado para a própria vida é o que faz a vida valer a pena. O homem é livre para escolher seu caminho e encontrar o sentido para sua existência. A vontade de sentido é o que move o ser humano.


Frankl diz que o ser humano é livre para assumir uma postura frente à realidade que o cerca. Todo ser humano é livre – e ninguém pode tirar do ser humano esta liberdade.


Até mesmo numa situação onde você não tem nenhuma liberdade externa, quando as circunstâncias não lhe oferecem qualquer escolha de ação, você retém a liberdade para escolher sua atitude ante uma situação trágica. Você não se desespera porque esta escolha está sempre com você até seu último momento de vida.


Mas esta liberdade deve ser precedida pela responsabilidade.


É por isso que eu recomendei nos EUA que, além da Estátua da Liberdade na Costa Leste, deveria haver a Estátua da Responsabilidade na Costa Oeste.


Ou seja: somos livres para assumirmos uma postura frente ao mundo, mas somos responsáveis por esta escolha. Temos que assumir então, em conseqüência de nossa liberdade, a responsabilidade por tais escolhas, com as conseqüências que advêm de nossas ações. Cabe a cada ser humano perceber e superar as suas culpas. Se percebemos que a vida realmente tem um sentido, percebemos também que somos úteis uns aos outros. “Ser um ser humano é trabalhar por algo além de si mesmo.”


Assim sendo, o sentido da vida pode ser encontrado por uma pessoa através de três caminhos:


1) o exercício de um trabalho que seja importante, ou a realização de um feito, uma missão, que dependa de seus conhecimentos e de sua ação, e que faça com que a pessoa se sinta responsável pelo que faz;


2) o amor a uma pessoa ou a uma causa, uma idéia, o que estabelece uma responsabilidade para com a pessoa amada ou à causa defendida;


Um pensamento me traspassou: pela primeira vez em minha vida enxerguei a verdade tal como fora cantada por tantos poetas, proclamada como verdade derradeira por tantos pensadores. A verdade de que o amor é o derradeiro e mais alto objetivo a que o homem pode aspirar. Então captei o sentido do maior segredo que a poesia humana e o pensamento humano têm a transmitir: a salvação do homem é através do amor e no amor. Compreendi como um homem a quem nada foi deixado neste mundo pode ainda conhecer a bem-aventurança, ainda que seja apenas por um breve momento, na contemplação da sua bem-amada. Numa condição de profunda desolação, quando um homem não pode mais se expressar em ação positiva, quando sua única realização pode consistir em suportar seus sofrimentos da maneira correta – de uma maneira honrada -, em tal condição o homem pode, através da contemplação amorosa da imagem que ele traz de sua bem-amada, encontrar a plenitude. Pela primeira vez em minha vida, eu era capaz de compreender as palavras: “Os anjos estão imersos na perpétua contemplação de uma glória infinita”.


3) diante de um sofrimento inevitável, assumir uma postura de buscar um significado e utilidade para a dor, pois através da experiência cada pessoa pode contribuir para a vida de outras pessoas.


Frankl foi submetido, junto com outros milhões de pessoas, à experiência degradante e desumanizante dos campos de concentração, onde os indivíduos eram reduzidos a um nível infra-humano, sendo considerados menos ainda que animais. O prisioneiro era desprovido de todos os seus bens, suas roupas, seus objetos e até de seus nomes. Mas ainda assim ele e outros se mantiveram firmes no propósito de sobreviverem – porque suas vidas tinham um sentido. E, ao assumirem seu sofrimento com dignidade, Frankl e tantos outros deram ao mundo um inestimável e vivo testemunho de transcendência. O ser humano existe para transcender, para ultrapassar limites.


Num mundo assolado pelo consumismo materialista, pela negação da humanidade do ser humano, pela banalização pura e simples do prazer (pois, segundo os niilistas, a vida não tem nenhum significado) e pelo vácuo de sentido experimentado por milhões e milhões de pessoas que simplesmente não conseguem encontrar uma utilidade para sua existência, a voz quase solitária de Viktor Frankl tornou-se referência para tantas outras pessoas. Sua coragem, determinação, caráter e despreendimento levaram-no às alturas do espírito humano, bem acima de Freud, Adler, Skinner, entre outros pioneiros, dos quais, diga-se de passagem, com elegância inaudita, ele próprio reconhece as contribuições e seus méritos. Mas as teorias destes precursores são incompletas, porque não abarcam o ser humano em sua totalidade, em sua potencialidade de realizar-se, transcender-se e doar-se. Finalizo este texto com palavras de Viktor Frankl:


Dentro de cada um de nós há celeiros cheios onde nós armazenamos a colheita da nossa vida. O significado está sempre lá, como celeiros cheios de valiosas experiências. Quer sejam as ações que fizemos, ou as coisas que aprendemos, ou o amor que tivemos por alguém, ou o sofrimento que superamos com coragem e resolução, cada um destes eventos traz sentido à vida. Realmente, suportar um destino terrível com dignidade e compaixão pelos outros é algo extraordinário. Dominar seu destino e usar seu sofrimento para ajudar os outros é o mais alto de todos os significados para mim.


Viktor Frankl faleceu em 2 de setembro de 1997, aos 92 anos.

Fonte:

30 Nov 2013
Admin · 145 vistos · 0 comentários
Andrew Wyeth

http://www.swoyersart.com/andrew_wyeth/masterbedroom.jpg

30 Nov 2013
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Aladim no Jardim Mágico, de Max Liebert

Ficheiro:Aladdin in the Magic Garden - Project Gutenberg eText 14221.jpg

29 Nov 2013
Admin · 70 vistos · 0 comentários
Se Enamora
 
Música feita com amor dá nisso...
 
 
Tiê

Quando você chega na classe
Nem sabe
Quanta diferença que faz
E
às vezes
Faço que não vejo e nem ligo
E finjo, ser distraída
demais


Quantas vezes te desenhei
Mas não consigo
Ver o teu sorriso no
fim
Te sigo
Caminhando pelo recreio
Quem sabe
Você tropeça em
mim


Se enamora
Quem vê você chegar com tantas cores
E vê você passar
perto das flores
Parece que elas querem te roubar

Se enamora
Quem vê você chegar com tantos sonhos
E os olhos tão
ligados nesses sonhos
Tesouros de um amor que vai chegar


Quando toca o despertador
De manhãzinha
Me levanto e vou me
arrumar
E vejo
A felicidade no espelho
Sorrindo
Claro que vou te
encontrar


Fico só pensando em você
E juro
Que vou te tirar pra dançar
Um
dia
Mas uma canção é tão pouco
Nem cabe
Tudo que eu quero
falar


Se enamora
E fica tão difícil
De ir embora
E às vezes
escondido
A gente chora
E chora mesmo sem saber porque
Se
enamora
A gente de repente
Se enamora
E sente que o amor
Chegou
na hora
E agora gosto muito de você

28 Nov 2013
Admin · 51 vistos · 0 comentários
A Educação pela Pedra


João Cabral de Melo Neto


Uma educação pela pedra: por lições;
Para aprender da pedra, frequentá-la;
Captar sua voz inenfática, impessoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria
Ao que flui e a fluir, a ser maleada;
A de poética, sua carnadura concreta;
A de economia, seu adensar-se compacta:
Lições da pedra (de fora para dentro,
Cartilha muda), para quem soletrá-la.


Outra educação pela pedra: no Sertão
(de dentro para fora, e pré-didática).
No Sertão a pedra não sabe lecionar,
E se lecionasse, não ensinaria nada;
Lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
Uma pedra de nascença, entranha a alma.

26 Nov 2013
Admin · 57 vistos · 0 comentários
William Blake



26 Nov 2013
Admin · 57 vistos · 0 comentários
O crítico de bolso bacana



http://www.blogdothame.blog.br/v1/wp-content/uploads/burguesia.jpg

Luiz Felipe Pondé

Um dos traços essenciais de nossa psicologia é que queremos ser aceitos. Muitos filósofos, entre eles Adam Smith (1723-1790), diziam que nossa imaginação é constantemente presa à inquietação de como somos vistos pelos outros, fato este que é parte saudável da vida moral social, mas que também facilmente degenera numa angústia de dependência afetiva destruidora da autonomia.


Uma das formas mais seguras de se sentir aceito pelo grupo é desenvolver opiniões de rebanho. No fundo, temos horror a sermos recusados pelo bando, mas, hoje em dia, esse desejo de agradar é avassalador.


As redes sociais e sua mesmice brega, espaço de repetição do irrelevante, são prova de nossa condição de rebanho como pilar da (in)segurança psicológica.


As redes sociais criaram um novo perfil, o do crítico de bolso em versão pós-moderninha. O sonho dessa moçada, que se afoga na irrelevância e no desespero do anonimato cotidiano (que assola todos nós), é ter opiniões sobre as coisas, mas acaba mesmo falando da pizza que comeu ontem ou xingando os inimigos de plantão. O sonho de muitas dessas pessoas é frequentar jantares inteligentes nos quais gente bacana emite opiniões bacanas.


A forma mais fácil de frequentar jantares inteligentes é atacar a igreja, os EUA e a polícia. Mais sofisticado, mas que também garante acesso aos jantares inteligentes das zonas oeste e sul de São Paulo, é dizer que "o modelo social está ultrapassado". Esta frase leva algumas pessoas ao orgasmo (risadas?).


"O modelo social está ultrapassado" é a típica frase de quem quer se passar por crítico (mas, na realidade, é crítico de bolso), porque é a sociedade de mercado (ou como dizia Adam Smith, "commercial society"), a mesma que os comunistas chamam de "capitalismo", que nos retirou da miséria que é o estado natural da vida (e à qual voltamos rapidinho se o Brasil virar a Venezuela de Chávez e Maduro).


Toda riqueza que sustenta esse povo de jantares inteligentes, a começar pelo "bom vinho em conta", é fruto do mesmo modelo que consideram ultrapassado.


Aqui e ali, faça uma caricatura de quem você não consegue enfrentar porque lhe falta repertório conceitual. Diga que são racistas, "sequicistas" e homófobos. Conte, fingindo segredo, que seu filho é do círculo íntimo dos "maravilhosos" meninos do MPL e que sua filha é (incrível!!) black bloc, mas nunca bateu em ninguém.


Assim você chegará à sobremesa (leve, pois em jantares inteligentes ninguém quer engordar, porque sabe que os parceiros de jantares inteligentes são pessoas muito críticas) com segurança, sem dizer nada que ponha em risco sua cidadania de gente bacana.


Mas o que marca essa gente bacana é que na verdade nunca fala, nem tem contato real, com as pessoas fora das escolas de R$ 3.000 que paga para os seus filhos críticos desde os cinco anos de idade frequentarem, ou do seu círculo profissional chique e/ou da praia chique onde tem sua casa de praia típica de praias chiques.


O problema, quando você é um cidadão de jantares inteligentes, é que você acaba mesmo alienado e acreditando nas suas próprias críticas de bolso. Mas vamos ao que interessa. Vamos falar de um dos tópicos que autorizam você a se achar bacana e a frequentar jantares inteligentes: a polícia.


Outro dia, por acaso, conversei por cerca de três horas com um policial militar aposentado do Estado de São Paulo. Muito instrutivo, uma vez que sou egresso do mundo de gente bacana, que, portanto, nada sabe acerca do mundo real.


Ele definia sua classe como aquela que vive com a "mão no lixo" que essa gente bacana nunca vê de fato -a não ser quando resolve fazer ensaios fotográficos sobre "injustiça social". Reclama de como eles são invisíveis e de como a sociedade, na sua maioria, os considera parte do lixo. Um sofrimento profundo, devido a essa invisibilidade, marcava seu rosto de solitário. A polícia é um dos setores mais maltratados da sociedade, apesar de essencial.


Essa gente bacana sai correndo do jantar inteligente para o carro, com medo, sonhando com um baseado e uma bike em Amsterdã nas férias.

fonte: Folha

26 Nov 2013
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Divagações Metafísicas sobre a Imortalidade



http://nepo.com.br/wp-content/uploads/2013/10/imortal.jpg


"A vida sem ciência é uma espécie de morte" - Sócrates




Gustavo Miquelin Fernandes



Um dos problemas axiais da Filosofia da Mente, senão o mais fermentado, é a relação mente-cérebro. Aquela seria o subproduto deste ou realidade ontologicamente distinta e independente? No primeiro caso, teríamos a doutrina fisicalista ou do Fisicalismo também usada em outros ramos da Ciência,  que não a Filosofia.

Citando ensaio de Diego Zilio, intitulado "Fisicalismo na filosofia da mente: definição, estratégias e problemas", para o Programa de Pós-graduação em Psicologia Experimental, Laboratório de Análise Biocomportamental do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (2010), podemos entender que:

"De acordo com Kim (1999: 645), o fisicalismo é caracterizado pela tese segundo aqual “tudo o que existe no mundo espaço-temporal é uma coisa física, e de que todas aspropriedades das coisas físicas são ou propriedades físicas ou propriedades intimamente relacionadas à sua natureza física”. Por sua vez, em sua definição, Stroud (1987: 264) assevera que “o mundo físico consiste inteiramente de fatos físicos. O que não for um fato físico não é parte do mundo físico. E o fisicalismo é a tese de que o mundo físico é o único mundo que existe ou o único mundo que é real”. Uma terceira definição, apresentada por Melnyk (1997: 622), ressalta que o fisicalismo é a tese de que “toda entidade é uma entidade física em si ou é exaustivamente e fundamentalmente composta de entidades físicas, e [...] de que toda propriedade é uma propriedade física em si ou é fundamentalmente realizada por propriedades físicas”.Em síntese, o fisicalismo se distingue pela tese de que tudo o que “existe” ou tudo o que é “real”no mundo espaço-temporal é um “fato físico” ou uma “entidade física”e de que as “propriedades” dos fatos físicos ou são propriedades físicas em si, ou são propriedades“constituídas/realizadas/compostas” por propriedades físicas."

Essa primeira estruturação pode ser aplicada ao estado subjetivo mental, i.e., trazendo o conceito de cerebralismo, onde este seria, no entender do filósofo Mário Ferreira dos Santos, uma concepção viciosa.

Em última instância e o que mais aguça especulações é a sobrevivência do estado de subjetividade após a destruição do aparato cerebral - que cai num dilema já bastante envolto por questões de ordem mística e religiosa, com os símbolos peculiares bastante fartos e já gravados na ordem cultural e social de todos os povos - como fenômeno social mesmo. Não saberia informar, contudo, se para o pensamento filosófico, o campo religioso contribui positivamente nessa questão metafísica.

Qual a relação entre as estruturas mental e cerebral e como uma, caso positivo, influencia a outra? Ainda, de onde partem, em última análise, a primeira força dos "fatos mentais" em sentido amplo, que são as sensações, os sentimentos, desejos, etc.? Do cérebro, parcela mais sútil não pertencente ao maquinário orgânico, ou parcela sutil pertencente ao maquinário orgânico mas que dele dependente?

No Fisicalismo, descrito acima, em linguagem bastante ilustrativa: a mente está para o cérebro como o apito da panela de pressão está para seu mecanismo de funcionamento.

I. Kant em sua magnum opus a "Crítica" ensina que o conhecimento genuíno deve ser assente em duas grandes linhas de cognição: a) a do conhecimento a priori, que não faz parte de nenhuma racionalização específica ou maquinação sensorial - apenas forjada por um conhecimento puro, de ordem bem sútil e; b) a dos conhecimentos empíricos, através da experiências sensórias ou experimentadas.  Num e no outro caso, creio, ele remete a essa relação físico-mental que acabei de discorrer e que merece especial atenção para quem se interessa pela matéria.

Esta doutrina reducionista desconsidera todo processo que não seja ontologicamente material, e como é obvio, afasta qualquer possibilidade de qualquer processo de existência sensória em outros estágios de temporalidade e espacialidade (caso hipoteticamente aceitos),  estes último, por uma inefabilidade  ínsita (dificuldade de se conceituar e se raciocinar com o desconhecido), nos obriga a falar com pouca autoridade no assunto, sempre com base em especulações propriamente ditas.

Experiências místicas, quando alegadamente se concretizam e que alijam a maioria dos seres desse fenômeno transcedental são, via de regra, experimentadas em espaço de tempo bastante curto e ainda embaçadas pela natural condição de seres bastante materializados (aceitando-se, nessa ordem de raciocínio, aquele tipo de fenomenologia) que se contrapõe evidentemente àquela dimensão experimentada, além do que descamba sempre para questões últimas de fé e de formação e cultura religiosas. Fato é que os registros, quando ocorrem, ficam apenas para os que experimentam tal, quer como mistério ou como produto de uma espiritualidade genuína, sem uma repercussão mais ampla, quer de conhecimento geral, quer de estudos acadêmicos ou laboratoriais.

Não há respostas prontas para isso e a dificuldade peculiar de manobra do objeto da pesquisa seja talvez o maior óbice. A subjetividade é, ao mesmo tempo, pesquisadora e o próprio objeto da pesquisa e, em uma perspectiva popperiana, o quesito falseabilidade seria inviável - e modernamente esse tem sido o discurso de orientação na Ciência, ressalte-se. Por outro lado, convém considerar que a comprovação peremptória nunca é possível, seja a área que for e que resultados científicos são perpetuamente provisórios.   

Tendo em vista tais considerações, em ambos os casos, o tratamento deve ser apenas de "possibilidades" - como é óbvio em Ciência, e em se especulando coisas desse elevado teor metafísico. Realmente, pode ser frustrante esse achado, bem humilde e inconclusivo, mas ir além seria bastante prematuro e até leviano.

Miguel de Unamuno em sua obra "
Do Sentimento trágico da vida" quase que se rebela e profana contra essa possibilidade (da não-existência), que como possibilidade que é, é sempre real (toda possibilidade é real).

A idiossincrasia em manejar essa parcela filosófica é expressiva, em que pese o ingente esforço a um tentame mais neutro, neste particular. Todos os fragmentos que poderiam sofrer uma testagem mais científica são coloridos por condições muito particulares de variada ordem como: religiosidade, simbolos peculiares, visão de mundo, escolaridade, sugestionabilidade, má fé, e estado psicológico. Trata-se aqui da experiência mística ou estados generalizados de transe em sentido amplo - inseridos em qualquer matiz religioso ou mesmo fora dessa área de atuação. Não se afirma que não tenha seu valor essencial (ou possa ter mesmo, no sentido típico de espiritualidade), apenas afirmo que cientificamente seu manejo é, não sei se impossível, mas bastante difícil.

Ultimamente, com a universalidade dos meios de comunicaçao, popularizou-se fenômenos conhecidos como E.Q.M. - experiência-de-quase-morte - que também esbarram em dificuldades grandes - em se considerar, outrossim, aqueles fatores acima descritos. Quando se falseia a hipótese de comunhão mística, arguindo o simples fenômeno orgânico da anoxia ou hipoxia cerebral (ausência  ou baixa oxigenação no cérebro), e que isso produziria ditas alucinações e "contatos" - qual o critério de testabilidade no exato sentido contrário?

A dificuldade de replicação das hipóteses, aliadas à baixa produção literária e  a infiltração de engajados e proselitistas são problemas adicionais. Soma-se ainda duvidosas seitas esótericas e pseudo-espiritualistas que na modernidade são uma constante.

Poderia se concluir que a Epistemologia e mesmo a Ciência são ainda muito rudimentares para lidar com coisas de ordem mais sútil, o que pode ser verdade, mas que coloca aqui um ponto importante: não há nem evidências nem contestações conclusivas (ou seja, o conhecimento na área estaria em seu marco zero ou estagnado), em razão dessa mesma precariedade ou misería espistemológica.

Há certezas provisórias, possibilidades e evidências - estes são os possíveis achados científicos. Talvez, podemos contar apenas com o segundo elemento, mas não, talvez, no campo científico stricto sensu, e sim no campo filosófico, ou melhor, apenas de ideias - já que Filosofia é Ciência.

Na Ciência, Carl Gustav Jung, conhecido pela teoria do inconsciente coletivo e da sincronicidade, muito próximo de Freud, em 1956, fez em discurso epistolar, emblemática afirmação que merece ser reproduzida:

Ainda que meu tempo seja escasso e minha idade avançada um fato real, tenho gosto em responder às suas perguntas. Não são fáceis como, por exemplo, a primeira: se eu acredito numa sobrevivência pessoal após a morte. Não poderia dizer que acredito nela, pois não tenho o dom da fé. Só posso dizer se sei alguma coisa ou não.
1. Sei que a psique possui certas qualidades que transcendem os limites do tempo e do espaço. Em outras palavras, a psique pode tornar elásticas essas categorias, ou seja, 100 milhas podem ser reduzidas a uma jarda, e um ano a poucos segundos. Isto é um fato do qual temos todas as provas necessárias. Além disso, há certos fenômenos post-mortem que eu não consigo reduzir a ilusões subjetivas. Por isso, sei que a psiquê pode funcionar sem o empecilho das categorias de espaço e tempo. Ergo ela própria é um ser transcendental e, por isso, relativamente não espacial e “eterna”. Isto não significa que eu tenha qualquer tipo de certeza quanto à natureza transcendental da psique. A psique pode ser qualquer coisa.
2. Não há razão alguma para supor que todos os chamados fenômenos psíquicos sejam efeitos ilusórios de nossos processos mentais.
3. Não acho que todos os relatos dos chamados fenômenos miraculosos (como precognição, telepatia, conhecimento supranormal, etc.) sejam duvidosos. Sei de muitos casos em que não paira a mínima dúvida sobre sua veracidade.
     4. Não acho que as chamadas mensagens pessoais dos mortos devam ser rechaçadas in globo como ilusões. Immanuel Kant disse certa vez que duvidava de toda história individual sobre fantasmas, etc., mas, se tomadas em conjunto, havia algo nelas... Eu examino minuciosamente o meu material empírico e devo dizer que, entre muitíssimas suposições arbitrárias, há casos que me fazem titubear. Tomei como regra aplicar a sábia frase de Multatuli: Não existe nada que seja totalmente verdadeiro, nem mesmo esta frase (Jung, 2003, pp. 53-54).

Como visto, a posição do cientista é cautelosa e também frustrante para quem pede respostas conclusivas.

Entretanto, desse embate, partimos com um particular bônus; examinamos a possibilidade da meta-existência ou imortalidade, de uma condição peculiar que é a existência positiva, cartesiana e real, que significa um ponto extremamente privilegiado e mais, sendo o próprio pressuposto do pensamento racional, não pode ser questionado como (in)existente, tal qual a imortalidade ou a sobrevivência da subjetividade, objeto das pesquisas e indagações filosóficas, até hoje sem respostas conclusivas.
24 Nov 2013
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Quem são os Culpados?



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Gustavo Miquelin Fernandes


Culpar os mensaleiros pela podridão que vive o país, em matéria de moralidade administrativa é exercício simples e muito fácil.

Culpar o Partido dos Trabalhadores pela epidemia de drogas que assola a nação, dado o compadrio dele com agentes da criminalidade latino-americanos, é deveras cômodo.

Lançar duras admoestações aos nossos técnicos keynesianos pelo marasmo econômico dessa nova década perdida é atividade até simplista.

É fácil demais apontar o dedo acusador a terceiros (que são realmente culpados), sentindo-se parte estanque desse sistema viciado - quando, em realidade, não o é.

Até nas críticas somos coletivistas ao extremo, confirmando aquele espectro maior de nossa mentalidade simplória, utópica e fugidia de suas responsabilidades.

Acusamos, com notável facilidade, o argueiro no vizinho (embora, os vizinhos mereçam as mais ácidas críticas, repito), entretanto, permanecemos com a trave a fustigar nossas órbitas, perpetuando nossa cegueira política e cultural de maneira quase que imperceptível.

Ao mesmo tempo que jovens protestavam contra toda sorte de injustiças, desde já, em pesquisas de opinião, eles dão mais um voto de confiança a esse mesmo grupo que causou, em grandíssima parte, a entropia que vivemos hoje. Um paradoxo difícilmente explicado e renderia uma boa tese no campo da Sociologia.

Criticamos abertamente os grandes estupradores da ordem oemocráticas e criminosos públicos, mas todos estão lá, grandes e influentes, formalmente apoderados por um sistema de votos, e que nós mesmos sufragamos.

A ideia-chave é: se há culpados finais, há culpados instrumentais, ou culpados-de-meios. Entramos aí. Somos nós.

As críticas são sempre necessárias e bem-vindas, mas desde que, se reconheça que somos parcela inseparável desse mal. A mea culpa é inteligente e fundamental para não se criar riscos de ilusões, nem propagarmos uma filosofia vitimista, tão em moda hoje.

Ao criticar ou tecer uma análise sobre um corrupto, um petista, um quadrilheiro, ou um sistema ou esquema de poder, ao final, façamos a autocrítica. Quem alçou este elemento ao status que ocupa? Que parcela de contribuição tivemos no processo? Existe possibilidade de recall ou remediação dessa nulidade? Que lições tirar desse erro e se devemos, por dever moral, passá-la adiante?

Será que aquela conhecida máxima que "sempre fazemos por merecer" merece crédito, tem validade?

Fundamentalmente, o problema dos críticos são que eles se apartam radicalmente desse processo de idiotização em franca vigência. Quando somos parte integrante dele, inexoravelmente. Reconheço que há alguns tentando ser cada vez menos, inclusive eu, mas ainda temos dado grossas contribuições a esse esquema de destruição da cultura, de ideologização generalizada e de politização mundana, onde os intelectuais estão embarcando, quer para tirarem proveito das benesses do puxassaquismo estatal, quer por absoluta inépcia mental e cognitiva.

O problema vai além e contamina imensas fileiras de estudantes que, nessa condição e
ipso facto, são bastante vulneráveis, onde também me incluo.
 
A situaçao é aterrorizante; ontem tive que responder um filósofo, que falou coisas bastante desconexas, sem sequer conhecer a matéria implicada - tudo isso para tentar salvar a ideologia dominante e que ele é porta-voz.

Em outra oportunidade, numa conversa com outro professor de Filosofia aqui do interior de São Paulo tive que ouvir que direitos são inesgotáveis e que o Estado precisa atualizar a relação desses mesmos direitos - seja por Emenda à Constituição, seja por referendo.

Estamos em difícil época onde professores não estudam e fingem que ensinam e alunos fingem que aprendem e também fingem que estudam, num circulo vicioso completamente dominado por um esquema autoritário de poder, anulando toda possibilidade de discussão séria. Quem quiser frequentar um debate saudável, hoje em dia, melhor ir passear no bosque ou jogar vídeo-game.

Uma outra pessoa publicou um artigo na imprensa a favor de uma certa teoria, onde prontamente respondi, discordando e alertando para o perigo daquela sustentação aos mais desavisados. Ao ser provocado para conversar, o articulista provou que não só não sabia absolutamente nada da matéria (nada mesmo!), como partiu para ataques pessoais.

Uma nulidade total.

E fazemos parte de tudo isso. Participamos, incentivamos, concedemos crédito e bastante confiança.

A criticocracia virou profissão formal; não desmerecendo o trabalho desses, onde me incluo, mas tenho visto análises bem parciais, superficiais e altamente excludentes.

Não seria hora de cortar na carne? A revolução cultural de Antõnio Gramsci está em vigor durante algumas décadas, mas o processo é plenamente interrompível - só não se sabe, ao certo, como.

Precisamos antes de mais nada, a justa e sincera autocrítica, seguida da indeclinável ação, lançando mão dos meios necessários para que revertamos esse processo da degradação moral-cultural que respinga na ação política e segue para a raia econômica - condenando todos à absoluta miséria, quer de ordem material ou mesmo espiritual.

Digo sincera pois que elegemos, sempre e inconscientemente, bodes expiatórios bem peculiares, e que recentemente tive oportunidade de escrever algo (leia meu texto "Espantalhos pós-modernos").

Nossos problemas não são os outros, são nós e os outros, todos juntos, irmanados, e assim é bem mais difícil reagir.

Processo muito complexo, contudo, reversível, basta querermos.

Hoje ainda temos tempo, amanhã, talvez não.
22 Nov 2013
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ESTÓRIAS DA MINHA VIDA


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Um amigo meu, que vai ser pai, me pediu sugestão de nome para a filhinha que vai nascer. Disse-me queria um nome bem bonito e que combine com sua notável inteligência (modesto!).

Respondi, sacana:
"Xantipa".

*

A primeira vez que fiquei embriagado foi na cidade de Torrinha-SP com um primo meu, que hoje faz parte dos quadros da Policia de SP - e que sempre eu considerei "o cara".
Ele dizia que o ser humano conseguia aguentar várias caipirinhas sem perder a razão (e dizia um número qualquer).
Pois é, eu devia ter uns 16 anos e esse primo, com uns 25, me pagou várias doses no extinto "Bar do Bola".
A tese dele era mentirosa e eu perdi totalmente a razão. Um adolescente bobo, virgem, com cachaça na cabeça.
Aí me jogaram uma menina, que era tipo chacota da cidade, e eu fique com ela, inclusive passeando de mão dadinha na praça da cidade. Uma belezinha.
Hoje não tomo mais caipirinhas...

*

Acho que apenas briguei uma única vez com meu amigo Tiago Zanotti nos tempos que éramos os dois grandes "nerds" do colégio.
Foi quando eu joguei duas cadeiras no terreno do lado, e ele não quis assinar o B.O. assumindo pelo menos uma cadeira, e aliviando para mim.
22 Nov 2013
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Cultura



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Vilém Flusser
(in Fenomenologia do Brasileiro)


Fenômenos culturais parecem conter dois “espíritos”, o do tempo e o do espaço, já que, ao contemplarmos tais fenômenos, somos capacitados a indicar aproximadamente quando e onde surgiram. O espírito do tempo parece permitir distinguir entre fases históricas, e o espírito do lugar regiões de cultura. Mas a realidade é bem mais complexa, e o fenômeno cultural se relaciona com o tempo de maneira bem diversa da sua relação com o espaço.

Tem sentido nítido falar-se em história da filosofia, e distinguir entre filosofia barroca e filosofia do Iluminismo, mas falar em geografia da filosofia é bem mais difícil. E se quisermos falar nela, devemos falar em filosofia iluminista na Espanha, ou em filosofia espanhola no Iluminismo? O problema é este: o tempo permite ordenar os fenômenos culturais em hierarquia (milênios, séculos e décadas), embora tal hierarquia não seja rígida (há décadas e séculos mais importantes, culturalmente, do que outros), embora exista a tendência para a aceleração geométrica do tempo na cultura. Mas o espaço não permite hierarquia neste sentido. Ao contemplarmos um crucifixo, faz sentido dizermos tratar-se de fenômeno europeu, e alemão, e austríaco, e salzburguense, e do Pinzgau (de maneira que há hierarquia); mas ao contemplarmos partitura de fuga não faz muito sentido falarmos em lugar, a não ser, no máximo, em Europa e França.

Pois os exemplos dados sugerem o seguinte: há vários tipos de fenômenos culturais, e uns revelam nitidamente a hierarquia do tempo (como filosofia e partitura de fuga) e outros revelam, além disso, nitidamente a hierarquia do espaço (como crucifixo). A tentação é grande de chamar o primeiro tipo de fenômenos "cultura de elite", e o segundo tipo "folclore", e dizer que o folclore está mais perto da terra que a cultura da elite. Todavia, deve-se resistir à tentação, porque é conseqüência de um enfoque historicista dos fenômeno
s da cultura. Tudo isto funciona bem apenas se aplicado a fenômenos de culturas históricas, mas falha se aplicado a outros. Por exemplo: o enfoque historicista distingue na cultura egípcia entre vários reinos, na cultura centro-americana entre Maia I, II, e III, e na cultura paleolítica entre arcaica, clássica e decadente. Os exemplos provam, em medida crescente, a dubiedade do critério historicista e da hierarquia do tempo. No caso do Egito (e, em grau ainda maior, no caso do Yakatan), o característico do fenômeno não é o período histórico (embora indubitavelmente exista), mas a estrutura constante que despreza o tempo e afirma o espaço. E no caso do paleolítico os três períodos parece que são simultâneos, o que é uma contradição insuportável. E não teria sentido nenhum chamar de folclore as três culturas mencionadas. Melhor talvez seria distinguir entre dois tipos de cultura: a histórica, que permite hierarquia nítida do tempo (e cujo exemplo melhor seria a cultura da elite do Ocidente), e a não-histórica, na qual tal hierarquia se confunde, mas cujo espírito do espaço se manifesta nitidamente (e o melhor exemplo é a cultura neolítica), e admitir que há culturas do tipo misto (como o folclore ocidental e a cultura do Egito). A língua inglesa distingue em tal sentido entre culture e civilisation, de maneira que culture significa aproximadamente “cultura não-histórica” mas no sentido de “primitiva”, prova da base historicista do pensamento anglo-saxônico (o que dificulta a compreensão do problema).

Se o Brasil for realmente, como afirma o presente ensaio, sociedade não-histórica constantemente irrigada pela história, o problema aparece aqui de maneira especialmente complexa. Para abrir um caminho rumo ao problema torna-se necessário remover um obstáculo formidável. Os pensadores brasileiros em geral (e especialmente os da esquerda) tendem a distinguir no Brasil dois tipos de cultura: a da elite e a da massa. Tal distinção, produto de categorias ocidentais, não coincide com a distinção mencionada entre cultura da elite e folclore, mas afirma aproximadamente: há uma cultura que se derrama por canais comunicativos largos e de fácil acesso (como o rádio, a televisão, o filme, a revista barata), e esta é a cultura da massa. E há outra que se derrama por canais mais estreitos e de acesso difícil (como teatro, concerto, livros caros), e esta é a cultura da elite. A cultura da massa é manipulada e programada pela elite e contribui para a alienação da massa, e a cultura da elite contribui para a separação entre massa e elite. Não se nega que tal maneira de ver a cultura brasileira é muito importante, e que a teoria da comunicação é indispensável para a captação de muitos fenômenos culturais brasileiros. Mas a razão do propósito de remover tal atitude do caminho é dupla: a primeira é que categorias históricas como estas tendem sempre a encobrir, ern vez de revelar, a essência dos fenômenos brasileiros. A segunda é que as categorias deixam no caso, grande parte dos fenômenos culturais brasileiros no além do campo da pesquisa.

O presente capítulo propõe distinguir entre três tipos de cultura brasileira. Um nível cultural não-histórico básico, que tem semelhança estrutural com culturas do tipo paleolítica e maia. Um nível intermediário para-histórico, que tem semelhança estrutural com a cultura ocidental da elite, e que inclui tanto a “cultura da elite” quanto a “cultura da massa” acima mencionadas. E um nível superior não-histórico que tem estrutura incomparável e que é o nível da verdadeira cultura brasileira, no sentido de "cultura do novo homem". Pois os níveis propostos não passam de meras abstrações didáticas e não afirmam que servem de critério para distinguir entre fenômenos da cultura. Afirmam apenas que podem servir de critério para distinguir entre vários traços de um fenômeno dado, de forma a poder-se dizer, aproximadamente, qual nível cultural predomina em fenômeno dado. Afirmam portanto que uma crítica consciente tem tarefa imensa no Brasil, a saber elaborar suas próprias categorias (das quais as propostas não passam de simples tentativas), e aplicá-las a cada caso que se apresente. Por enquanto não existe infelizmente, o menor sinal de que uma crítica assim esteja surgindo.

Quanto ao método a ser seguido no capítulo presente: as categorias propostas não serão impostas sobre os fenômenos, mas são, pelo, contrário, resultado do esforço de permitir aos fenômenos que revelem as suas próprias categorias (se tal afirmativa é ou não é verdadeira será tarefa de crítica posterior constatar, e a esperança do presente capítulo é provocar tal indispensável metacrítica). Portanto, o método implica lançar uma rede das três categorias sobre a cena cultural brasileira, a fim de captar a essência dessa cena. As próprias categorias não foram trazidas de fora, mas tecidas do contexto brasileiro, de modo que elas próprias não passam de fenômeno cultural brasileiro.

O nível básico não-histórico é dominado por elementos negros. Isto é surpreendente, já que era para se supor que em tal nível houvesse síntese entre elementos indígenas, negros e Portugueses. A dominância do elemento negro e a recessividade dos demais (para recorrer a terminologia genética bem apropriada ao caso) é constatável não apenas aqui, mas igualmente na America Central e nos Estados Unidos. É surpreendente, também, porque no nível biológico parece que o elemento branco é o dominante. Este não é o lugar de analisar o fenômeno, e menos ainda o lugar de querer afirmar a “superioridade" da cultura negra. Embora no Brasil tese de que black is beautiful não tenha encontrado eco, existe a tendência para um racismo invertido (especialmente por parte de uma elite branca cuja consciência não é lá muito boa). O fato da dominância negra será simplesmente constatado.

Depende a compreensão deste nível cultural da compreensão da forma como o elemento negro entrou e como se manifesta. O termo "negro" é obviamente vazio (significa aproximadamente "não branco"), tão vazio quanto o é o termo "branco" (de passagem seja dito que o fato de o movimento americano chamar-se black power prova para o observador brasileiro, conhecedor existencial do problema, que se trata de movimento alienado). No Brasil, a tentativa de dar sentido ao termo "negro" resulta no seguinte: Homem que descende em alto grau, mas não exclusivamente, de escravos importados desde o século XVI até o século XIX da África, entre os desertos do Saara e Kalahari. Naquela região imensa há grande número de etnias, vagamente cobertas pelos termos lingüísticos “sudaneses” e “bantus”. Ambas as etnias participam da colonização negra do Brasil, mas parece que os bantus predominam, pelo menos no Norte. A dificuldade é que a estrutura étnica, social e cultural dos negros (por exemplo, aristocratas africanos e gente já escrava na África) era ignorada pelos escravocratas e mantida em segredo pelos africanos, até cair em esquecimento. Igualmente esquecidas foram as línguas africanas, e conservadas apenas como elementos absorvidos pelo português, e como língua litúrgica semelhante ao latim da Igreja, isto é, compreensível apenas para o sacerdote.

Mas o importante para a cultura brasileira é outro aspecto. As culturas africanas têm, praticamente todas, um método complexo de transmissão de geração a geração, uma complexa paideia, que pode ser assim descrita: a nova geração recebe da antiga obras como modelos (máscaras, estátuas, barcos), e lhe são ensinados os métodos técnicos para copiá-las. Simultaneamente, a nova geração é incentivada para não copiar os detalhes dos modelos (o repertório), mas apenas o essencial (a estrutura). A conseqüência disso é que as culturas africanas têm estrutura rígida (não-histórica), mas grande abertura para a articulação de fortes individualidades. Com efeito, é tal articulação que dá vida aos fenômenos culturais africanos. Acresce-se a isto que nas culturas africanas as obras não são de "arte" (no sentido ocidental), mas são obras úteis e utilizadas na vida diária, inclusive no culto religioso. São "instrumentos", nos quais não se pode distinguir arte e técnica, e enquanto instrumentos articulam o homem todo, inclusive aquelas camadas inconscientes chamadas "arquetípicas" em certos contextos. De maneira que as culturas africanas a um tempo articulam o sentido da vida do homem e dão sentido ao ambiente humano, que transformam em ambiente de vida.

Os negros chegaram aqui de mãos vazias, isto é: sem modelos e sem a possibilidade de aprender técnicas de fazer modelos. Chegaram apenas munidos de sua identidade cultural e da memória dos modelos. No novo ambiente, degradados a serem objetos, as obras culturais não teriam função, já que a vida não tinha sentido, e já que o ambiente tinha sentido imposto sobre ele por outro. Havia, no entanto, a seguinte possibilidade: conservar a tradição cultural por gestos estruturados (na dança, por exemplo) e pela música, e dar portanto sentido à vida em terrenos limitados. E elaborar rapidamente modelos e de fácil construção (tais como instrumentos musicais), antes que a memória falhasse. Este aspecto tornou-se decisivo para a cultura brasileira.

Para falar primeiro nas suas conseqüências negativas: toda cultura africana que depende de modelos elaborados e caros (arquitetura, escultura, navegação, máscara, trabalhos em metais) ou não existe no Brasil, ou se existe manifesta decadência e infantilidade. Um belo exemplo disto é a escultura. Tudo que passa por escultura africana no Brasil não passa de kitsch, se comparado com a escultura africana. A explicação é esta: não havia modelos, e os que procuravam articular-se esculturalmente (especialmente na Bahia), para dar forma à sua mentalidade africana (muito modificada pelo ambiente brasileiro), não dispunham da técnica tradicional, nem de mestres. Além disso a estátua não linha função africana no ambiente brasileiro. Se, a despeito disto, surgiu na Bahia escultura original inspirada por elementos africanos, tal escultura não pertence ao nível cultural ora discutido, mas ao terceiro nível. A soit-disant pintura negra “primitiva” no Brasil (tão apreciada atualmente pela burguesia, mas por razões fundamentalmente erradas) merece ser mencionada neste contexto. Em primeiro lugar, pintar quadros não é fenômeno africano, e se há pintura atualmente na África, isto prova o quanto a “negritude” é movimento europeu. Em segundo lugar, quadros se destinam a ser pendurados em paredes (da burguesia branca), e tal função antiafricana prova a alienação do pintor da sua origem. Em terceiro lugar, a ingenuidade “do pintor” não é tradição africana (que não é ingênua mas sofisticada), mas é incompetência do pintor em técnicas européias. E em quarto lugar, a pintura “primitiva” não segue modelos africanos mas franceses e norte-americanos. Isto não exclui que elementos africanos não se articulassem poderosa e criativamente na pintura brasileira, mas tal pintura não pertence ao nível cultural discutido, e não é necessariamente executada por negros.

Para passar agora a considerar as conseqüências positivas de tal aspecto, o termo-chave é "ritmo". A teoria da comunicação distingue entre fenômenos diacrônicos e sincrônicos na cultura, e revela estruturas fundamentais em tais fenômenos que podem ser classificadas seguindo estas categorias. O ritmo é um aspecto diacrônico, no sentido de permitir dissolver as estruturas em seqüências organizadas. Pois há um ritmo nitidamente africano e que pode ser constatado em praticamente todos os fenômenos culturais, no nível agora considerado. É este o fato principal que o corre quando se fala em cultura brasileira no estrangeiro, embora o estrangeiro se concentre sobre manifestações acrobáticas (neste sentido: prostituídas) do ritmo. Por exemplo, o ritmo de um Pelé, de uma dançarina, ou de uma orquestra em night club (aliás, o fato de o burguês brasileiro aceitar tal interesse de estrangeiro como sendo "positivo" atesta a alienação da burguesia). Na realidade o ritmo fundamental não se manifesta principalmente em acrobacias, nem necessariamente em “obras" (as quais, como sambas e lutas lúdicas, não passam de epifenômenos), mas nos gestos do dia-a-dia, gestos estes que injetam um elemento ritual e sacral no cotidiano que distingue radicalmente o ambiente brasileiro de outros. O andar rítmico das meninas e moças, os passos de dançarino dos rapazes na rua (acompanhados de olhar e sorriso interiorizados, como que para manifestar o poder do ritmo sobre o espírito), o constante bater em caixas de fósforos e com colheres, o uso das máquinas de escrever nos escritórios como se fossem tambores, a transformação de martelos em atabaque, a graça dos gestos dos moleques que jogam futebol, até a elegância dos movimentos nas brigas de rua, tudo isto é manifestação de uma profunda cultura. O vulgar e o cinzento que caracterizam o cotidiano nos países históricos são substituídos aqui por elemento estático e religioso que permeia o ambiente todo de forma que todos não apenas negros e mulatos são arrastados pelo ritmo. A síncope africana e a alta organização (sofisticada) do movimento do corpo atestam que se trata de cultura em sentido radical, e faz com que viver no Brasil seja vivenciar ininterruptamente cultura, embora nem sempre o fato esteja presente. E isto prova por sua vez, que a sociedade não pode ser chamada de “cristã” no verdadeiro sentido do termo. Religião não é o que se crê, mas como se vive. O brasileiro vive o ritmo sacral do corpo e dos sentidos do corpo, e vive a beleza do corpo e dos sentidos ritualizada, portanto sacralizada. A sua vida é constante hierofanização do imanente. E, para o cristianismo, o corpo não passa de vaso da alma, desprezível e sacrificável em relação com a alma.

É óbvio que tal cultura profunda se realiza em obras, música e dança, cozinha e traje, contos e histórias, e principalmente em ritos religiosos. É óbvio, mas não é necessário analisar tais obras, já que o essencial foi descoberto. Apenas é preciso apontar a força sincrética dessa cultura, como se manifesta nos cultos religiosos. O panteon africano com seus deuses e diabos da natureza e da cultura, e que pode ser provocado ritmicamente para baixar e cavalgar os possessos por ele, assume para proteção própria uma tênue máscara católica, e o efeito não é mudar o rito africano mas, pelo contrário, penetrar a estrutura da Igreja. O carnaval é um dos exemplos possíveis disto, mas a africanização da Igreja (que é o seu modo de tornar-se brasileira) se manifesta em muitos aspectos. Tão forte e poderosa é esta cultura, que resiste a toda tentativa de banalização por parte dos meios de comunicação, com sua comercialização alienante e, pelo contrário, injeta em todas estas manifestações uma dose de autenticidade ausente na Europa e nos Estados Unidos. Deste ponto de vista, o Brasil é bem mais culto do que estes países. A vulgarização, banalização e kitschização que marcam a vida europeia e americana é em larga medida evitada, embora exista também como preço que o pais paga pelo “progresso”. O atual aumento desse fenômeno é inquietante.

A cultura fundamental não resulta apenas em obras, mas também em personagens características da cultura, prova que se trata de autêntica cultura. Será apenas mencionada uma única personagem: o malandro. O seu arquétipo mítico é o Exu, e se manifesta na forma de um desprezo cínico pelos valores da sociedade (leia-se: valores ocidentais), de uma inteligência viva mascarada em ingenuidade, e de uma criminalidade acompanhada de humor e graça. Um diabo tipo Svejk (da literatura tcheca), e que é bailarino. Certamente trata-se de personagem cultural que mais dia menos dia será transformada, pela cultura brasileira do terceiro nível, em figura comparável a Don Juan e Fausto. Mais uma das colossais tarefas que esperam tal cultura.

É verdade que, no nível fundamental, o elemento negro predomina. Mas não exclui os outros elementos. Na cultura cabocla (se é que merece tal termo), manifestam-se também elementos indígenas e europeus. Para dar um único exemplo: o imigrante se comove pelo espetáculo da dança cabocla, na qual distingue nitidamente, nos passes comedidos e formais, o elemento feudal cavalheiresco da Idade Média européia - se comove quando compara tal elemento com a decadência dos que a ele recorrem (aliás, Guimarães Rosa articula bem esse motivo do cavalheiro do Santo Graal, do cavalheiro andante, no caboclo). Tais elementos díspares na cultura fundamental ainda esperam por serem desencobertos pela cultura brasileira, para serem transformados cm elementos de outra cultura. Não apenas no sentido um tanto romântico de o burguês brasileiro inclinar-se sobre a cultura fundamental a fim de aproveitá-la e nela inspirar-se. Mas, principalmente, no sentido mais radical de ele reconhecer-se a si próprio nela, em método extrospectivo e introspectivo.

Para resumir o resultado da tentativa de desencobrir a essência da cultura fundamental brasileira: é não-histórica, e isto significa que ela não se manifesta principalmente em obras datáveis, mas em estrutura concreta e espacial, especialmente em gestos cotidianos. Significa anonimato, participação global, e religiosidade. Não tem sentido querer historicizá-la e distinguir épocas nela. A cultura das massas, cinzenta, feia e uniforme, encobre esta verdadeira cultura, mas o uniforme tem abertura pelas quais a verdadeira cultura transparece e resplandece, e consegue, com a força da sua autenticidade, mergulhar a cena brasileira toda em clima de sacralidade. O essencial do clima é o ritmo africano.

O nível cultural a ser discutido agora, e aqui chamado de "pseudo-histórico", é o nível no qual o imigrante intelectual vive, do qual participa ativa e passivamente, que ele conhece melhor, no qual está inserido pelo seu trabalho, por laços de amizade, e no qual investiu parte considerável da sua vida. É duro, portanto, admitir que se trata de cultura constantemente ameaçada de decair em provincianismo e provocar tédio insuportável. É cultura importante, mas em forma defasada da Europa e dos Estados Unidos, aqui tornada medíocre e pouco produtiva. Basta comparar tal cultura em São Paulo com não importa que cidade europeia, para verificar que São Paulo, com seus 6 milhões de habitantes, ocupa nele posição correspondente a cidade europeia de uns 300 mil habitantes. O consolo é: o engajamento em tal cultura visa não tanto mantê-la e fazê-la progredir, como alterá-la profundamente e transformá-la em tipo de cultura inteiramente diversa. E isto torna o engajamento potencialmente muito mais significativo que o engajamento paralelo na Europa e nos Estados Unidos. Em outras palavras: a marginalização do intelectual por esta cultura em relação à cultura ocidental é compensada pelas virtualidades revolucionárias dormentes em tal engajamento.

Na descrição dessa cultura (que é complexa a despeito da sua pobreza), será empregado o método seguinte: a fim de evitar generalidades, será primeiro oferecida uma imagem muito superficial dessa cultura, e depois serão escolhidos uns poucos aspectos, iluminados um pouco mais claramente.

É cultura "defasada" não apenas porque repete fases esgotadas pela cultura ocidental, mais ainda porque não vivencia as fases. Esta falta de vivência confere à cultura um aroma de papel impresso, embora às vezes de papel impresso em tinta forte e com cabeçalhos berrantes. E é "histórica" no sentido de articular o espírito de um tempo, apenas não o próprio espírito, nem do próprio tempo. Consequência dos dois fatores é um curioso preciosismo e academicismo. "Mentira" é o termo correto, desde que se entenda por mentir articular o espírito de outrem, não o próprio. A postura da mentira pode ser observada bem em dois fatores distintos. O primeiro reside num constante olhar pelo rabo de olho na direção da Europa e dos Estados Unidos, não apenas para espiar modelos a serem copiados, mas mais ainda para ser "aceito" lá e assim adquirir legitimidade. Isto não é diálogo, como alguns pretendem, mas submissão abjeta. O segundo reside na relação entre os homens que participam da cultura ativamente, e que desmente a verdadeira relação humana brasileira. Formam-se turmas e panelinhas de pessoas profundamente vaidosas, que se entreolham com inveja e procuram mutuamente eliminar-se graças a essas intrigas, que mascaram com ideologias. Desmente-se, aqui, a própria essência brasileira. O fenômeno pode ser observado nas universidades, nos bastidores dos teatros e nas exposições de arte na Europa e nos Estados Unidos; apenas, aqui, é copiado e provincializado.

A falta de tradição vivida e a incompetência dela decorrente são muitas vezes compensada por inteligência brilhante e fantasia fecunda, e assim resultam em obras que não raras vezes revelam originalidade. Uma crítica merecedora do nome poderia apontar nessas obras esforços disciplinados e inspirados que em contexto histórico seriam bem-sucedidos, mas aqui murcham por falta de raiz e por falta de eco. Mas a falta de tal crítica parece condenar essa cultura toda a permanecer, pelo menos para o futuro previsível no limbo. Porque o crítico que vegeta em tal cultura tem apenas duas atitudes: ou a atitude de profunda reverência, para mostrar quão bela é esta cultura e sua própria cultura, ou a atitude de violento insulto, para mostrar que ele é um dos poucos que não permite ser enganado por tal cultura. Se de vez em quando ocorrer uma crítica honesta e interessada no assunto, mas não na pessoa do criticado, este e sua panela reagem como se se tratasse de ofensa pessoal ou ofensa à ideologia que a panelinha professa.

Em tal ambiente malsão ocorrem, não obstante, fenômenos culturais que atestam ruptura autêntica da alienação e defasagem. Tais fenômenos fazem parte do terceiro nível cultural a ser considerado mais tarde, mas é preciso dizer que tais fenômenos devem necessariamente passar pelo nível agora considerado para afirmar-se. E felizmente é possível dizer-se que um número crescente de obras culturais da atualidade, embora não consigam desvincular-se, pelo menos denotam a tendência rumo a uma verdadeira cultura.

Não tem muito sentido querer distinguir nesse campo entre cultura da e da massa. Ambas participam das características aqui esboçadas, embora cada qual manifeste essas características à sua maneira.

(a) Ciências da Natureza: trata-se de disciplinas universais, de modo que parece não ter sentido incluí-las em considerações cujo tema é cultura especificamente brasileira. Não obstante, engajar-se em ciência natural no Brasil tem aspectos específicos que ilustram toda a cultura brasileira. A pobreza da sociedade tem por consequência pobreza de equipamento laboratorial e de pesquisa, de maneira que o cientista não pode dialogar com seu colega estrangeiro em pé de igualdade. E a pobreza tem por outra consequência que a relação numérica entre professor e aluno é desfavorável a ponto de dificultar enormemente a criação de novos cientistas. Tais fatos trazem vários resultados importantes para o engajado: o bom cientista tende a dedicar-se à teoria que exige equipamento menos caro. Tanto cientista quanto aluno vivem em constante tentação de ir para fora, já que é difícil aproveitar cientistas no contexto brasileiro. O rápido progresso da pesquisa no estrangeiro aumenta anualmente o abismo que separa o cientista brasileiro do centro (e isto a despeito das viagens para estudo e participação em congresso), de forma que este se sente progressivamente marginalizado. Sofre o cientista brasileiro, de maneira ainda mais aguda que o europeu e o americano, a contradição entre engajamento científico (isento de valores) e o engajamento prático, já que em contexto brasileiro ou teoria não terá consequência prática alguma, ou consequência inteiramente imprevisível e inteiramente afastada do poder decisório do cientista. Em outras palavras: o que é “desafio americano” na Europa não chega a constituir desafio para o cientista brasileiro, apenas frustração progressiva. Se for verdade que as ciências da natureza passarão sempre mais decisivamente a marcar os destinos da humanidade, o cientista brasileiro deve forçosamente desesperar quanto ao seu engajamento. A não ser que consiga ser apenas cientista isto é, monstro frankensteiniano.


(b) Filosofia: também ela é universal, mas em sentido oposto. A ciência é universal porque recorre a simbolismo universalmente convencionado e, porque trata de fenômenos para a ciência, deve ter estrutura universalmente idêntica. A filosofia é universal porque disciplina a capacidade universalmente humana para a reflexão por métodos universalmente aceitos, elaborados pelos gregos e apenas refinados ao longo do tempo. Tais métodos distinguem a filosofia das várias sabedorias. Uma tal universalidade significa apenas que homens podem filosofar em não importa que lugar e em não importa que momento. Mas não significa que o resultado de um tal filosofar seja uma filosofia universalmente significativa (muitos tendem a esquecer isto). A capacidade para a reflexão é capacidade para afastar-se de si mesmo e ver-se a si e a sua situação de fora; sendo a situação diferente caso a caso, diferente será também a filosofia. A rigor o exposto implica ser filosofia apenas disciplina ocidental (não universal), e que não se deve falar, por exemplo, em filosofia do Oriente. Porque o passo para trás, que é a reflexão filosófica, se dá a partir da história e neste sentido é histórico, mesmo sem resultar em formalismo. A crise da filosofia atual não passa de crise da história no seu aspecto “filosofia”. Pois se for verdade que o Brasil é não-histórico, seria lícito esperar-se que a crise da filosofia revelasse aspectos muito importantes em contexto brasileiro. A esperança não se cumpre, porque, sendo o pensamento brasileiro não-histórico, não tende para a filosofia, embora tenda para várias espécies de sabedoria. Os que sentem dentro de si a chama da filosofia (e existem, dada a parcela histórica no pensamento brasileiro) sentem também a atração das ditas sabedorias, e procuram sufocá-la. De forma que se “disciplinam” e restringem a sua atividade a comentários de textos que não deixa de ser escolásticos por chamarem-se a si próprios, obedecendo à moda, “estruturalistas”. Outros cedem à tentação e produzem sistemas sincréticos grandiosos e sem interesse.


O filosofar é, para Ortega, atividade que envolve carne e osso. Um tal filosofar provocaria no Brasil a descoberta da essência do próprio pensador e da situação na qual se encontra. Forneceria plataforma para uma decolagem do Brasil mais significativa que a decolagem econômica da qual se afirma anualmente que acaba de ser feita. Porque significaria que um pensamento não-histórico conseguiu assimilar a filosofia do Ocidente e deu um salto que transforma não apenas o pensamento não-histórico, mas a própria filosofia. Para ilustrar o que esta afirmativa pretende: os pré-socráticos conseguiram assimilar à sua nova estrutura mental o pensamento mágico-mítico de tal maneira que este deu um salto e resultou em filosofar. A mentalidade grega era mentalidade nova, e graças à superação dialética da mentalidade prévia criou um novo tipo de pensar, a filosofia. A mentalidade brasileira é igualmente nova, e a filosofia não passa, para ela, de elemento externo a ser assimilado – logo, poderia repetir a façanha grega em nível diferente (o exemplo não passa de ilustração fantasiosa, mas sugere o pretendido). Mas quem procura em cena brasileira por novos Heráclito ou Parmênides, procurará, provavelmente, debalde. Provavelmente, porque dada a situação é perfeitamente possível que um Pitágoras esteja atualmente ensinando em cidade interiorana, sem ter sido descoberto. Tudo isto não nega o fato de existirem esforços sérios no sentido de romper a defasagem alienada. Quem tem faro poderá afirmar que já sente no ar o repentino despertar de uma filosofia brasileira. Apenas é muito pouco provável que um tal despertar ocorra nas faculdade de filosofia (que surgem quais cogumelos depois da chuva em inúmeras e improváveis cidades), já que lá, como aliás no resto do mundo, apenas um número crescente de papéis eruditamente impressos enche gavetas. E lá, se surgir e quando surgir uma verdadeira filosofia no Brasil, esta será profissionalmente combatida, como cumpre a toda academia no mundo inteiro. Até que não surja tal filosofia, não se poderá falar no despertar do gigante esplêndido do seu sonho dogmático (ou não importa que outro tipo de sonho).


(c) Cultura Humanística: A despeito de C. P. Snow, é difícil dizer o que isto é, a não ser que se diga que ela é o contrário das ciências da natureza. Mas no Brasil, curiosamente, é extremamente fácil dizer o que tal termo significa. Cultura Humanística é cultura, composta de elementos jurídicos e literários, que habilita o portador a assumir papel de destaque na política e na sociedade. É acompanhada do título de “doutor” (geralmente em Direito), fornece ao possuidor grande riqueza vocabular e de oratória e capacita-o a externar opiniões aparentemente originais, mas na realidade com imprimatur da direita ou da esquerda tal peste em forma de cultura se restringe é verdade a uma geração em vias de desaparecer, e horror de tal cultura está se tornando generalizado. Mas existe o constante perigo de ela passar a derramar-se de novo por sobre a cena em forma mais bem mascarada (por exemplo: demagógica), e voltar a ser nefasta. Trata-se no fundo de dupla defasagem: cópia do advogado francês no fim do século XVIII, e do gênio universal do Renascimento. A ela se deve o “positivismo” no Estado e no Exército, no Ensino e na Administração, nas formalidades e nos cartórios, e em geral no mar de papéis oficiais e semi-oficiais que gera um mar de funcionários públicos aposentados e semi-aposentados.


(d) Modas: O termo não pretende apenas a maneira como se vestem as damas e os cavalheiros da boa sociedade (e, seis meses mais tarde, as senhoras da pequena burguesia), nem o tipo de carros, móveis, expressões idiomáticas e opiniões políticas e religiosas dos quais estas pessoas se servem. Pretende muito mais a maneira como essas pessoas se comportam. Será fornecido um único exemplo de moda, a saber: o comportamento da juventude. O comportamento módico da juventude constitui cultura de múltiplos aspectos. As contestações universitárias européias e norte-americanas passam por aqui para se transformarem em moda. Lá são protesto contra estruturas arcaicas universitárias, no sentido pedagógico e social (já que as universidades não seguem com suficiente rapidez a revolução pedagógica, nas formas da cibernética e do ensino programado, e já que lá continuam burguesas, embora os estudantes não o sejam em grande parte). Mas as mesmas “reivindicações” aqui passam por caricaturas, se reestruturar o ensino significaria, no Brasil, copiar um desenvolvimento que aqui não se dá, e se ensino gratuito significa, no Brasil, o financiamento de alunos burgueses pela sociedade toda. O movimento hippie europeu e americano passa por aqui para se transformar em moda. Lá representa o protesto da juventude contra uma sociedade que se afoga em consumo excessivo para não se dar conta da realidade. Aqui os rapazes e moças de cabelo comprido e roupa suja concorrem, sem esperança de poder vencer, com os miseráveis nordestinos que ocupam a esquina do outro lado da rua. E o mesmo fator “moda” poderia ser constatado na cultura da juventude me outros campos, por exemplo se compararmos os “estudantes para um sociedade democrática” com a “esquerda festiva”. Admita-se que é terrivelmente duro ser jovem em cultura como aquela que aqui está sendo esboçada, e a tentação da moda é extremamente grande. Mas trata-se de alienação que precisa ser rompida, e alguns entre os jovens precisam procurar assumir-se honestamente, sob perigo de serem tachados e pixados de "alienados" e "quadrados" pela direita e pela esquerda vitima de modas. E há indícios que tal rompimento está se tornando sempre mais freqüente. Parte da juventude representa, desde já, um tipo humano sem igual em abertura e flexibilidade (embora não em informação), no resto do mundo. São estes os jovens que sempre renovam a vontade para o engajamento.


Torna-se necessária uma explicação do critério de escolha dos quatro setores da pseudocultura citados. O primeiro critério foi: foram escolhidos dois setores (o da ciência e o da filosofia), nos quais pode ser observada a situação trágica dos que participam de tal cultura honestamente, e dois setores (o da cultura humanística e da moda), nos quais a situação tragicômica dos participantes pouco sérios pode ser observada. O segundo critério é este: todas as quatro faces da cultura pseudo-histórica foram pintadas do ponto do "produtor" de cultura. Porque o consumidor de cultura tende para o kitsch atualmente em toda parte, e isto não distingue o consumidor brasileiro. O terceiro critério é: foram escolhidos alguns entre os "piores" setores da cultura, no sentido de mais difíceis de serem rompidos, e no sentido de menos aptos a serem transformados em cultura verdadeira. Foi um esforço de honestidade, porque entre os setores escolhidos acha-se também o setor no qual o próprio autor está engajado.

A exposição da cultura pseudo-histórica, tal como acaba de ser oferecida, é caricatura (caricatura é esboço que por exagerar o essencial provoca hilaridade). O método é pouco acadêmico (logo, o contrário do seu tema), e visa desesperadamente a fazer os outros ver o que o caricaturista viu. O nível da caricatura é portanto o desespero.

Para resumir o exposto: a cultura básica e autêntica brasileira é encoberta por outra, falsa e pseudo-histórica, feita por burgueses alienados para burgueses alienados e para uma massa alienada. Tal cultura é comparável em muitos aspectos com a cultura burguesa ocidental, por exemplo no aspecto da inflação de informações e das sensações inúteis, no aspecto da sua tendência para kitschização, e no aspecto da vulgarização (ou divulgação, sinônimo) de valores. Tais aspectos, por não característicos, não foram mencionados. Mas há outros aspectos que distinguem a cultura brasileira das outras. O aspecto de ela manifestar espírito alheio, o aspecto de ela tender para o provincianismo e a incompetência, e o aspecto de ela poder servir de veículo para a articulação de uma nova identidade. Pois é este terceiro aspecto, e que falta na maioria das demais culturas, que é a meta deste capítulo todo.

No capítulo que tratou da alienação foi feito um rápido esboço do engajamento burguês em cultura. Avançou-se a tese de acordo com a qual o interesse do burguês em culturas é fuga de realidades insuportáveis, mas fuga que pode, em momentos decisivos, virar dialeticamente engajamento em nova realidade, com efeito, talvez, engajamento dos mais decisivos na situação atual brasileira. A experiência aqui descrita é tanto individual, confessada por numerosos agentes engajados em cultura, quanto coletiva, visível nos fenômenos brasileiros. Vamos tentar desencobri-la em alguns setores.


(a) Poesia: que poemas não são compostos de pensamentos, ou sentimentos, ou visões (ou de outros elementos igualmente nobres), mas de palavras, é fato hoje reconhecido universalmente. E quem diz que poemas são compostos de palavras afirma que permitem três níveis interpretativos. O sintático (no qual se constata a estrutura ordenadora das palavras), o musical (no qual se constam o ritmo e o som das palavras), e o semântico (no qual se constata o significado das palavras, inclusive os pensamentos, sensações, visões e os demais aspectos nobres a que se aludiu). Pois uma coisa é admitir o fato, e outra, inteiramente diferente, é vivenciar o fato na práxis. O poeta brasileiro, queira ou não queira, vivencia o fato praticamente sem teoria alguma, porque a língua brasileira que lhe é matéria bruta é bruta a tal ponto que exige manipulação consciente. Ser poeta no Brasil é praticamente sinônimo de ser poeta verdadeiro. Embora isto seja assim, a alienação da burguesia brasileira era tão forte que até a “Semana de 22” conseguiu encobrir até a língua, tomada como última flor de Lácio, inculta, bela e a ser cultivada. O cultivo deu em galicismos e preciosismos, em cópias defasadas da poesia francesa, e em torrente de críticas literárias e de gramáticas de alto academicismo. Desde então, no entanto, a alienação foi rompida.


Quando os véus ideológicos foram retirados da língua, esta desvendou uma estrutura aproximadamente latina (embora em fase de decomposição), e um repertório do qual participaram línguas das mais variadas origens. Em suma, um sistema tomado de interna violenta que permitiu manipulação profunda sem alteração do espírito da língua, situação esta sem igual no resto do mundo. Um campo aberto e incrivelmente fértil para uma práxis linguística em múltiplas direções, portanto para a poesia (no sentido verdadeiro: criação de língua). Tamanho era o desafio que a fronteira duvidosa entre poesia e prosa foi posta de lado com desdém, e começavam a surgir "obras". Nem todas "grandes" (embora também estas), mas isto não importa. O que importa é que os esforços ensaiados eram revolucionários em vários sentidos.

O repertório da língua foi enriquecido de elementos de todas as línguas disponíveis por imigração em terra brasileira. Este método não apenas enriqueceu a língua (isto seria o de menos), mas modificou os significados das palavras originais em novo contexto, de forma que tornou pensável o até então impensável. Tal introdução forçava o poeta a alterar a estrutura da língua que se recusava a absorver os novos elementos, e tal alteração da estrutura resultava em novas formas a tornar pensáveis situações até então impensáveis. O ritmo português foi enriquecido por ritmos completamente incongruentes, e isto resultou em nova melodia, portanto nova postura vital e nova vivência do mundo. A lienaridade discursiva da língua foi rompida, e com isto foi rompido o “homem unidimensional" do historicismo. Tal rompimento foi conseguido graças a estruturas índias e bantu, a ideogramas japoneses, e à tendência árabe para valorar a letra, mas tudo isto adquiria significado novo em novo contexto. Tal poesia se dava em isolamento, mas em contato constante, e em diálogo desta vez autêntico, com o Ocidente e o Oriente. A revolução é fundamental e manifesta o "novo homem”. O processo é dialético no seguinte sentido: a poesia brasileira manifesta um novo homem, e por manifestá-lo contribui para estabelecê-lo.


(b) Música: parece tratar-se de linguagem universal que liga todos os homens e possibilita comunicação impossível por outros meios. Mas isto não passa de preconceito ocidental, porque a música não passa de linguagem universal do Ocidente. As músicas extra-ocidentais são de compreensão tão difícil e de tradução tão difícil quanto todas as línguas, e basta abrir o rádio no Brasil para constatá-lo concretamente. Pois a alienação burguesa fechou os ouvidos para o fato concreto, até para o fato de na cultura básica haver surgido uma música que conseguiu sintetizar melodia e harmonia portuguesas com ritmo e instrumentalização africanos, e passou a compor em país sem casas de ópera (óperas italianas defasadas). A burguesia contínua construindo estátuas defasadas de compositores defasados em praças defasadas, mas estes são restos superados e a situação da música mudou radicalmente. A revolução atual no campo da música é quase tão complexa quanto o é no campo da poesia, e ainda mais ignorada pela filosofia brasileira. Serão apontadas apenas quatro tendências atualmente em curso. A primeira procura sintetizar, sobre estrutura musical ocidental, elementos de música extra-ocidentais existentes no Brasil, e recorre para tanto a teorias musicais do Ocidente. Esta tendência começa a ter efeito maior fora do Brasil que aqui, por falta de uma crítica merecedora do nome. Uma segunda procura tomar por base a música "de protesto" norte-americana e a declamação em público russa e injetar tal base na música básica popular, por exemplo a carnavalesca e a dos "choros", recorrendo neste esforço também à poesia brasileira. O resultado, conhecido no mundo inteiro por vários nomes (por exemplo, "bossa nova”), está mudando o comportamento da elite brasileira, estabelecendo um primeiro canal verdadeiro entre elite e massa, e tem efeito de bomba no Ocidente. A terceira tendência, muito mais formal, procura voltar até as bases da música ocidental para lá descobrir uma origem que possa ser sintetizada com outras estruturas. Esta ainda não começou a realizar as suas virtualidades, mas por ser a mais "musical" é a mais radical, e grupos significativos de jovens se engajam nela. A quarta procura tomar o carnaval como modelo de verdadeiro happening, no qual a música (inclusive eletrônica) não passa de elemento de jogo. Tal tendência talvez não seja estritamente musical, mas por ser lúdica pode ser aquela que mais violentamente mude a cena.


Tudo isto, no fundo, não passa de promessa, e há tendências na Europa e nos Estados Unidos que parecem ser semelhantes. Mas, se a análise ensaiada for correta, trata-se na realidade dos primeiros sintomas musicais de manifestação da nova mentalidade; as tendências ocidentais seriam, em certo sentido, reflexos de acontecimento brasileiros.


(c) Artes plásticas: Neste campo há, no mundo inteiro, corrida entre produtor e consumidor, na qual ninguém é vencedor e todo mundo é perdedor, já que a oferta de "novidade" não pode satisfazer, apenas atiçar, a demanda. As artes plásticas são o campo no qual a crise atual se manifesta mais claramente, e por isso talvez o campo na qual será superada mais rapidamente. Pois tal caos é tão grande em São Paulo e no Rio quanto em Nova York e Paris, apenas aqui acrescido da onda de amadores incompetentes na qual já se tem falado. Tudo que ocorre no Ocidente ocorre aqui em original durante exposições, e seis meses mais tarde na forma de cópias incompetentes. Mas a despeito disso há fenômenos que provam que também no campo plástico o novo homem começa a articular-se. Tais fenômenos são de tão difícil análise, e exigem tamanha dedicação, que seria leviandade ainda maior no caso dos dois exemplos precedentes querer tratar deles. Uma das mais lamentáveis falhas da filosofia brasileira é a de não se dedicar a estes fenômenos com disciplina (embora existam exposições, como a Bienal de São Paulo, Simpósios e Escolas de Arte que parecem provocar a filosofia). Em vez de dedicar-se a estéticas de Hegel (ou Bense), e analisar textos academicamente, urge analisar tais obras. Aqui basta (e infelizmente precisa bastar) apontar apenas dois fatores. Um tem a ver com o clima lúdico que universalmente penetra as artes plásticas, mas aqui adquire um caráter inteiramente diferente, já que se baseia sobre um traço profundo da essência brasileira. O outro tem a ver com o rompimento da unidimensionalidade do pensamento, graças ao emprego de material transparente, e graças a um nível semântico não discursivo (como desculpa da maneira leviana pela qual este assunto está sendo tratado, o autor aponta trabalhos que publicou a respeito em outro contexto).


(d) Arquitetura: trata-se de ruptura de alienação em dimensão material tão grande que é conhecida até no estrangeiro, de forma que permite uma discussão ligeira. No fundo o processo revolucionário brasileiro procura dar ao termo "habitar" e "abrigar-se" um significado brasileiro, tarefa gigantesca, já que o brasileiro é homem que a rigor não está abrigado, nem habituado com nada. A oposição fundamental do brasileiro com relação à natureza, a vivência brasileira da natureza como mistério tremendo de "madrasta”, sintetiza-se neste campo com elementos japoneses, ocidentais e coloniais em obras gigantescas como a remodelação do Rio de Janeiro, obras essas que ainda não podem ser consideradas “originais”, no sentido de manifestarem uma nova identidade, mas que permitem em inúmeros detalhes (por exemplo, aterros) visualizar essa nova identidade – digamos, na atitude, radicalmente oposta à ocidental, perante o problema da ecologia.


A despeito da superficialidade desta descrição, o caso extremamente ilustrativo de Brasília não pode ser calado de todo. Porque se trata de obra que visa conscientemente ao "novo homem”. É verdade que surgiu de projeto defasado, a saber, do projeto de transformar o Brasil em potência grande - mas tal projeto lhe serviu apenas de pretexto. Para captar a essência de Brasília, que sejam indicados apenas dois aspectos. O primeiro tem a ver com o desdém pela natureza que a cidade manifesta. Impõe-se ela sobre o planalto de forma se diria sarcástica e, embora cercada pelo planalto imenso por todos os lados, vira-lhe as costas. Não há exemplo de tal desprezo da natureza, em semelhante escala, no resto do mundo. O segundo tem a ver com a qualidade curiosamente simbólica da cidade. Trata-se de símbolos altamente "denotativos", já que são símbolos tecnológicos (o plano da cidade tem a forma de avião), ou da teoria política (a praça central simboliza os Três Poderes de uma teoria setecentista). Mas, sorrateiramente, tais símbolos passam de denotativos para conotativos, e lembram, em contexto inteiramente inesperado, macumba. Quem negará, por exemplo, que o Palácio da Alvorada conjura a alvorada? Para encontrar paralelo de uma arquitetura tão não-histórica e tão sofisticada, tão avançada e tão enraizada em fundo mágico-religioso, precisará remontar até as Pirâmides egípcias, ou, melhor ainda, mexicanas.

(e) Técnica: a técnica brasileira (e o técnico brasileiro) merecem um estudo em profundidade não apenas por parte da filosofia brasileira, mas por parte de toda filosofia, porque são fenômenos simplesmente inacreditáveis para quem não os conhece. Conseguem sintetizar teorias científicas, métodos e práxis tecnológicos ocidentais avançados, com a instituição do “palpite genial”, já mencionada. Avançam violentamente contra a natureza de uma maneira que se apresenta para o técnico estrangeiro (sempre presente em empresas importantes), como brincadeira irresponsável. É verdade que tal síntese falha em muitos casos e redunda em fracasso. Mas não é menos verdade que há casos nos quais a síntese resulta em vitórias inesperadas.

É claro que o pensamento ocidental se dá conta do imenso papel do inconsciente em toda atividade humana, inclusive da aparentemente mais racional, como a tecnologia. Sabe disto teoricamente e por depoimento de inúmeros cientistas e técnicos que confessam terem sido "inspirados". Sabe disto e quer tirar disto partido, por exemplo nas experiências chamadas brainstorm nos Estados Unidos. Mas a atitude do técnico brasileiro é inteiramente diferente. Não procura tirar proveito do inconsciente conscientemente, e portanto não cai nesta dialética. O inconsciente nele está quase à tona, a despeito da sua racionalidade disciplinada enquanto técnico, e oferece-se espontaneamente. O resultado é que aqui está surgindo um novo tipo de técnico e tecnocrata, o qual, embora especialista, não perde a sua qualidade humana. Este novo tipo humano pode ter importância imensa para um mundo que tende sempre mais a transformar-se em aparelho e transformar a humanidade em funcionário sub-humano. Em outras palavras: está surgindo no Brasil um homem que supera a falta de valores, a Wertfreiheit da tecnologia.

Para resumir sem cair em "euforia": há, no Brasil, um nível cultural que conseguiu romper a cultura pseudo-histórica e no qual se manifesta um novo homem. Tem ele suas raízes na cultura básica, é irrigado pela cultura ocidental, e está conseguindo síntese de vários elementos que resultam em nova maneira de viver e impor-se ao mundo. Poderá fornecer respostas significativas às perguntas angustiadas de uma humanidade em crise.

O Brasil é sociedade não-histórica, constantemente irrigada pelo Ocidente. O quanto é não-histórica, uma cultura básica caracterizada pelo ritmo africano o prova. Tal cultura tem por efeito um clima festivo e sacralizado que permeia o cotidiano e dá sabor à vida brasileira. O quanto é irrigada pelo Ocidente, uma falsa cultura histórica o prova. Tal cultura encobre com sua vacuidade e seu gosto de mata-borrão a cultura básica, e torna trágica a vida dos que nela se engajam. Tal cultura banha a vida da burguesia em clima de falsidade, de pose, e de articulação de um espírito alheio. Mas tal cultura permite também ser rompida pelos que se encontraram consigo mesmos e passaram a criar um novo tipo de cultura, síntese da básica com elementos ocidentais, mas fundamentalmente não histórica, não obstante.

Tal nova cultura, se bem sucedida, poderia finalmente saciar a fome voraz do espírito do tempo. O sucesso de tal cultura depende de muitos fatores, e grande número desses fatores está além do horizonte brasileiro. Mas alguns deles encontram-se no próprio Brasil, e tem sentido, embora limitado, dizer-se que o sucesso de tal cultura, portanto o estabelecimento do novo homem, depende, entre outras coisas, também de cada homem individual que se engaja nela. Se a tentativa de tal cultura falhar, tudo isso não passará de mais uma esperança utópica a provocar desilusão. Mas, se não falhar, abre horizonte. Tal esperança justifica engajamento, inclusive o engajamento que se infiltrou sorrateiramente, no capítulo presente.
22 Nov 2013
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Definições de Felicidade


Definição de Freud
: O que se chama felicidade no sentido mais estrito resulta da satisfação bastante súbita de necessidades fortemente postas em êxtase e, por sua natureza, é possível somente como um fenômeno episódico.

Definição verdadeira: Felicidade é ganhar um beijinho.



20 Nov 2013
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Batalhas verbais


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João Pereira Coutinho


No dia em que terminei de escrever a minha tese de doutorado, enviei o manuscrito para um colega. E pedi uma opinião sincera.


Três dias volvidos, ele respondeu: "Você vai ser fuzilado pela banca".


O problema estava na qualidade do texto. A tese estava bem escrita. Pior: bem escrita e totalmente compreensível.


Eu tinha cometido uma heresia nas ciências sociais: escrever uma tese de doutorado com o propósito honesto de ser lido e compreendido. Sugestão dele para evitar o desastre: reescrever o texto e transformar cada parágrafo em paralelepípedo.


Lembro essa história agora por dois motivos. Primeiro, porque Barton Swaim escreve na "Weekly Standard" sobre a qualidade da prosa acadêmica. Qualidade atroz, entenda-se. Por que motivo a fauna universitária faz um esforço tão tortuoso para ser tortuosa?


Swaim arrisca três hipóteses. Para começar, as humanidades vivem o complexo de inferioridade que as atormenta desde o século 18, quando as ciências naturais deram o seu salto cosmológico. A impenetrabilidade dos textos humanísticos é uma forma de simular "profundidade".


Depois, existe o problema das influências. Das más influências. O aluno escreve mal porque o supervisor e os seus pares escrevem pior. E porque as revistas da especialidade só publicam esses horrores.


Por fim, a hipótese mais provável: a obscuridade obscurece. Quando nada temos de relevante para dizer, só há uma forma de esconder o vazio: com a babugem das palavras.


Admito que essas hipóteses sejam válidas. Mas se lembro o meu calvário acadêmico é por outra razão: a Morgan Library de Nova York dedica exposição ao escritor Winston Churchill até 23 de setembro. E foi Churchill quem me infetou com o vírus da clareza e da legibilidade.


Sim, eu sei: quando falamos de Churchill, surge a imagem clichê do velho premiê inglês com o seu charuto. O prêmio Nobel da Literatura que ele recebeu em 1953 é visto apenas como prêmio político, uma homenagem ao herói da 2ª Guerra.


Lamento discordar. Churchill merece o Nobel da Literatura como ninguém. Ele é o único escritor do século 20 que mudou o século com a força das palavras. Basta ler os seus livros e discursos para entender a proeza. Uma proeza que, obviamente, começa por ser o resultado de uma vida inteira de leitura.


Primeira lição: não existem grandes escritores que não sejam grandes leitores também. E Churchill era um grande leitor. Biografias apressadas dirão que o rapaz foi aluno relapso e uma nulidade em francês ou matemática.


Essas biografias esquecem-se de acrescentar o resto: a paixão pela História. Ainda na juventude, e nas primeiras campanhas militares, foram os volumes de Macaulay sobre a história de Inglaterra ou a monumental obra de Edward Gibbon sobre a Roma Antiga que acompanharam e formaram o soldado (e jornalista) Winston.


Ler esses primeiros textos de Churchill é sentir, em cada frase, a cadência e a elegância dos mestres da língua inglesa.


Mas Macaulay ou Gibbon não lhe forneceram só os instrumentos técnicos do "métier". Legaram-lhe, sobretudo, uma visão poderosa e inspiradora sobre a grandeza da civilização ocidental --uma grandeza ancorada na liberdade individual e na dignidade da pessoa humana.


Armado com tais certezas, Churchill teve a oportunidade de as testar. Primeiro, na denúncia solitária da Alemanha nazista na década de 1930. E, depois, no confronto direto com Hitler, fazendo com que os ingleses acreditassem no inacreditável: a possibilidade de resistir --e vencer.


Hoje, quando olhamos para trás, dizemos que a Inglaterra ganhou a guerra com o apoio americano e o incomensurável sacrifício soviético. Verdade.


Mas os ingleses ganharam a guerra porque acreditaram também nas palavras de Churchill. Palavras simples sobre a importância da liberdade, da honra e do sacrifício.


Como disse Isaiah Berlin em retrato magistral, a proeza maior de Churchill não foi política ou militar. Foi ter recrutado a língua e a história inglesas para a frente de combate. Elas foram tão importantes como as armas. Brindo a ele.


E, mais modestamente, brindo a mim, que derrotei a banca sem mudar uma vírgula. Cada um trava as batalhas que merece.


Fonte: Folha

20 Nov 2013
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Estórias da Minha Vida




Em 2010, um colega, numa quinta-feira, talvez sob o efeito da fase alcoólica do macaco e alegando desânimo com relação a sua pureza e seu cabaço, pede ao nosso grupo de amigos que ajudássemos em seu humilde pleito, e que concorrêssemos para que pudesse ser aquela noite sua especial consagração em um marcante ritual de passagem que o transporia da cabacisse para a vida mundana.

Não sei se verdade aquela encenação, fato que atendemos e levamos o garoto em conhecida casa, onde as universitárias acabavam de chegar da Faculdade e já se arrumavam para mais uma noite de trabalho duro. ERa um cheiro violento de Victorias Secret, aqueles que nossas namoradas passam e ficam umas 72 horas, em qualquer lugar do corpo.

Confesso que havia moças muito bonitas e atraentes (que não parei mais de encontrar em cafeterias e supermercados) e que, por serem universitárias, conversavam bastante bem, chegando facilmente encantar muitos, que se dispunham a colocar menos a mão no coração e mais na carteira e depois em outras partes do corpo.

Fomos todos, em cinco rapazes. O candidato a ex-virgem logo se soltou, ao embalo de boa música e bebida cara. Se soltou tanto que começou pagar muitas doses para as donzelas, sob reprovação total do grupo, que ainda assim concluiu que a euforia era passageira.

Muito bem, eleita a moçoila cujo amor valia trezentas doletas, mais o quarto, foram os pombinhos para o ninho e, duas horas depois - nós com direito a streep tease free, chorado e conseguido por um amigo - aparecem abraçadinhos em clima de extrema intimidade e carinho mútuo.

Fim!

Comeu mesmo!

Ok, mas não tinha dinheiro pra pagar.

A casa caiu, malandro; a fatura realmente não fechava devido àquela euforia primeira das dose pagas ad populum, as quais nos insurgimos de pronto.

Decidimos, em secreto, pagar a conta, mas antes demos um sustinho no rapaz. Combinamos com o gerente, que mandou chamar os seguranças e que a eles perguntava se os cachorros bravos já tinham comido naquela noite, intimando o rapaz pra que desse um jeito na conta. Realmente, o susto foi grande e moça tinha até se escondido com tamanha confusão que aquilo virou.

Alguns amigos reclamaram bastante porque tiveram que rachar o pagamento da comida de uma puta e das bebidas de várias outras.

Enfim, nosso colega, ao depois, honrou honestamente o débito, traçou o rabo de saia, perdeu gostosamente sua pureza num belo quarto e hoje tudo isso virou uma saudosa piada.

Mas acho que ele saiu até bem, né?
19 Nov 2013
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Estórias da Minha Vida



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Em 2002, a professora de Literatura fez uma votação não sei pra quê, envolvendo Romantismo e o Realismo, repito, sabe-se lá pra quê.

Pois é, todo mundo exercendo a cidadania, votou bonitinho num papelzinho branco que ela passou recolhendo. Mas um elemento anulou seu voto, escrevendo obscenidades muito impróprias do tipo "voto no c. da Isabela".
A casa caiu. E sobrou pra quem?

Pra mim e pro Tiago Zanotti. E não tinha Francisco pra defender.

Aí, referida professora resolveu fazer outra votação para que apontássemos os verdadeiros culpados da brincadeira despropositada. Eu votei em branco.

Houve empate entre mim e Zanotti, e não teve segundo turno.

Assim, não recebemos, ainda bem, nenhum tipo de penalidade, mas, juro mesmo, eu era inocente...
19 Nov 2013
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Estórias da Minha Vida
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Há algum tempo, uma advogada conhecida minha, ao perceber que eu andava meio estressado, me deu um livro intitulado "Nietzsche Para Estressados".
Mal sabe ela o que eu penso desses livros de autoajuda com verniz filosófico muito do sem-vergonha.
Agradeci bastante, mas dei o livro embora e sequer li a primeira página.
Pouco tempo depois, ela me pergunta:
-E aí, gostou da obra?
E eu:
-Ainda não li, estou muito estressado.
17 Nov 2013
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Tecendo a Manhã



João Cabral de Melo Neto


Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

 


E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

17 Nov 2013
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ESTÓRIAS DA MINHA VIDA

Certa vez em Jahú-SP, não tendo nem carta, nem carro, compareci a um pagode numa certa vila e não podendo retornar ao lar, tive que me arrumar por lá mesmo.

Encontrei um amigo da longa data que, gentilmente, me cedeu o barraco para o pernoite.

Ocorre que eu tinha tomado umas cervejinhas posto que estava muito calor, e posto que eu sou ser humano também.

E do consumo de cerveja geralmente decorre desidratação, que também decorre uma busca insistente por água.

Relato também que o pai desse meu amigo era dado a trabalhos espirituais, digamos, mais pesados...dentro de casa.

E isso percebi quando sai do quarto em busca de minha desejável hidratação naquela noite calorenta.

Logo no corredor, algumas imagens, que não me pareceram muito simpáticas, mas eram todas enfrentáveis o que me permitiu chegar ao cômodo final.

Mas foi ali na cozinha que o bicho pegou. Confesso, sim, que fiquei um pouco com medo. Um pouco.

Voltei pro quarto, o sono era muito e a sede nem era tanta assim...
17 Nov 2013
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Estórias da Minha Vida

Gustavo Miquelin Fernandes

 

Quando cheguei a esse colégio, um pouco de minha rebeldia foi abatida com certa facilidade, já que, de cara, encontro um professor mais rebelde ainda e disposto a me humilhar a qualquer momento que fosse necessário - o que conseguia com pouco esforço, para o meu próprio bem.

Francisco lecionava Gramática e Literatura, de maneira esplêndida, com uma franqueza na avalição dos aluno que chocaria até os menos politicamente corretos.

Tinha uma elegância única no manejo do Português que até a mim me impressionava, eu sem a mínima condição de avaliar, já que analfabeto funcional convicto e realizado.

Dizia ele tinha sacrificado boa parte da juventude lendo Literatura Inglesa, deixando de gozar alguns verdes da mocidade, mas sem nenhum pesar - o que nos recomendava muito.

Agressivo com as palavras, talvez franco demais, tinha ares de arrogância, mas em paradoxo, de uma doçura impressionante e uma ironia refinadíssima e cortante. Era um pseudo-durão, em verdade.

Baixo, sempre ao estilo "Seu Madruga": camiseta preta sem estampas, com a calça infinitamente dobrada devido à peculiar estatura, Francisco basicamente era isso - talvez me falte intimidade com a linguagem para fazer sua fiel descrição.

Não tive tempo de fazer amizade forte, nossas conversas eram muito rasas; na verdade, eu não sabia conversar direito e só escutava seus conselhos, surras morais e alguns xingamentos, muito cabíveis a mim.

De humor contagiante, flagrou-me certa vez olhando para o traseiro de uma moça, disparando: "vai comer hoje, ein!"; respondendo eu: "vou não professor, ela tem namorado"; e replicando Francisco, bocudo:

"Na mão, palhaço".

Quem não se lembrar do mantra franciscano "adeemparacompor" que se mate agora; não sabe nem porque vive.

Mas, creio, gostava algo de mim, não muito, na verdade, mas obedecendo uma ordem de queridismo por todos constatada:Tiago Zanoti, Murilo Vieira, Daniel Garcia. Jão e, logo, eu. Na verdade gostava de todos, e todos o gostavam.

Infeliz e tragicamente, Francisco foi ensinar Gramática aos anjos, em 2009, retirado da vida em acidente automobilístico.

Eu não me tornei seu amigo, infelizmente, e era o tipo que eu gostaria de ter como e até sair pra balada. Na verdade, um tipo raro que toda pessoa tem obrigação de conhecer na vida e que deve existir muitos desses espalhados por aí, talvez não tão sinceros...
17 Nov 2013
Admin · 75 vistos · 0 comentários
Nelson Rodrigues

Deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, no entanto, o leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três desertos.
17 Nov 2013
Admin · 49 vistos · 0 comentários
Lendo

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17 Nov 2013
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"Johnny has a dream"

artista Joao Werner


http://www.joaowerner.com.br/images/morte/pintura-digital-johnny-has-a-dream-joao-werner.jpg
17 Nov 2013
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Pensamentos do Lalau


Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto)



- No Brasil as coisas acontecem, mas depois, com um simples desmentido, deixaram de acontecer.

- Antes só do que muito acompanhado.

- Quando aquele cavalheiro nervoso entrou no hospital dizendo "eu sou coronel, eu sou coronel", o médico tirou o estetoscópio do ouvido e quis saber: "Fora esse, qual o outro mal do qual o senhor se queixa?"

- Ser imbecil é mais fácil.

- Está dando mais do que cará no brejo.

- Nos trens suburbanos não livram a cara nem de padre, que dirá mulher de minissaia.

- O mais perigoso é que já estão confundindo justa causa com calça justa.

- O Reino Unido não é tão unido assim como eles dizem, não.

- Desligou o telefone com uma violência de PM em serviço.

- Mais monótono do que itinerário de elevador.

- Macrobiótica é um regime alimentar para quem tem 77 anos e quer chegar aos 78.

- Consciência é como vesícula, a gente só se preocupa com ela quando dói.

- Difícil dizer o que incomoda mais, se a inteligência ostensiva ou a burrice extravasante.

- Sempre ouviu dizer que o homem totalmente realizado é aquele que tem um filho, planta uma árvore e escreve um livro. Tinha um filho, plantou uma árvore, o filho trepou na árvore, caiu e morreu. Só lhe restou escrever um livro sobre isso.

- Quem não tem quiabo não oferece caruru.

- Mania de grandeza é a desses suplementos literários que têm um aviso dizendo que é proibido vender separadamente.

- Pode-se dizer a maior besteira, mas se for dita em latim muitos concordarão.

- Homem que desmunheca e mulher que pisa duro não enganam nem no escuro.

- Todo homem previdente sorri sem falha no dente.

- Mulher expondo teoria sobre educação infantil é solteira na certa.

- Menino mijado, bode embarcado e chefe de Estado, nunca fica despreocupado.

- Ou restaure-se a moralidade ou locupletemo-nos todos!

- Esperanto é a língua universal que não se fala em lugar nenhum.

- Pra quem gosta de jiló, coruja é colibri.

- Era desses caras que cruzam cabra com periscópio pra ver se conseguem um bode expiatório.

- O terceiro sexo já está quase em segundo.

- As coisas que mais contribuem para avacalhar a dignidade de um homem são, pela ordem, bofetão de mulher e tombo de bunda no chão.

- Caetano Veloso confunde velocidade com trepidação.

- Hoje em dia ninguém é bonzinho de graça.

- A polícia prendendo bicheiros? Assim não é possível. Respeitemos ao menos as instituições!

- O primeiro nome de Freud era Segismundo. Aliás, não só seu primeiro nome como também seu primeiro complexo.

- Às vezes é melhor deixar em fogo lento do que mexer na panela.

- Mais inútil do que um vice-presidente.

- Mais mole que bochecha de velha.

- A polícia anda dizendo que prende um bandido de meia em meia hora, então a gente fica desconfiado que eles assaltam de 15 em 15 minutos.

- Ninguém se conforma de já ter sido.

- Quem desdenha quer comprar, quem disfarça está escondendo, mas quem desdenha e disfarça, não sabe o que está querendo.

- Mulher enigmática, às vezes é pouca gramática.

- Quando um amigo morre, leva um pouco da gente.

- Nem todo rico tem carro, nem todo ronco é pigarro, nem toda tosse é catarro, nem toda mulher eu agarro.

- Quem diz que futebol não tem lógica ou não entende de futebol ou não sabe o que é lógica.

- A diferença entre o religioso e o carola é que o primeiro ama a Deus, o segundo, teme.

- Pediatra sempre capricha na pronúncia quando anuncia sua especialidade, pra evitar mal-entendidos.

- Nem todo gordo é bom, muitos se fingem de bonzinhos porque sabem que correm menos.

- Tinha tal pavor de avião que se sentia mal só de ver uma aeromoça.

- Mulher e livro, emprestou, volta estragado.

- O sol nasce para todos, a sombra pra quem é mais esperto.

E para terminar:

- Da minha janela vejo o pátio de um colégio e quando a campainha toca para o intervalo das aulas eu paro de trabalhar e fico olhando, como se estivesse no recreio também.

- O importante é não deixar nunca que o menino morra completamente dentro da gente. Caso contrário, ficamos velhos mais depressa.   Dizem que é por isso que os chineses, de incontestável sabedoria, conservam o hábito de soltar papagaio (ou pipa, se preferirem) mesmo depois de adultos. Não sei se é verdade, nunca fui chinês.


Stanislaw Ponte Preta, nosso querido Sérgio Porto (1923/1968), teve sua vida esmiuçada por Renato Sérgio no livro Dupla Exposição: Stanislaw Sérgio Ponte Porto Preta, editado pela Ediouro Publicações S.A. - Rio de Janeiro, 1998.  Dali extraímos os frases acima (pág. 266 e seguintes), muitas das quais refletem o clima em que vivia o autor face à "revolução redentora de 1964", como ele costumava dizer.

Fonte: www.releituras.com
17 Nov 2013
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Proclamação da República

A proclamação da República foi um golpe perfeito e acabado.

Depois veio o positivismo, o tecnicismo, o bacharelismo, com Rui Barbosa na condução da economia - o encilhamento, as crises internas, e etc.

Quanto mais mais estudo o Brasil, mais mal o compreendo.

Tenho um pouco de repugnância de mobilizações muito estrepitosas e inflamadas. Sempre dá em tragédia. Veja as mobilizações pré-64 - radicalizadas pelo Governo principalmente. Um desastre, acabou em mortes, censura, etc.

A dita pós-modernidade (jamais confundir com o conceito menckeniano de "sociedade aberta") que prega a amoralidade, tende-se sempre para a imoralidade - isso é fatal.

A História desse Brasil sempre foi um engodo e muito mal contada em todas as escolas desse país.
17 Nov 2013
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Consideração rápida sobre a Republiqueta Vermelha de um país não-sério, de gente não-séria, comentado por gente muito menos séria ainda

O diplomata Roberto Campos, um dos raros brasileiros que tinham cérebro e faziam indeclinável questão de usá-lo, dizia que a "res publica" tinha ser tornado "cosa nostra".

Creio que máfia siciliana não merece tamanho agravo e desonra.

Comparar nossos heróis-patriotas (Genoíno/Dirceu/Dilma) a Buscetta, Mannoia e Denaro é aviltantemente desproporcional e deveras ofensivo, e, por lá, renderia um bom processo por dano moral.
17 Nov 2013
Admin · 121 vistos · 0 comentários
Estórias da Minha Vida

Quando tinha uns 14 pra 15 anos, eu e um amigo, que hoje já é casado e tem um filho, fomos a um casamento de uma moça, doméstica em sua casa.

Já sabe né, 15 anos, malandragem a mil. Fomos pra beber e sair fora, com um maço de cigarro escondido no bolso e cheios de más intenções com as menininhas da praça.

Pulamos a cerimônia, sentamos e esperamos, ansiosos pela birita.

E esperamos. Ouvimos umas melodias mais lentas, outras mais agitadas, demos umas letras aqui e ali nas moças muito comportadas ... e nada.

E veio o refrigerante, a água e jamais a cerveja.

Saímos escondido pra fumar, voltamos, e nada...

Até que resolvi indagar o garçom; ele na resposta:

-Oi, irmão, não servimos bebida alcoólica. A festa é abençoada.

...

Pois é. Era uma festa de crente.

Fomos embora, chateados, fumando nosso cigarrinho...
17 Nov 2013
Admin · 74 vistos · 0 comentários
Síndrome de Pinóquio


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Monica de Bolle (O Globo)

 

O que seria da literatura universal sem os anti-heróis e as anti-heroínas? São personagens cheias de vivacidade não por causa de suas qualidades nobres, mas em razão de suas contradições e falhas de caráter. O anti-herói pode ser o preguiçoso Oblomov, de Ivan Goncharov, ou o enigmático K., de Franz Kafka, ou o indolente e mentiroso Macunaíma, de Mário de Andrade. Hoje o mundo está repleto de anti-heróis e anti-heroínas. Os rumos da economia mundial, nas mãos desses homens e mulheres imperfeitos, ficam mais difíceis de mapear. Mas, por certo, a narrativa fica bem mais intrigante. Sobretudo para o Brasil, nestes tempos em que uma estranha síndrome se abateu sobre o País.

O Brasil será rebaixado em breve? O Brasil atravessa uma crise cambial? O Brasil cairá nas trevas da estagflação, na armadilha do baixo crescimento com inflação alta? As perguntas dramáticas voltaram a dar o tom das manchetes dos principais jornais do País e das declarações de alguns dos principais interlocutores do governo brasileiro. O ex-Ministro Delfim Netto chamou de “tempestade perfeita” um cenário possível ‒ embora não o mais provável ‒ para o início de 2014, em que o Fed americano inicie a remoção dos estímulos monetários e que isso venha acompanhado da deterioração fiscal e do déficit nas contas externas que assombram o Brasil.

Não há dúvida de que os números revelam as fragilidades em toda a sua plenitude. Não é à toa que as críticas à condução da política econômica têm feito adeptos das mais variáveis correntes de analistas que se espalham pelo País. Contudo, parece que a sensação de catástrofe iminente está muito mais relacionada à Síndrome de Pinóquio que se apoderou dos nossos governantes do que à realidade expressa nos dados. As contas públicas vão mal, mas não há uma crise fiscal no horizonte de curto/médio prazo. O câmbio voltou a sofrer surtos de apoplexia, embora o balanço de pagamentos não respalde a ideia de crise cambial. A atividade está tísica, mas isso não é novidade.

O problema são os narizes da equipe econômica e a desfaçatez com que saem por aí dizendo que tudo vai bem. O Ministro da Fazenda há muito sofre do mal nasal. Mais recentemente, anda acompanhado do Secretário do Tesouro, Arno Augustin, que declarou em uma entrevista para a Revista Época que nunca ouvira falar em “Contabilidade Criativa”. Talvez conheça apenas a “Criatividade Contábil”, aquela que permitiu que a meta fiscal fosse cumprida no ano passado, mesmo com as evidências inequívocas de que não era bem assim.

Os narizes de nossas autoridades são os anti-heróis brasileiros. Andam por aí como no conto de Nikolai Gogól, fazendo o que bem entendem e assustando os investidores com sua ousadia. No fim, devem voltar às faces de seus donos. Quiçá isso não lhes dê alguma serenidade, sobretudo se as previsões catastróficas dos mais pessimistas não se concretizarem. Enquanto isso, Madame Bovary circula pela oposição brasileira em busca de uma elusiva satisfação que provavelmente não encontrará...
13 Nov 2013
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Bandeira de Gadsden

http://rlv.zcache.com.pt/nao_pise_em_mim_a_bandeira_de_gadsden_do_vintage_cartao_postal-r65cb6fad2b9b46cf9e00b654d4bd8eb6_vgbaq_8byvr_324.jpg

13 Nov 2013
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REUNIÃO NA CHINA

Um fato importantíssimo para o mundo e que, jornalisticamente, creio se dá pouco valor.

A China responsável pela sobrevivência financeira dos EUA e que segurou a crise por aqui em 2008 quer conversar. Líderes do PCC querem adotar o "manteguismo", política de consumo interno em massa, além das sempre prometidas reformas liberalizantes. Não sei o que isso possa significar.

Sobre o relatório da rodada será impossível o acesso, mas o certo é que qualquer aberta na estrutura política sequer foi cogitada e o modelo persiste.

É bom prestarmos atenção nessas reformas.
13 Nov 2013
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Cutucando o Grande Santo da Igreja


"Santo Agostinho (354–430) comentou que se ninguém lhe perguntar, sabe o que é o tempo, mas que fica sem saber explicar-se se lho perguntarem. Referir este comentário é um daqueles lugares-comuns que George Orwell (1903–50) nos incita a nunca repetir porque significam em geral que não se está a pensar."


Desidério Murcho
13 Nov 2013
Admin · 65 vistos · 0 comentários

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